18 setembro 2014

Garota, interrompida



Trago para vocês mais uma resenha de um livro que li recentemente mas que já conhecia sua história por causa da adaptação cinematográfica. Garota, interrompida é a biografia de Susanna Kaysen, onde ela relata suas memórias no período que ficou internada numa clínica para deficientes mentais, para tratar de seu transtorno de personalidade, aos 18 anos, no ano de 1967... 

Por não seguir os padrões que a maioria das jovens de sua idade seguem, Susanna resolve se internar de forma voluntária, e acaba conhecendo outras garotas de sua idade, com problemas e distúrbios diferentes mas com um ponto em comum: fora do hospital há uma sociedade que rejeita garotas como elas, famílias que 'esquecem' suas parentes por lá e nas paredes brancas e frias é que essas jovens encontram algum refúgio para espantar os fantasmas de suas mentes... SusannaLisaDaisyGeorgina e Polly logo se vêem juntas, numa espécie de convivência pacífica, onde apenas o companheirismo pode salvá-las de afundar em remédios, gritos ensandecidos e rejeições...


Susanna narra o período que viveu no Mt. Auburn Hospital, as amizades que encontrou nas outras garotas, os problemas em particular de cada uma delas, a paciência [ou falta dela] das enfermeiras e equipe médica, e ainda possíveis amores, e saídas ocasionais. Existe todo um procedimento para visitas, horários de remédios, terapias, exames, a temida solitária, uma velha TV na sala de estar e devaneios insanos. A idade de Susanna e suas amigas é aquele período da adolescência em que as pessoas escolhem uma faculdade, qual marca de carro comprar, que emprego seguir, festas a frequentar, enfim, idade de tomar decisões importantes, mas para elas só restaram comprimidos em horários determinados, lençóis brancos, eletrochoque e consultas mensais com psiquiatras, além de diálogos persuasivos [ou tentativa deles] de conseguirem permissão para sair de uma ala devida a outra ou um passeio monitorado até a sorveteria do bairro em que o hospital se situa...



Dentre as pacientes, Lisa é a paciente sociopata, é a que mais foge do hospital, calculista e que mais arruma confusão com a equipe médica. Outra tem o rosto queimado após uma tentativa de por fogo em si mesma, a outra, sonha em sair dali e ser protegida por seu pai, que atende o pedido da filha de trazer-lhe frangos fritos que lotam seu quarto... 


Daisy

Lidando com a exclusão da sociedade, Susanna precisa encontra-se consigo mesma, entender seus sentimentos, suas confusões mentais e se estabelecer num padrão apto a ser integrado à sociedade. A leitura é uma espécie de passeio ao fundo da mente da protagonista, e por vezes, você acaba se identificando com sua loucura... Ela fala sobre morte, suicídio, ânsia de liberdade... Susanna busca compreender a si mesma...


"Na verdade, eu só queria matar uma parte de mim: a parte que queria se matar, que me arrastava para o dilema do suicídio e transformava cada janela, cada utensílio de cozinha e cada estação de metrô no ensaio de uma tragédia."
Lisa, por Jolie...
O filme rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante à Angelina Jolie, que interpretou de forma visceral a sociopata Lisa. É uma adaptação intensa, e considero fidedigna ao livro, com exceção de algumas situações que em nada abalam o enredo, mas trazem à tona outras perspectivas, como o drama de Daisy, por exemplo [interpretada pela finada atriz Brittany Murphy]. São 191 páginas carregadas de vidas descartadas pelo mundo além das paredes do hospital, vidas que precisam seguir adiante com a ajuda de receitas médicas, e quando algumas conseguem se recuperar para receber alta, precisam encarar o desconhecido mundo que até então as rejeitou... Mas... é preciso viver...

"Enquanto estivéssemos dispostas a continuar transtornadas, não precisaríamos arranjar trabalho ou estudar. Conseguiríamos nos esquivar de quase tudo, a não ser de comer e de tomar a medicação."

Garotas interrompidas no auge de suas vidas. Congeladas no tempo por período indeterminado enquanto a vida segue lá fora...

Winona Ryder, na pele de Susanna Kaysen

"Interrompida em sua música: tal qual acontecera com a minha vida, interrompida durante a música dos 17 anos, tal qual a vida ela, roubada e presa a uma tela; um momento congelado no tempo mais importante que todos os outros momentos, quaisquer que fossem ou que viessem a ser. Quem pode se recuperar disso?"

Garota, interrompida é uma publicação da Editora Única.

16 setembro 2014

A Cor Púrpura - Alice Walker


Meu primeiro contato com A Cor Púrpura foi através da adaptação cinematográfica em 1991. Eu tinha 7 anos, mas o filme teve grande impacto na minha mente infantil. Tornei-me grande fã da atriz Whoopi Goldberg que fez o papel da protagonista Celie. 

