03 março 2015

A fugitiva, de Anais Nïn

Em 14 de janeiro de 1977, falecia em Los Angeles, um dos grandes nomes da literatura francesa: Anais Nïn, escritora que ficou famosa por suas ideias libertárias sobre a condição sexual da mulher e que revolucionou a época com seus escritos considerados ousados demais para a época, ainda mais criados por uma mulher...

Apesar de francesa, sua obra foi escrita em inglês, pois ela passou boa parte de sua vida nos Estados Unidos. Foi amante do escritor Henry Miller, e teve seus diários publicados, em que conta o romance que teve com ele... Dentre suas obras, algumas das mais conhecidas são Delta de VênusHenry e June e Uma espiã na casa do amor, mas hoje quero trazer para vocês o livro A Fugitiva, publicado pela L&PM Editores, pela coleção 64 páginas. É um livrinho de apenas R$ 5.00 e traz três de seus contos: O basco e a bijou, Manuel e o conto que dá nome ao livro, A fugitiva. O livro é uma excelente pedida, caso você nunca tenha lido nada da autora, seria uma porta de entrada para sua obra. E por um preço bacana, diga-se de passagem.





O basco e bijou é sobre um artista pobre que conhece Bijou num prostíbulo. Ele a tira de lá e levar para sua casa, mas nunca satisfaz sua amante. Ele a deixa nas nuvens para dar-lhe o inferno em seguida. Tratada dessa forma, Bijou acaba reconsiderando a possibilidade de tirar algum prazer e satisfação dessa nova condição de vida... Você pode encontrar este conto no livro Delta de Vênus. 
"Entre cada minúsculo avanço para dentro dela, Viviane tinha uma folga para sentir o quanto aquela presença era agradável entre as paredes macias de carne, como se encaixava nem muito apertada, nem muito frouxa." O basco e bijou.
Manuel conta a história de um pervertido que sente prazer em ter seu falo observado por outras pessoas, e sempre provoca situações para deixa-lo a mostra. Expulso de casa pela família, foi viver em Montparnasse como boêmio. Trens, festas e becos escuros eram cenários ideias para deixar seu pênia à mostra. As pessoas se assustavam, mas ele não pretendia tocar ninguém. Seu prazer era apenas ser observado, e entrava em êxtase quando isso acontecia... Um belo dia, Manuel encontra uma pessoa que tem o mesmo fetiche...
"Ela sabia que ele estava olhando para o sexo dela, sob o pelo muito preto e cerrado, e finalmente abriram os olhos e sorriram um para um outro. Ele estava entrando no estado de êxtase, mas teve tempo de reparar que ela estava em estado de prazer também. Pôde ver a umidade cintilante aparecer na boca do sexo dela." Manuel.
Finalizando o livro, temos A fugitiva, que dá nome à obra. Jeanette é uma garota que pede abrigo a Juan, e este a leva para seu apartamento. Apesar da timidez, os dois acabam descobrindo o sabor do beijo um do outro e ela fala sobre sua mãe e os homens que visitam sua cama, e que fugiu de casa para experimentar os seus homens também. Completamente virgem mas com uma desenvoltura insaciável, Jeanette passa a noite a provar do sabor de Jean. Seu amigo Pierre, com quem divide o apartamento, chega no dia seguinte e se depara com aquela estranha ali... Com o passar dos dias, Jean se cansa de Jeanette e cabe a Pierre o papel de suprir a necessidade da garota...

"Jeanette podia ver tudo, cada contração e expansão. Era como se ele tivesse um pássaro palpitante entre os dedos, um pássaro cativo que tentava voar para ela, mas que Pierre conservava para seu próprio prazer. Ela não podia tirar os olhos do pênis de Pierre, fascinada." A Fugitiva.


Os contos que compõem este livro foram escritos por encomenda. Nin criava contos dessa forma, sim. E muitos deles eram experiências de pessoas de seu círculo de convívio, mas que tinham a identidade preservada. A escrita de Anais Nïn é envolvente e deixa o leitor extasiado. É uma leitura rápida que vai fazer você querer adentrar no universo luxurioso dessa incrível autora...  


Nossa saudosa Eni já tinha falado sobre esse livro aqui...

01 março 2015

Literatura infantil - Vovó tem Alzha... o quê?



