11 maio 2016

O Pescoço da Girafa, de Judith Schalansky

Lançado em Março/2016 pela Cia das Letras, o livro de Judith Schalansky nos apresenta o ponto de vista da Professora Inge Lohmark. Esta é a primeira façanha da autora que, sendo relativamente jovem, consegue retratar tão bem uma professora de meia idade. Lohmark foi criada na Alemanha Oriental, e se adapta à vida conforme passam os anos na Alemanha reunificada.

Seu ponto de vista é sempre calcado na biologia e na genética, temas que leciona numa escola decadente em uma pequena cidade. Não se trata de mera reverência ao método científico. Usa a teoria da evolução como pedra filosófica fundamental. É assim que a personagem principal julga o mundo. 

Desde seu envelhecer como mulher, seu relacionamento, sua forma de lecionar - as descrições são feitas reproduzindo o processo de pensamneto de Inge. A forma desapaixonada e frustrada como relata sua relação com os alunos é em si uma crítica à educação. Mas embora se posicione, expõe sem medo que cada escolha implica consequencias. A escola tem que ser dura e disciplinadora? Então a criatividade se vai, e as pessoas ficam meio máquinas. O diretor quer uma escola mais humana e tolerante? Então os pequenos filhotes humanos se entregarão à preguiça.
"...permaneciam presos nas cadeiras e sonhavam com as férias que se aproximavam. Alguns pareciam distraídos e incapazes de raciocinar, outros fingiam submissão por conta dos boletins iminentes e empurravam a prova de biologia para a mesa da professora como gatos deixando ratos mortos no tapete da sala."
Nas primeira tribos humanas, deve ter se consolidado o valor da fêmea permanecer viva mesmo após se tornar infértil. As avós tinham importância, por contribuir com experiência no cuidado com a tribo. Nas sociedades modernas, no entanto, por vezes os filhos vão viver longe, ou decidem nem ter filhos, encerrando a transmissão genética. Inge Lohmark aborda esse tema de maneira implacável:
"De fato, não aprendiam aquilo. Ninguém lhes contava sobre a segunda transformação do corpo. O retrocesso sorrateiro. Atrofia do sistema reprodutor feminino. Interrupção das regras. Vagina seca. Carne murcha. A questão sempre foi o florescimento. Outono."
Wolfgang, o marido de Lohmark, cria avestruzes, e também é objeto de sua avaliação segundo a sua "ética" genética:
Cada macho tinha duas fêmeas. Esposa e concubina. Era sempre um trio. Avestruzes vivem a três. Os machos chocavam de noite, as fêmeas de dia. Como tudo podia ser simples.(...) Wolfgang já tivera duas fêmeas também. Duplo exito de incubação. Duas mulheres, tres filhos. Um quadrado entre dois círculos. Illona e ela. Porém, Inge não tinha nada a ver com essa mulher."
E a sociedade alemã, em franca mudança, mas que ainda encontrava nas escolas os órfãos das ideias de igualdade do antigo regime. As discussões com os outros membros do corpo docente são sempre divertidas. Quando ela comprova com fatos que seus discursos não funcionaram, passa a ser vilanizada como uma "americana capitalista". Ela não aceita o rótulo. Seu único senhor é a biologia. Considera (como eu) as ideologias políticas como teorias de segunda classe:
 - Tem razão, Inge. Um pouco de propaganda demais. Não precisaríamos disso de qualquer forma.  
Primeiro, os besouros de batata, que supostamente foram lançados por aviões norte-americanos para destruir as safras. Um fênigue por peça. Vidros de geleia cheio. E o milho que de repente foi plantado em todos os lugares e contaminou o solo com nitrogênio? (...) O que não dá certo, é ajustado. A teoria do Tudo segue a lei da mordaça. (...)
 - Está bem, senhora Lohmark. Sua genética americana capitalista venceu.
 - Eu não entendo: o que há de tão capitalista na genética?
Recomendo muito a leitura. Não é literatura fácil, e mostra que a autora ainda tem muito talento para nos mostrar. Foi uma reflexão importante para mim, pois à medida em que envelheço, tendo a buscar a utilidade prática de cada uma de minhas convicções. Talvez esteja sendo muito duro com minhas crenças. 

Aprendi com a professora Inge Lohmark que uma vida devotada à lógica completamente "instrumental" nos livra das ilusões - mas resulta que nos tornamos "des-iludidos"...

Judith Schalansky - mesma foto do livro, sem ilusões em seu olhar.

