21 julho 2014

Um papo quente ao telefone... Vox, de Nicholson Baker


Imagine uma conversa por telefone que dura horas intermináveis, entre dois desconhecidos que buscam sexo casual. Se você acompanhou até aqui, eis a premissa do livro Vox, escrito por Nicholson Baker, nascido em 1957. Vox é seu terceiro livro publicado. Os personagens começam com a frase clichê "Que roupa você está vestindo?" e engatam um papo que traz a tona desejos insanos, peculiares e banais de ambos os interlocutores. Eles vivem nos Estados Unidos, mas não confirmam a localização exata onde moram, sabe-se apenas que estão em lados opostos do país... 

O grau de intimidade trocado entre os protagonistas é de como se eles se conhecessem pessoalmente há tempos, pois relatam confidências que nunca confiaram a pessoas realmente próximas a si mesmos. Envolvem personagens secundários, da repartição onde trabalham, atendentes, amigos, entre outros. Compartilham a forma como se masturbam, como se excitam, relacionamentos e aventuras anteriores, tudo num clima familiar, amistoso, como se estivessem frente a frente...  

A conversa dura 154 páginas, o livro não se divide em capítulos, e o leitor corre as páginas como se estivesse lendo uma conversa de bate-papo na internet, sem interrupções, fluindo em 'tempo real', enquanto dura a ligação... Através de anúncios em revistas com temática pornô é que eles acabaram 'cruzando as linhas' e mesmo nunca tendo se visto ou tido conhecimento prévio antes um do outro, flertam de forma despretensiosa...

Confesso que logo no início da leitura, não me envolvi o bastante com o longo diálogo, mas da metade em diante a conversa dá uma 'guinada' e fiquei completamente absorta na leitura, só fechando o livro após chegar na última linha... As páginas finais compensam todo o livro, o papo esquenta até demais, de maneira luxuriosa e requintada. Esse aspecto da escrita me ganhou... 

"e começo a passar a língua de um lado para o outro por cima dele, bem devagar, de um lado para o outro, e você sente a minha língua descendo para o lugar que está mais quente..." 

Ficou curioso[a] pra saber o restante? *risos*. Então leia e tire suas próprias conclusões... 
O livro é uma publicação de 1992, da Ed. Companhia das Letras. Apesar de antigo, é relativamente fácil encontrá-lo em algum sebo... Se deu vontade, não exite em comprar quando a chance surgir. Vale a pena. 


Até a próxima postagem, pessoal. ;D  

19 julho 2014

Mistérios da Rainha do Crime - A Casa do Penhasco, de Agatha Christie

Depois de décadas solucionando casos exaustivos, o detetive Hercule Poirot decide tirar umas férias ao lado do amigo, o capitão Hastings - parceiro com pinta de Watson. Nesse descanso praiano, os amigos conhecem Nick, uma jovem espirituosa e de temperamento ativo. Em um curto espaço de tempo, Nick sofre várias tentativas de assassinato e o caso começa a intrigar o detetive.

A jovem é proprietária de uma casa localizada no alto de um penhasco, lotada por dívidas e com aparência soturna. O espaço foi herdado de um tio e desperta interesse em outros familiares, levantando ainda mais suspeitas. O detetive belga e seu amigo capitão decidem tirar a história a limpo, e passam a frequentar a casa da herdeira. Enquanto outros eventos surgem, um acontecimento trágico acaba culminando no estremecimento da autoconfiança de Poirot, complicando ainda mais a trama.

O enredo acima narra as aventuras e desventuras do livro "A Casa do Penhasco" (original Peril at End House, tradução de Otávio Albuquerque, editora L&PM, 2012, págs. 224), mais uma obra da autora inglesa Agatha Christie, a famosa 'Cronista de Homicídios'. Com suas reviravoltas constantes, a narrativa me surpreendeu positivamente. Poirot está menos antipático do que de costume e, finalmente, usou a massa cinzenta para atuar de forma efetiva na cena do crime. 

Com desfecho inusitado, A Casa do Penhasco também levanta uma questão digna de nota: Tudo o que vemos é reflexo do real?