Hoje trago para vocês a resenha de um livrinho infantil que li esses dias, e que, apesar de ser voltado para crianças, traz uma temática triste, contada por uma perspectiva que emociona e atenta para uma doença que tem destruído cada vez mais momentos felizes em família... Trata-se do Mal de Alzheimer...

Escrito por Verónique Van den Abeele, uma escritora belga, e publicado pela Editora FTD, em apenas 32 páginas, Vovó tem Alzha... O quê? conta a história de Camila e sua avó. A menina fala sobre as coisas que mais gostava de fazer em companhia de sua querida vovó, e de como elas eram felizes, até o momento em que algo acontece com os pensamentos de vovó e ela começa a esquecer de nomes, afazeres, entre outras coisas, deixando Camila muito preocupada e confusa. É uma leitura curta, repleta de ilustrações, mas confesso que cheguei às lágrimas, pois esse assunto me dá certo temor por alguns motivos pessoais... 

Em suma, é um livrinho tocante, para crianças, mas que pode emocionar um adulto ao ler... Camila precisa entender o que acontece com sua avó, e aprendeu também que hoje, é a avó quem precisa dos cuidados que antes ela dedicava à própria neta... Mas entre tanta tristeza pelo esquecimento que a doença provoca, há algo que a vovó nunca deixa de realizar junto a sua netinha... E isso deixa Camila feliz... 

É preciso que Camila preserve as fotografias, os bolos de chocolate e passeios pelo campo... Reunindo tudo o que aprendeu com sua amada avó, ela põe em prática os melhores momentos da vida ao lado de quem ela ama... Leitura super recomendada, para todas as idades... Uma obra profunda, muito bem ilustrada, que vai arrancar lágrimas dos leitores mais sensíveis...


28 fevereiro 2015

Uma leve leitura para os amantes de gatos... e aos beats... O gato por dentro, de William Burroughs



E hoje venho falar de uma obra encantadora, escrita por William Burroughs e publicada pela L&PM Editores. Já tinha falado sobre o autor e uma de suas obras neste post, e eu costumo dizer que O gato por dentro foi uma singela ode aos gatos que o nosso 'Old Bull Lee' escreveu. Bem, uma das peculiaridades do escritor é que ele fã incondicional dos pequenos felinos. O livro fala da relação entre o homem e o gato, pela perspectiva do próprio autor.

"Nos últimos anos, tornei-me um dedicado amante de gatos, e agora reconheço a criatura claramente como um espírito felino, um Familiar."
Burroughs fala sobre seus gatos como se fossem parte de sua família. Ele chorou quando eles morriam ou desapareciam, ele dava de comer, ninava, sentindo-se um verdadeiro Guardião desses animais. Ele frequentemente sonhava com os felinos em variadas situações. Dentre todos os gatos que passaram em sua vida, Ruski era o mais citado no livro, provavelmente foi o que mais marou a vida de Burroughs... Em alguns trechos do livro, ele critica os humanos que fazem maldade com os gatos, que sentem prazer em machucar seres tão indefesos...

"Quem poderia ferir uma criatura como essa? Treinar seu cão para matá-lo! O ódio pelos gatos reflete um espírito feio, estúpido, grosseiro e intolerante."
Burroughs faz uma comparação dos gatos como sendo elos para ligá-lo ao ser humano, embora ele mesmo seja um. É como se sua ligação com os felinos o mantivesse perto da humanidade. E chama os humanos de espécie moribunda. Os gatos seriam então, o refúgio desse mundo louco? A escrita de Burroughs é leve, parece mais uma conversa informal sobre o apreço por gatos e por isso mesmo torna a leitura agradável e deliciosa. Eu arriscaria dizer que é uma conversa à moda beat sobre gatos...

O Gato por Dentro foi escrito já na fase madura de Burroughs, em meados da década de 1980. Ele traz memórias dos gatos que teve durante sua vida, como eles o ajudaram a recuperar o equilíbrio em diversas fases difíceis de sua jornada e deixa em aberta a questão de 'o quanto um gato pode parecer com seu dono'. Aos apaixonados por gatos, esse livro é uma boa pedida. E se você for fã dos escritores beat, é mais que recomendado ter esta obra na estante...


William Burroughs ♥

26 fevereiro 2015

Dica: Orelha de Livro – a rede social dos livros!

www.orelhadelivro.com.br
A dica de hoje é sobre uma rede social para leitores, mas antes que digam "ah mais uma?" vou dizendo que se fosse só "mais uma", eu não estaria compartilhando com vocês, né?

