27 junho 2015

No coração da floresta, de Edgard Telles Ribeiro

Finalizei recentemente a leitura de "No coração da floresta", coletânea de contos do diplomata Edgard Telles Ribeiro (editora Record, 2000, págs. 242). São mais de vinte contos onde a experiência como diplomata ajudou a fortalecer as histórias, seja por vivência, tradição oral ou união dos dois fatores. 

Destaque para 'Sabor', com a história do africano que, oriundo de tradição canibal, é o escolhido para transportar um alto comissário da ONU. Uma mistura de cultura e expectativas puxa o fio da trama; 'Rosebud' e o estreito fascínio entre luxúria e loucura, onde uma mulher nua no jardim de casa desperta desejos inconfessáveis; o interessante 'Curva do Rio', com a rica história do jovem sonhador Pedro Magro e seu desejo de voar; 'Alaúde', uma brincadeira entre memória, presente e déjà vu; o amor secreto de um padre em confissão no conto 'Devoção' e o sensacional homônimo 'No coração da floresta', em que passados e rostos escondem segredos que nem desconfiamos. 

As histórias são agradáveis, mas a linguagem está com o toque entrelaçado e estilo 'passeio no labirinto' que tanto percebemos em material jurídico e burocrático. As ações das personagens, seus pensamentos e sentimentos são frequentemente justificados pelo narrador, o que acaba tirando um pouco o brilho da descoberta. De resto, você vai encontrar boas ideias espalhadas pela coletânea.


26 junho 2015

Quincas Borba

“Ao vencedor, as Batatas!” 

Para entender a frase acima, célebre característica desta obra de Machado de Assis, é preciso ler o livro. Não vou dar colher de chá neste aspecto. Esta releitura foi parte do plano para deixar resenhadas as leituras mais importantes, e não esquecê-las mais.


Ao sempre delicioso estilo de Machado de Assis, que faz imagens divertidas para traduzir os sentimentos e ideias de seus personagens, o livro relata a história de Rubião, professor simples em Barbacena, que cuida do amigo Quincas Borba (mesmo personagem de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”) em seus dias finais, e herda toda sua fortuna. Ao mudar-se para o Rio de Janeiro, sua simplicidade o leva a ser explorado pelos novos “amigos”, levando-lhe pouco a pouco as esperanças de um futuro tranquilo e por fim sua sanidade mental. 

Durante todo o livro, o modo de ser simples de Rubião, e o cuidado temeroso que tem com o simpático cão (que também se chama Quincas Borba e cuja guarda era uma das condições do testamento do Homônimo) nos faz simpatizar com ele – desejar sua felicidade, mesmo se reprovarmos seus adultérios e pequenas ambições manifestas.


No entanto, é com a loucura do personagem principal que Machado de Assis, ainda irônico e fazendo comédias, joga por terra esta esperança. Não me entendam mal, o livro é muito bom, mas deixa na gente aquela sensação triste, do final que não desejávamos. 

Ao final, pode-se dizer (sem estragar a leitura de ninguém) que me senti sem vencedor, nem batatas. E para me consolar, apenas a verdade contundente na pena de Machado de Assis:
“Eia! Chora os dois recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.”

23 junho 2015

O Dom, segundo volume da série Bruxos e Bruxas...

Bem, cá estou novamente resenhando um livro de James Patterson. O dom, segundo livro da série Bruxos e Bruxas, já resenhado aqui antes, demorou a ser lido. Quando finalmente consigo tê-lo em mãos, achei que seria mais uma leitura proveitosa como chegou a ser o livro que deu início à série, mas devo dizer que O Dom não me agradou tanto como seu predecessor...

Publicado pela Editora Novo Conceito, O dom dá um enfoque maior nos interesses e gostos pessoais dos irmãos Allgood. Dessa vez, Wisty está sendo perseguida pelo O Único que é o Único, que parece ter como objetivo principal [além de acabar com qualquer tipo de liberdade da população], conseguir algo que só Wisteria Rose Algood tem... O que será?


Confesso que na metade do livro eu já havia matado a charada. Logo no começo da história, ela está para ser executada, e seu irmão Whit não sabe o que fazer para salvar a irmã caçula. Mas, logo que se livram do horror da morte nas cenas iniciais, eles volta e meia caem nas garras do poderoso Único. Confesso que essas muitas fugas e prisões meio que me irritaram... 