Este ano, conversando com uma professora que teve sua tese de doutorado sobre literatura afro americana, pedi sugestões de escritores e ela indicou-me duas escritoras: Alice Walker e Toni Morrison (as favoritas dela). 

Alice Walker (nascida em 1944), recebeu cinco premiações por seu trabalho e é hoje incluída, pelos mais importantes críticos literários dos Estados Unidos, entre os melhores escritores americanos contemporâneos . 

Edição Circulo do Livro, 1982
É inevitável fazer comparações entre livro e filme, pois como já disse, foi um filme marcante para mim. Mas tentarei passar algumas impressões sobre a escrita de Walker. 

No início do século XX, Celie é uma adolescente negra numa região rural dos Estados Unidos. Foi abusada pelo pai diversas vezes e teve dois filhos que foram frutos desses estupros, mas que foram tirados de Celie ainda recém-nascidos. 

Celie narra suas histórias através de cartas que escreve a Deus, pois seu pai mesmo disse: 
“É melhor você nunca contar para ninguém, só pra Deus. Isso mataria sua mamãe.” 
Após a morte da mãe, Celie é obrigada a se casar com um viúvo cheio de filhos e ir para um lar tão caótico quanto o seu. Nettie, sua irmã e única pessoa que a ama, foge de casa e passa um tempo na nova casa de Celie, mas é constantemente assediada pelo cunhado e decide ir embora, prometendo um dia voltar para buscar Celie. 

Nettie conhece um casal de missionários que a leva para uma missão religiosa na África. 

Sozinha, Celie tem de aprender a conviver com sua condição e apesar da sua submissão, o contato com outras mulheres e situações, ensinará como ser forte em um lugar em que ser mulher e negra não traziam novas perspectivas de futuro. 

Pontos interessantes e observados da narrativa: 
  • Não há referências de tempo e lugar na maior parte das cartas de Celie, mas percebemos alguns fatos históricos da época como a ascensão do Jazz e a segregação racial.
  • Sendo uma jovem com pouco estudo, a escrita dela é coloquial. “Ele me bateu hoje purque disse queu pisquei prum rapaz na igreja. Eu pudia tá cum uma coisa no olho, mas eu num pisquei.” Achei a tradução interessante, baixei a versão do livro em inglês para entender as escolhas dos tradutores. 
  • Quando Celie está mais madura, começa a dar indícios de sua orientação sexual e faz questionamentos sobre Deus. 
  • Diferente do filme, o livro também narra os acontecimentos da vida de Nettie na África. 

Walker foi criticada por ter criado um retrato supostamente negativo dos homens afro-americanos, mas em minha opinião ela retratou algo que acontecia em muitos lares pelo mundo. A questão não é se o homem é negro ou branco, e sim como as mulheres eram vistas pela sociedade. 

Leitura recomendada. 

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13 setembro 2014

Trapalhadas sexuais e sociais de uma garota amalucada - Aconteceu em Paris, de Molly Hopkins

Uma garota bonita, atrapalhada e deslocada das convenções do mundo terreno decide procurar emprego em uma agência de turismo. Ela está afundada em dívidas - e, claro, quer consumir mais -, e idealiza logo uma boa oportunidade para viajar, ganhar por isso e gastar. Nessa empreitada, ela conhece um motorista quase-semi-deus e não pensa duas vezes em encarar uma aventura sexual e amorosa ao lado do gatão. Só que nem tudo acaba saindo conforme o planejado e o casal se mete em inúmeras trapalhadas e gargalhadas. Esse é o tempero de "Aconteceu em Paris", primeiro romance da escritora inglesa Molly Hopkins (original It happened in Paris, tradução de Maria Ângela Amorim de Paschoal e Adriana Amback, editora Novo Conceito, págs, 480, 2013).

A história segue o ritmo de comédias românticas cinematográficas, a exemplo de "Como Agarrar Meu Ex-Namorado", "O Casamento do Meu Melhor Amigo" e "O Amor Não Tira Férias", onde personagens destrambelhadas metem os pés pelas mãos, estão sempre em apuros e procuram o amor nos piores lugares, até finalmente conseguirem esbarrar em uma paixão que dure mais do que uma garrafa de vinho. Esse é o caso de Evie Dexter, uma pródiga incurável que vive a rotina com leveza, distração e alienação. Depois de ficar desempregada, Evie procura trabalho em uma agência de turismo e logo consegue; sua missão é acompanhar turistas em uma viagem a Paris, apontando os pontos de visitação, criando um ambiente de descontração, interagindo e informando - já que o passeio também tem um viés cultural. Em uma roupagem europeia, a viagem nada mais é do que nossas conhecidas excursões de três dias, com direito a muita gente tagarelando, bagunçando, aprontando e se divertindo.