Então, em minha opinião, uma rede social para leitores precisa ser descomplicada, interativa, visualmente bonita (layout) e leve. Faz um tempinho que conheci o site Orelha de Livro - para apaixonados por livros assim como eu.


DESCOMPLICANDO...

Navegando pelo Orelha de Livro já percebi que o site tem uma plataforma bonita, leve (sem demora para abrir páginas) e objetiva. Posso cadastrar, localizar e organizar os livros que li, estou lendo ou vou ler de forma rápida, sem muito blá blá blá.
Diferente de outros sites, a navegação pelo celular também é muito fácil, não preciso fazer "malabarismos" com o celular para visualizar.
Além disso, não há poluição visual (propagandas que não me interessam), a disposição de cores e ícones facilitam a navegação e a interação. Falando em interação...

INTERATIVIDADE

Rede social seja ela qual for não funciona sem interação e integração com outras redes, principalmente em nossa era cibernética em que queremos compartilhar tudo o tempo todo. Para os apaixonados por livros essa necessidade é ainda maior, afinal, queremos dividir nossos gostos literários e conhecer novos livros através dos amigos também. O Orelha de Livro oferece essa facilidade instantânea: posso compartilhar meus livros favoritos, minhas leituras e mais, posso publicar meus comentários no Feed, posso curtir outras publicações assim como em outras redes sociais. Aliás, a integração com o Facebook é total, compartilho leituras na minha timeline e também interajo com os amigos que também possuem cadastro no site.


I
Isso tudo porque leitores gostam e querem conhecer outros leitores, certo? Ainda mais se tivermos os mesmos gostos literários, né? Pois é, até nisso o Orelha de Livro dá uma ajudinha, mostrando a compatibilidade literária de outros viciados em livros igual a mim! (rs).

Mas tem algo que não posso deixar de dizer, até porque é um baita diferencial: a interatividade com os blogs literários. Sim, você pode conhecer diversos blogs literários e segui-los... Aproveitando, convido vocês para seguirem o Dose Literária no Orelha de Livro, pois será mais um meio para vocês saberem as novidades do blog e o que estamos lendo.




TUDO JUNTO E ORGANIZADO

Como eu disse antes, o site é visualmente mais organizado sem toda aquela poluição com propagandas, mas há mais uma vantagem: a opção de compra de um livro que me interessa através do ícone “ver ofertas” presente no perfil de cada livro.


SIGA-NOS NO ORELHA DE LIVRO

Estou adicionando os livros da minha biblioteca virtual aos pouquinhos e aguardo vocês por lá. Não esqueçam de seguir o blog no Orelha de Livro. Quero conhecer a biblioteca de vocês! Comentem aqui o link do seus perfis para que eu possa segui-los também.

Até mais!

24 fevereiro 2015

Perdas e Danos - Josephine Hart

"Eu abrira uma porta para uma câmara secreta. Seus tesouros eram imensos, seu preço seria terrível. Sabia que todas as defesas que havia construído com tanto cuidado eram fortificações e trincheiras construídas sobre a areia. Não tendo conhecimento de nenhum outro caminho, minha jornada através dos anos fora feita buscando e abraçando os marcos e limites da normalidade.Será que eu sempre soube da existência desta alcova secreta? seria o meu pecado, em princípio, a falsidade? Ou, mais provavelmente, a covardia? Mas o mentiroso conhece a verdade. O covarde conhece seu medo e foge.E se eu não tivesse conhecido Anna? Ah, quanto não teria sido poupado àqueles que sofreram tamanha devastação por intermédio de minha mão!Mas conheci Anna. E tive que fazê-lo, e abrir aquela porta. E entrar na minha câmara secreta. Queria sentir a minha passagem pela terra, agora que já ouvira a canção que canta da cabeça aos pés; e experimentara a selvageria impetuosa que arrasta, rodopiando, os dançarinos para longe dos olhares chocados dos telespectadores; descera cada vez mais fundo e subira cada vez mais alto no interior de uma realidade singular - a explosão estonteante do ego.[...]Começar a existir através da mão de uma outra pessoa - como eu pela mão de Anna - tem como conseqüência estranhas e inimagináveis necessidades. Respirar se torna mais difícil na ausência dela. Eu sentia, literalmente, que estava nascendo. E porque o nascimento é, por natureza, violento, nunca procurei e tampouco encontrei gentileza. Os limites externos de nossa existência são alcançados através da violência. A dor se transforma em êxtase. Um olhar se transforma numa ameaça. Um desafio íntimo, mais profundo do que olhares ou palavras, que só Anna e eu poderíamos compreender, nos arrastou, fazendo com que continuássemos, seduzidos pelo poder de criar nosso magnífico universo particular..."