O grande amor de Whit já não pode mais ajudá-los. O Fuinha não se decide pra qual lado vai pender. Ele é apaixonado por Wisty, e a ideia lhe provoca arrepios, mas lá no fundo, o traidor parece mexer com a garota... Ela passa o tempo inteiro relutando sobre isso... Em paralelo, se envolve [ou tenta] com um baterista de banda, mas isso provou-se não ser uma boa saída... 

Então... enquanto o mundo está sendo consumido lá fora, as crianças e adolescentes do subterrâneo, que estão sendo procuradas pelo governo estão dando shows de rock. [não vi muita coerência nisso]. Claro que pode ser uma maneira que a Resistência encontrou de dar um certo consolo a esses infelizes, que tiveram tudo em suas vidas perdido: família, amores, amigos, animais, livros... Mas na minha humilde opinião, o momento realmente não se adequava a isso, pelas tensões que estavam permeando a história naquele momento.

Um dos pontos interessantes foi o desenvolvimento dos poderes de Whit, e da própria Wisty. Whit descobre que sua irmão possui um Dom, mas ele não fica atrás. Ao longo dos [curtos] capítulos, podemos acompanhar os poderes do irmão ficando cada vez mais fortes, e nas horas que eles mais necessitam, seu 'poder de fogo' não costuma abandoná-los. 

Sobre a parte técnica do livro, não tenho do que reclamar. A editora fez um ótimo trabalho de diagramação, a capa condiz bem com a história, e o livro foi dividido em 100 capítulos, três partes e um epílogo. Ao final, temos uma espécie de glossário contendo trechos de propaganda da Nova Ordem, identificando mais algumas obras consideradas subversivas, desde obras a artistas, como Lady Gu Gu, Jogos Sedentos e Paulo Cezonne. 

A história finda[?!?] dando gancho para o terceiro volume da série: O fogo. Ainda não o tenho no acervo e só preciso dele para completar meus volumes. Sinal de que O Beijo ainda vai ficar 'empacado' um pouco mais na estante... 

Em suma. para o público jovem, é um livro que agrada em cheio, a linguagem de fácil assimilação, a 'jovialidade' atual inserida nas entrelinhas. Ao público mais adulto, pode agradar, se você não estiver esperando um grande épico clássico universal... Atento mais uma vez, para as referências de obras clássicas contidas ao longo do texto [como o centro Admirável Mundo Novo]. Acredito que essas referências sejam úteis para o jovem leitor 'buscar' essas grandes obras distópicas, a fim de se aprofundar na temática, e começar a montar sua própria 'linha de leitura'... 

Bem, espero que tenham curtido a resenha... Já leram ou tem vontade de ler a série Bruxos e Bruxas?  Podem falar caso não sintam também *risos*...
Até o próximo post... 


20 junho 2015

Carol, de Patricia Highsmith

Muito antes das séries Orange is The New Black e The L Word, do filme Azul é a cor mais quente e da declaração da talentosa e linda atriz Jodie Foster, o amor e a atração entre duas mulheres já circulava nas expressões artísticas e literárias - a exemplo do romance Carmilla (1872), de Le Fanu. Nos anos 50, a escritora norte-americana Patricia Highsmith trouxe ao conhecimento público "Carol" (original The Price of Salt, tradução de Roberto Grey, editora L&PM, 2013, págs. 296), romance que narra a paixão entre a jovem Therese Belivet e a elegante dona de casa Carol. 

As duas se conheceram na seção infantil da loja de departamentos em que Therese trabalhava para juntar dinheiro, pois seu grande sonho era ser cenógrafa. A beleza e o requinte de Carol chamam a atenção imediata da funcionária, fazendo-a buscar meios de entrar em contato. Dentre sutilezas amorosas e eróticas, acompanhamos a vida de uma jovem que quer realizar seus sonhos profissionais e entender sua opção sexual. Do outro lado, observamos uma mulher em processo de separação, com uma filha e obrigações sociais que não suporta. Além da atração, a vontade de transbordar convenções fúteis e de fugir do tédio de uma rotina sufocada para algo maior, ilimitado e vigoroso são elos de ligação entre as duas mulheres. Uma viagem de carro é o suficiente para deixar que os panos dos bastidores roubem a cena do palco.

Na época da publicação, Patricia Highsmith assinou sob o pseudônimo de Claire Morgan e publicou por uma editora diferente da que lançou seu suspense "Pacto Sinistro" (Strangers on a Train), adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock, já que a mesma rejeitou "Carol".

