28 junho 2016

O Jogo do Anjo, de Carlos Ruiz Zafón

Após ler A Sombra do Vento, mesmo sabendo que os livros seguintes da série do Cemitério dos Livros Esquecidos poderiam ser lidos em qualquer ordem, eu quis porque quis, ler O Jogo do Anjo em seguida, já que ele foi lançado logo após o Sombra... Acontece que na época depois de ler o primeiro, ao invés de comprar o Jogo do Anjo comprei o Prisioneiro do Céu, pensando se tratar do segundo (na ordem de lançamento) ¬¬´
Acabei perdendo um bom tempo procurando o Jogo do anjo pra comprar na época e como não consegui e não me aguentava de ansiedade para ler logo optei pelo e-book mesmo.

O Jogo do Anjo narra a história trágica de David Martín que desde criança conviveu de perto com o o sofrimento pois foi abandonado pela mãe e deixado com o pai amargurado. Ao aprender a ler, encontra nas histórias dos livros, um alento para sua vida infeliz mas isso é mal visto por seu pai analfabeto, que acredita que o filho deve parar de se "iludir" com as baboseiras dos livros. 
Sua história já é iniciada no livro em sua vida adulta e ao poucos vamos sabendo de seu passado. Seu amor pelos livros acabam fazendo dele escritor e Martín então acaba tendo a oportunidade de publicar alguns de seus contos em uma coluna no jornal onde trabalha, mas isso acaba por gerar muita inveja de seus colegas de trabalho, pois ele começa a fazer sucesso. Isso atrai admiradores e um deles chamado Andreas Corelli lhe manda cartas estranhas com um enigmático anjo que mudarão todo o rumo de sua história.
David por fim acaba por ser despedido mas passa a trabalhar para dois inescrupulosos editores que o convencem a assinar um contrato para que trabalhe para eles em uma série de livros encomendados que o mesmo se matará para cumprir os prazos (e sob um pseudônimo). O dinheiro é bom e o escritor acaba por comprar uma velha mansão que desde a infância desejara mas é aí que sua saúde começa a definhar e nesse ponto que o misterioso Andreas Corelli surge com uma proposta tentadora...
Nesse meio tempo, entre suas lembranças do passado e narração do presente Martín nos põe no mesmo plano de fundo do Sombra do Vento: a cidade de Barcelona, só que aqui...muitos anos antes dos eventos ocorridos no primeiro livro, o Cemitério dos Livros Esquecidos é novamente visitado, dessa vez por David e temos uma agradável surpresa ao conhecer os antepassados de Daniel Sempere, pois a Livraria Sempere & Filhos está presente na história e as surpresas ao percebermos quem são certos personagens são ótimas.^^

Se no A Sombra do Vento eu adorei a maneira como Zafón ia contando várias histórias e depois aos poucos, ia conectando e amarrando tudinho, isso foi algo que me fez muita falta nesse outro volume.  
Devo confessar que mesmo sendo um livro muito bom e com uma história cheia de detalhes e reviravoltas interessantes, me desiludi um pouco com ele pelos buracos que ficaram. 
As vezes eu ficava confusa achando que tinha pulado algo ou  tinha deixado passar algo mas logo ao reler via que não, que era mesmo daquela forma.

Diferente do outro livro, muitas perguntas ficaram sem respostas e não foi falta de atenção na leitura...logo após ler o livro, li muitas resenhas e constatei que assim como eu, muitos dos leitores ficaram com uma interrogação enorme no meio da cara. Claaaro que há muitas teorias do porque Zafón agiu dessa maneira nesse livro e uma das explicações é o fato do livro ser narrado por Martín e o protagonista em certo ponto da história começou a entrar numa espiral de loucura e paranóia. Isso explica algumas coisas sim mas não tudo.

Mesmo sendo um livro que me causou tanto estranhamento, o Jogo do Anjo é um livro que indico, principalmente, depois de ter lido o último livro da série O Prisioneiro do Céu...algumas coisas fizeram um pouco mais de sentido...logo logo trarei a resenha dele.

26 junho 2016

Caixa do Correio #15: Tá Todo Mundo Mal, Jout Jout



Foi com bastante alegria que recebemos essa semana da parceria do blog com a Cia das Letras; o livro da Youtuber Júlia Tolezano, mais conhecida como Jout Jout.
Em breve resenha aqui no Dose :)




Sinopse da Editora: 

Do alto de seus 25 anos, Julia Tolezano, mais conhecida como Jout Jout, já passou por todo tipo de crise. De achar que seus peitos eram pequenos demais a não saber que carreira seguir. Em Tá todo mundo mal, ela reuniu as suas “melhores” angústias em textos tão divertidos e inspirados quanto os vídeos de seu canal no YouTube, “Jout Jout, Prazer”. Família, aparência, inseguranças, relacionamentos amorosos, trabalho, onde morar e o que fazer com os sushis que sobraram no prato são algumas das questões que ela levanta. Além de nos identificarmos, Jout Jout sabe como nos fazer sentir melhor, pois nada como ouvir sobre crises alheias para aliviar as nossas próprias!