E hoje trago a resenha de um livro que me pegou de jeito esses dias, Perdas e Danos, de Josephine Hart. Apesar de ter lido pouco esse ano, confesso que essa obra me despertou a atenção porque a capa me lembrou muito Último Tango em Paris, e apesar de serem histórias diferentes, ela se revelou trágica, intensa e avassaladora. Bem o tipo de livro que gosto... Publicado pela Editora Record, Perdas e Danos conta a história de Stephen Flemming, um respeitado homem pertencente à nata da sociedade, que faz parte do Parlamento britânico. Narrado em primeira pessoa, ele conta a trajetória de sua vida, como conheceu sua atual esposa, teve seus dois filhos e sobre Anna, que entrou de forma inesperada em sua vida, trazendo com ela paixão, sexo, perigo e destruição.

Anna é a nova namorada de seu filho, e rapidamente explode uma paixão entre nora e sogro, o que seria um escândalo caso fossem descobertos. Anna é misteriosa, não fala muito sobre sua família ou passado, mas Stephen descobre aos poucos sobre a vida da mulher que está prestes a se tornar esposa de seu filho Martyn. Stephen narra com detalhes a sua vida insossa e 'ideal' aos olhos da sociedade, pois tem um cargo respeitado, filhos perfeitos, uma mulher bonita e elegante, mas tudo isso fica em segundo plano quando ele se envolve com Anna. Ela trouxe cor à sua vida até então cheia de mesmice. Apesar de se sentir culpado em alguns momentos, ele deseja ardentemente sua nora e tenta suprimir o ciúme de vê-la com Martyn. A esposa parece não suspeitar de nada, na verdade, ninguém sabe sobre a relação dos dois, apesar do padrasto de Anna aconselhar Stephen a desistir daquela loucura, porque ele conhece a enteada e sabe que aquela história pode acabar em tragédia...

Confesso que quis grifar capítulos inteiros do livro, mas não poderia porque peguei de um amigo emprestado, então anotei várias passagens intrigantes e marcantes ao longo do livro... Existe uma adaptação para o cinema, trazendo Jeremy Irons no papel de Flemming e Juliette Binoche como Anna Barton. Ainda não assisti, mas pretendo em breve... Até então, eu não conhecia a autora e posso dizer que a primeira impressão que ficou é de que ela escreve com maestria. Por ser em primeira pessoa, senti durante a leitura que estava conversando com o personagem num balcão de bar, em que ele me contava toda a sua história, regada a doses de Whisky [sim, minha imaginação é fértil]. Não sei ao certo em que época a história foi ambientada, mas creio ser algo desnecessário situá-la em alguma década, mas provavelmente, entre os anos 60 e 80...


"Uma folha caiu lentamente sobre a terra, como uma gigantesca lágrima verde. Eu não tinha lágrimas a derramar. Apalpei meu corpo, tocando os braços e o peito. Está coisa terá que ter um abrigo em algum lugar até estar finalmente pronta para ser enterrada. Tenho que [...] viver, continuar vivendo. Mas precisaria de alguma espécie de caixão."

A trama carrega em si mesma todo um histórico de tragédias no passado de Anna. Um suicídio marcou sua adolescência. Um relacionamento antigo vindo à tona. Anna é fria, é a 'razão' do casal, pois Stephen age com paixão e desespero. O seu emocional é mais carregado... Por Anna, Stephen chega ao ápice e sofre uma queda em toda sua vida. A morte leva alguém de sua família, sobra apenas o sentimento de remorso, derrota, o fim de sua carreira... mas ainda assim, em vários momentos, tudo o que ele deseja é 'Anna'.  

"tudo o que resta de uma vida que você amou é um corpo a ser enterrado."
Para aqueles que gostam de histórias regadas a amores proibidos e tempestuosos, com pitadas de sexo e finais trágicos, eis uma boa pedida...

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