~ Dica do Dose ~

A Maria Valéria (Val) está com uma iniciativa super bacana na cidade em que mora (Paudalho - PE). Ela está conduzindo uma roda de leitura e, muitas vezes, discute as obras de Agatha Christie. Tire alguns minutinhos da sua atenção virtual-real para conhecer esse projeto.

17 julho 2014

O Poder da Paternidade - A QUEDA

O texto de hoje é sobre o livro A queda de Diogo Mainardi e foi escrito pelo colaborador Fábio Michelete.
 

Tive interesse por este livro, pela primeira vez, ao assistir ao programa RODA VIVA da TV Cultura, com este autor. Além das habituais polêmicas sobre suas opiniões políticas, o tema central do programa era o lançamento desse seu romance. O autor possui mais outros (inclusive o premiado “Malthus”), além de livros-coletâneas de artigos que escreveu para a revista VEJA.
O retrato do ser humano, é muito interessante. Diogo Mainardi teve a chance de uma educação aprofundada. Leitor de alto nível, desenvolve suas ideias próprias e as apresenta com sua expressão de enfado, segurança e até certa arrogância.

Diogo tem dois filhos, dos quais o primeiro, devido a um erro médico no parto, teve paralisia cerebral, apresentando comprometimentos motores. Após ganhar processo contra o hospital, mudou-se para Veneza, onde já morara, e agora vive tranquilamente, com uma rotina bastante discreta.

“A QUEDA” é sobre sua relação com o filho e suas incapacidades. Mostra de maneira interessante e bem escrita a luta travada por uma mente inteligente, com muitos argumentos, para acomodar a realidade que o aplacou. Mostra como o amor paternal pode transformar a vida de um homem.

A impressão que tive é que até o nascimento do filho e da extrema responsabilidade que isto acarretou, Mainardi vivia como um estranho no mundo. Pessoa com pensamentos próprios e senso crítico afiado, devia se enfadar com nossa cultura medíocre, baseada nas aparências e no consumo. Sua resposta defensiva foi a arrogância, ou intelectualizar-se ainda mais, na vaidade de repudiar e se diferenciar do incômodo à sua volta. Seu filho o trouxe do mundo das ideias:
“Sua paralisia cerebral obscureceu tudo o que eu sempre cultuara. Em particular, a literatura. O que se iluminou – o que se tornou o único foco de minha vida – foi o que ela tinha de mais ordinário, de mais doméstico, de mais familiar.”
Agora reatado com o mundo, com a beleza finita e rara de cada vida, mostra saborear isto a cada dia, acompanhando os tênues progressos de seu filho. Continua cético e incomodado com a ignorância à sua volta, mas agora parece ter encontrado uma razão para seguir. “A QUEDA” é também um tributo ao filho e ao presente involuntário que recebeu.
Continua ciente de sua (nossa) insignificância histórica, mas agora a abraça como uma velha amiga. Diogo Mainardi afirmou no RODA VIVA que este é seu ápice como escritor. Que não fará mais nada “que preste” além deste livro, pois foi completamente sincero ao fazê-lo:
“Para Marcel Proust, a ´vida verdadeira, a única vida plenamente vivida, era a literatura`. Para mim, a vida verdadeiramente vivida passou a ser Tito.”
Ao "desentronizar" a literatura, aproxima-se mais de seus recantos mais nobres e de seus talentos mais raros. Este livro, pela sinceridade ao limite, pela análise ácida de nossas ilusões, pelas referências históricas, ganha-nos pelo estômago, e passa a fazer parte de meus preferidos.

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14 julho 2014

O Dia do Chacal

O texto de hoje foi escrito pelo colaborador e escritor Fábio Michelete.

Você talvez conheça “Os Pinguins de Madagascar”. Do grupo de pinguins com habilidades características, destaca-se o mais robusto deles, Kowalski, a quem sempre é delegado o trabalho mais duro. E não é que este nome e características provavelmente derivam de “O Dia do Chacal”?