Cena de 'Carol' (2015)

Anos depois, Highsmith disse ter recebido inúmeras cartas de agradecimento e aconselhamento, pois homossexuais e simpatizantes de várias partes do mundo sentiam que tinham uma história que respirava os seus dilemas, prazeres, alegrias e dores. Como a autora destacou, ninguém mais se sentia "obrigado a pagar por desvios, cortar pulsos ou tornar-se heterossexual".

O romance entre Therese e Carol é construído momento por momento e a/o leitora/o pode seguir a trilha das experiências emocionais vividas pelas personagens. 

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Plus:

- Confira a resenha de 'Carol' feita pela Tamara Costa (querida Tam).

- Com lançamento previsto para este ano, a adaptação cinematográfica da história de Therese e Carol será estrelada por Cate Blanchett e Rooney Mara. Confira o vídeo com cenas e imagens do longa.

19 junho 2015

O Retrato de Dorian Gray

Em minhas metas de leitura de 2012, precisava acrescentar alguns clássicos a meu currículo. Foi assim que peguei “O Retrato de Dorian Gray” da prateleira – obra de Oscar Wilde, e agora aproveito para compartilhar minhas impressões.

Autor conhecido pelo homossexualismo numa época em que isso era um enorme tabu (era um tabu?) e pela vida de “dândi” que levou em Londres, Wilde deixa muito de sua própria vivência e entendimento do ser humano neste livro.

Narciso - Caravaggio
A maioria de suas obras não foram romances, mas poesias e peças para teatro, pelo que soube. Ainda assim, faz jus ao título de “clássico da literatura”, pois é denso e bem escrito. O primeiro contato com o livro deixa uma sensação de ritmo lento.  E então, com um fato surpreendente (que não cito aqui para não me tornar “spoiler”), o autor faz o ritmo lento tornar-se mais frenético, e o livro segue interessante até o final. Descompromissados como quem olha a paisagem urbana pela janela de um trem, podemos observar no decorrer da história a vida na nata de uma sociedade rica, sem preocupações por sobrevivência, já anestesiada de suas culpas.
“Costuma-se dizer que a Beleza é a maravilha das maravilhas. Só o medíocre não julga pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível... Sim, Sr. Gray, os deuses foram generosos para com o senhor. Mas o que os deuses dão, tomam logo em seguida. O senhor não tem senão uns poucos anos para viver verdadeiramente, perfeitamente, plenamente. Quando a sua juventude se desvanecer, a sua beleza ir-se-á com ela, e, então, descobrirá que nada ficou dos seus triunfos, ou terá de se conformar com esses êxitos insignificantes, que a lembrança do passado torna ainda mais amargos que derrotas.”
O homoerotismo subjacente aparece nas relações de admiração e controle entre os personagens masculinos iniciais. A misoginia aparece no retrato das mulheres durante o livro – mas aparecem como crítica, não determinismo ou preconceito. São construídos cenários retratando a sociedade fútil da época, mas que, tendo ainda em seus membros a educação sólida de infância, sobra em criatividade para justificar sua inutilidade. Num estilo de vida em que tudo está garantido, os prazeres simples perdem em interesse, e é preciso drogas cada vez mais pesadas. É assim que as personagens trocam frases sarcásticas, polêmicas e desesperançosas.
“Meu caro amigo, nenhuma mulher é gênio. As mulheres são um sexo decorativo. Não têm nunca nada a dizer, mas dizem-no de um modo encantador. As mulheres representam o triunfo da matéria sobre a inteligência, exatamente como os homens representam o triunfo da inteligência sobre os costumes.”
O sarcasmo é uma cortina de fumaça para esconder problemas de autoestima. Nas frases inteligentes e na influência sutil de um personagem sobre o outro, aparece a genialidade do autor, mas também sua prisão e fragilidade. De forma semelhante, o caçador tem a vida da caça na ponta de seus dedos, mas é escravo de mantê-los no gatilho, por precisar dela o suprimento de adrenalina para justificar sua existência.

"Verdade é que todo aquele que observava a vida, em seu estanho crisol de dor e prazer, não podia usar máscara de vidro no rosto, nem impedir que os vapores sulfurosos lhe perturbassem o cérebro e turvassem a imaginação com monstruosas fantasias e sonhos informes. Havia venenos tão sutis que, para conhecer-lhes as propriedades, fazia-se mister experimentar seus efeitos em si mesmo. E enfermidades tão estranhas que era preciso tê-las sofrido, para compreender-lhes a natureza.”

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