Nesse percurso, a amalucada Evie conhece Rob, motorista do ônibus e um verdadeiro Bradley Cooper - pelo menos, foi essa a licença imagética que eu me permiti na leitura do livro. Desse esbarrão, um romance explicitamente sexual desponta e vai evoluindo para intimidade, cuidado, traição e... Muita confusão. Seguindo a fórmula de sucesso dos clichês lúdicos-românticos, Molly Hopkins faz um livro divertido, repleto de referências à marcas, atrizes, filmes e celebridades e, acima de tudo, situações pitorescas que vão arrancar risadas. É um romance para 'abstrair', relaxar, ler de pé para cima e rir muito.

12 setembro 2014

Feliz Aniversário, Marinha ♥

Hoje, dia 12 de setembro, é uma data muito especial para uma pessoa muito importante na vida de todas nós aqui do Dose. Não estou falando de Álvares de Azevedo ou Caio Abreu [embora eu ame esses dois autores], e sim porque é o dia em que nossa querida amiga Mara Vanessa completa mais uma linda primavera na vida... 


Eu confesso que tento ser boa com palavras na hora de expressar meu afeto mas acabo me atrapalhando. Porém, queria deixar por escrito todos os votos de felicidade que eu desejo a você, Marinha, já que não posso estar presente em seus dias, embora esteja sempre em pensamento. 

Digo isto em nome de todas as meninas que passaram pelo Dose, por nós que ainda continuamos seguindo em frente, por nossa querida Eni, que de algum lugar lá em cima está sorrindo por você neste dia.
Nós te amamos pelo ser humano maravilhoso que você é, por sua sinceridade, delicadeza e sensibilidade mágica de perceber as coisas, de sentir e captar tudo que está ao nosso redor...

Um Feliz Aniversário cheio de vida, sucesso, prosperidade e paz na alma. Com doses literárias de muito amor e companheirismo...

Se eu pudesse medir a imensidade do nosso amor por você, diria que a Galáxia é finita comparada a isto.


Parabéns! E ainda veremos seus contos maravilhosos publicados num lindo livro em nossas estantes e nas livrarias do mundo. 

Com afeto...


Deixo aqui uma música de Alcest em sua homenagem...



E aproveitando o ensejo, um grifo meu de Caio f.  pra você...

"É assim o nosso ciclo. Eu te preciso. Perto, longe, tanto faz..."

11 setembro 2014

São Paulo Literário

Ainda há tempo de curtir algumas programações literárias em São Paulo. Moradores e visitantes da cidade da garoa poderão se encantar com uma dica de livro e duas peças teatrais literárias.
Preparem o roteiro para o final de semana! ;)

Dica de Livro

Inspirado por uma visita a pequena cidade de Stratford-upon-Avon na Inglaterra, (berço do celebre escritor e dramaturgo William Shakespeare), Goimar Dantas decidiu explorar as rotas literárias da cidade de São Paulo.
Visitou bibliotecas , livrarias, sebos, museus, centros culturais, faculdades e bares onde acontecem lançamentos de livros e saraus.
Dantas registrou tudo, incluindo seus inusitados encontros e alguns "causos", daí nasceu Rotas Literárias de São Paulo, 368 páginas, lançado em julho deste ano pela Editora Senac.

"Entre a concepção e a publicação foram sete anos, passando pela seleção de 21 roteiros e quase 40 entrevistados." diz Goimar.

Que tal embarcar nesse roteiro de descobertas literárias? 


Teatro

O Teatro MuBe Nova Cultural traz o espetáculo Florbela Espanca – A Hora que Passa; um solo teatral sobre a vida e obra de uma das maiores poetas portuguesas.
Com direção de Fabio Brandi Torres, a atriz Lorenna Mesquita vive Florbela Espanca. Em sua última hora de vida, a poeta discorre sobre si mesma e questiona o papel da mulher na década de 20, com reflexões que ainda cabem para os dias atuais. 
A montagem é resultado de um processo de pesquisa desenvolvida ao longo de três anos com o estudo da obra de Florbela Espanca e visita às principais cidades portuguesas em que a poeta viveu – Vila Viçosa, Évora, Lisboa, Porto e Matosinhos – para conhecer de perto os ambientes e a cultura que a influenciaram.

Ingressos, datas e classificação etária em:



Rei Lear de William Shakespeare interpretado pelo ator Juca de Oliveira.
A direção é de Elias Andreato e a adaptação do roteiro é de Geraldo Carneiro.
A tragédia de um homem velho que ficou sábio. O rei enlouquece após ser traído por duas de suas três filhas, às quais havia legado seu reino de maneira insensata. Nesta versão, Juca de Oliveira é Lear, e todos os personagens da tragédia, considerada uma obra-prima do maior dramaturgo da língua inglesa.

Ingressos, datas e classificação etária em:
Teatro Eva Herz 





Divirtam-se e bom final de semana!

Fonte: Revista Literatura nº 55 (Editora Escala) e Teatros Eva Herz e MuBe.

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