Esta dica de leitura vai empolgar os fãs de espionagem e conspirações. Frederick Forsyth foi jornalista e atuou na Europa das décadas de 60 e 70, tendo testemunhado um período político (para variar) conturbado, com a ascensão de governos de extrema direita e o desmoronar das últimas colônias.

Frederick Forsyth - Foto por Daily Mail (UK)

Aproveitando este instigante contexto histórico, Forsyth escreveu bem sucedidos thrillers, no melhor estilo “James Bond”. Além do mais famoso e primeiro sucesso “O Dia do Chacal”, escreveu ainda “Dossiê Odessa”, “O Quarto Protocolo” e “A Alternativa do Diabo”, todos desconhecidos para mim, espero que por pouco tempo.



Às primeiras páginas do livro, contextualizando a política da França e os reais atentados à vida do Gen, Charles De Gaulle, eu confesso que a leitura parecia morosa. Lá pela página 80, no entanto, você já está nas mandíbulas da trama, e não largará o livro. Um assassino minucioso e elegante age como um preciso instrumento na conspiração para matar o presidente da França, e o leitor acompanhará seus movimentos, assim como os de seus oponentes, representados pelas forças de segurança encarregadas de proteger o chefe de estado.
Forsyth tem habilidade em manter o ritmo da trama. Você não consegue realmente torcer apenas para um lado, e não fica entediado sequer por uma página. Ficará intrigado com a atitude de absoluto controle do assassino, que manipula a seu favor o tempo, a elegância, a qualidade do que utiliza. Em seus caminhos, cenas de crueldade e flertes com ricas mulheres em hotéis exclusivos:

(pg 313)... "Tinha ficado por alguns momentos olhando a paisagem adormecida, até que ela olhou para ele e viu que os olhos dele não estavam voltados para a janela mas, sim, para o profundo sulco entre os seus seios, onde o luar dava à pele uma brancura de alabastro.
Ele sorriu ao ser surpreendido e lhe dissera ao ouvido: - O luar faz até do homem mais civilizado um primitivo.
(...)A coxa era comprimida por ele abaixo do ventre e ela lhe sentia a rígida arrogância do membro. Por um segundo, afastou a perna e logo voltou a encostá-la, com o prazer daquela pressão no cetim do vestido. Não houve um momento consciente de decisão; percebeu sem esforço que o queria desesperadamente entre suas coxas, no íntimo de suas entranhas, a noite inteira."

Do outro lado, o encarregado pelas investigações Claude Lebel, ao melhor estilo do investigador que possui determinação e instintos, que o fazem ser reconhecido e obter a cooperação das principais polícias do mundo. Com ele, a missão de encontrar uma anônima ameaça, sob pena de comprometer sua carreira e o futuro de seu país, e ainda fazê-lo de maneira discreta, evitando o constrangimento para De Gaulle, que se recusa a alterar sua agenda e reduzir a exposição pública.

Tudo se passa, obviamente, num mundo sem internet ou e-mails. Os esforços de comunicação entre polícias e conspiradores passa por casas de câmbio, reservas em poucas cias aéreas, telefonemas internacionais que demoram meia hora para serem completados, diferentes documentos de identidade e exigências legais de diferentes países, no que Forsyth tem a oportunidade de mostrar os resultados de uma vida de viagens pela Europa, e o domínio de mais de três idiomas. Um verdadeiro cidadão do mundo, numa época em que a logística e as comunicações ainda não dispunham de tecnologia que garantisse sua eficiência.

Vale muito a leitura!

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09 julho 2014

Arte em livros de Thomas Allen

Estava navegando pelo Tumblr e achei essas imagens que fazem parte do "Book-Cut Artworks" um dos trabalhos do fotógrafo norte-americano Thomas Allen. A arte é composta por recortes de velhos livros da coleção pessoal do fotógrafo desde os tempos de escola e universidade. 
Para este projeto de 2012, Thomas disse que passou semanas recortando, pinando e colando livros para os sets de fotografia, além da finalização como edição e correção de cores das imagens.



As fotos de Allen já foram expostas em diversos locais como a Galeria Foley em Nova York e Galeria Gibson em Seatle.




Eu gostei bastante dos trabalhos de Thomas e você o que achou? Comente! ;)

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