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24 junho 2016

Almoço Nu - William Burroughs


Tenho família, quero ter futuro, quero que o mundo tenha futuro – então, esta literatura pode ter chegado tarde para mim. Já não posso curti-la sem amarras. Almoço Nu, de William Burroughs, é a Humanidade Nua em seus desejos mais inconfessos. Mais uma experiência promovida pela parceria com a Companha das Letras.

Burroughs, morto em 1997, ganhou notoriedade por fazer parte do movimento Beat, juntamente com Ginsberg e Kerouac, com quem supostamente passou tempo e viajou pelos USA. É importante frisar: “supostamente”, porque toda uma mística foi criada sobre os autores. Em apêndices de Almoço Nu, Burroughs afirma: "Quando afirmei não ter lembrança alguma de ter escrito Almoço nu, é claro que estava exagerando...". Kerouac confessou que a droga usada para o motivar por “On the Road” não foi Benzedrina, mas prosaicas doses de café.

Aliás, como chapados escrevem um romance? Não escrevem. O conjunto de textos de "Almoço Nu" é uma montagem feita pelo autor, com auxilio de Ginsberg (por quem Burroughs tinha uma queda) e com a intervenção de vários editores. Desde 1959, as edições são diferentes.

"Almoço Nu é uma cópia heliográfica, um pré-livro...insetos negros anseiam por vastos cenários de outros planetas...Conceitos abstratos, simples como álgebra, reduzem-se a um monte de bosta ou a um par de cojones velhos..." (...) "Almoço Nu exige silêncio de seu leitor, caso contrário, acaba tomando seu próprio pulso..."(pag.249) 

O livro é uma experiência bem mais intensa que “On The Road”, de Kerouac. Compartilhavam o experimentalismo e o uso de drogas, em um país que vivia sua “Golden Age” desde os anos 50, renascendo após a segunda guerra. O sonho do americano médio, o emprego, a casa, a família, não faziam sentido para estes jovens. Era a realidade de seus pais – tudo o que queriam questionar. Pra que cuidar e semear para o futuro? A realidade é apenas o presente, como na cena inicial de Trainspotting (recomendo muito!).


O uso de drogas e da vida sensorial em sua intensidade máxima, sem medir consequências, é vivê-la completamente no presente. Não se pensa nos riscos. DEVE HAVER riscos, simbolizando a entrega completa e desvinculação com qualquer compromisso de civilidade. Como a expectativa dos monges budistas ao meditar, livrar-se de qualquer identidade, diluir-se nas experiências cotidianas sem nenhuma presença ou julgamento, mas fazê-lo sem percorrer o caminho longo da vida monástica. É o caminho oposto à disciplina. Interessante ver que os dois extremos podem se tocar nos resultados.
“Buda? Um notório Junky metabólico... Produzia sozinho tudo de que precisava, se é que você me entende. (...) Então Buda aparece dizendo: ´Não preciso aguentar esse negócio, juro por Deus que eu mesmo vou metabolizar minha junk´.”
A literatura de William Burroughs é puro TEMPO PRESENTE. Ou melhor, é ausência de passado e futuro. Educado em boas escolas e de família com recursos, utiliza um recurso intelectual mais lapidado para renegar completamente suas origens (passado) e falar das experiências presentes. Acho que para ele é ainda mais difícil que para Kerouac e Ginsberg, pois estes estão mais jovens e desprendem-se de menos passado, menos convenções, em sua literatura experimental. 

As consequências que se apresentem, tanto faz. Personagens morrem, são abusados sexualmente, explodem em orgasmos e experiências, enlouquecem, E DAÍ? Viveram o presente, não controlam seu viver, ou melhor, não querem controlar nada.  O ideal da mente puramente adolescente. Não amadurecem, não porque não são capazes, mas de modo voluntário: porque não querem.

Kerouac, Ginsberg e Burroughs
O controle é o inimigo  a ser destruído em ALMOÇO NU. Linguagem chula, Junkys em aventuras sexuais (principalmente homossexuais, pois era a orientação de Burroughs), parágrafos sem sentido, não estão lá como mera escatologia, nem porque o autor quisesse chocar a américa conservadora. 

Consegue desprender-se das experiências literárias anteriores, e sua notoriedade deriva do sucesso nessa empreitada. Quer que a leitura seja como a droga. Pegue o livro de qualquer página, a experiência será igualmente inebriante. Muitas páginas, por que tantas? Intuo que a entrega seja parte da experiência. É preciso imersão, tem que durar algum tempo. É preciso se intoxicar, desistir de nosso senso organizador, livrar-se da mente civilizada. 
“É isso mesmo que está escrito?...Tento me concentrar nas palavras...elas se desmembram em um mosaico sem sentido...” (Pag. 82). 
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