09 maio 2016

Eu, Robô de Isaac Asimov

Adoro ficção científica em filmes, já assisti vários no estilo mas quando se trata de livros do gênero, minha lista é quase nula. Para não dizer que nunca li nada, ano passado eu li As Crônicas Marcianas do Ray Bradbury e adorei. Por esse motivo eu resolvi que tinha que aumentar minha bagagem literária nesse sentido e resolvi selecionar o livro Eu, robô do Isaac Asimov pelas ótimas críticas.
Uma pena que a experiência não tenha sido tão maravilhosa como previ...

O livro Eu, robô é na verdade um livro de contos, coisa que só descobri quando comecei a leitura. São 9 contos narrados sob o ponto de vista da robopsicóloga a Dra. Susan Calvin. Nele é mostrado as três leis da robótica que são basicamente a que um robô não pode fazer mal a um humano, deve obedecer aos humanos a não ser que seja pra machucar outro humano e por último tem que proteger-se desde que não conflite com as duas primeiras leis. 
Ela relata várias histórias sobre essas maravilhosas máquinas criadas pelo homem desde os primeiros robôs mais simples que serviam como "babás" até os mais modernos que poderiam até controlar o mundo. Todos os fatos se passam em seus vários anos de trabalho na empresa U.S. Robôs & Homens Mecânicos SA e o mais engraçado de tudo é que seu trabalho existe justamente porque as vezes acontecia de algum robô ter algum defeitinho de fábrica que se chocava diretamente com algumas das leis da robótica e cabia a Dra. analisar o robô e resolver os conflitos. 
São histórias curtas, com uma certa pitada de humor. A escrita do Asimov é boa mas teve momentos em que me perdi em algumas partes devido aos termos usados, não que seja uma linguagem muito sofisticada e nem nada, mas tinha hora que eu acabava me entediando porque eu tinha a impressão que o autor demorava-se muito dando explicações sem importância para o conto em si.

Fora isso, no geral são bons contos mas preferi três: Robbie, O Mentiroso e Razão. O primeiro conto Robbie mostra a amizade entre uma criança (no caso aqui a própria doutura) com um robô babá, que não falava mas adorava ouvir histórias. Outro é o conto O Mentiroso onde ela narra sobre um problema enorme que teve com um robô que lia pensamentos e causou a maior confusão e por fim...o conto Razão em que um certo robô não acredita que foi criado por humanos e sim por uma máquina superior a quem ele chama de mestre e faz todos os outros robôs em volta acreditar em sua teoria.

Acredito que pra quem é fã de Ficção científica, esse livro é um prato cheio mas para os que estão apenas começando como foi meu caso, pode ser uma leitura um pouco cansativa. Talvez eu tenha sorte em outro livro do Asimov mas não foi o caso desse.

Pouco tempo depois da leitura assisti ao filme Eu, robô de 2004 estrelado por Will Smith. Tive a curiosidade de saber se o filme era parecido com algum dos contos...o filme é bem bacana, mas as poucas semelhanças com o roteiro e livro são o fato de termos uma Dra. Susan Calvin e robôs.

O Fábio também fez resenha sobre o mesmo livro aqui, confira ;)

Até mais! :)

07 maio 2016

The Phantom of the Opera, versão de Jennifer Bassett

Uma história de amor coberta pela névoa do mistério, do terror e da morte. O clássico The Phantom of the Opera, do francês Gaston Leroux, foi publicado no início de 1910 e eternizou a figura do "fantasma da ópera", um sujeito que assombrava a magnífica Opera House de Paris. Dono de uma cadeira cativa na ópera, credor de um auxílio mensal dos diretores do teatro e responsável pelas mortes de todos aqueles que o contrariam, Erik, esse é o nome da assombração, é apaixonado pela bela cantora Christine Daaé.

Ensinando técnicas de canto lírico à Christine, Erik é a voz que ecoa por todos os dezessete andares da altiva construção, que inclui passagens subterrâneas e salas desconhecidas. Como toda tragédia de amor, há um triângulo amoroso na trama: Christine é apaixonada por Raul, um jovem nobre que também a ama. Nessa roda sentimental, alguém vai ficar sem lugar.

A versão de Jennifer Bassett para The Phantom of the Opera, lançada pela Oxford Bookworms Library, é baseada em diversas fontes. Ao longo dos anos, o enredo original foi modificado, adaptado e ganhou novos formatos. Na interpretação de Jennifer Bassett, o fantasma da ópera sempre foi rejeitado por conta de uma deformação genética que liquidou seu rosto. Há histórias que preferem falar de Erik como um exímio cantor de ópera que, vítima de um terrível incêndio, ficou para sempre marcado. Existem também belíssimas adaptações musicais para a música tema; minhas preferidas são a do musical de Andrew Lloyd Webber e a da banda finlandesa Nightwish.

Em inglês de nível básico, a narrativa de Jennifer Bassett vai fazer você querer conhecer o texto original e, de quebra, assistir ao filme com o sensacionalmente belo ator Gerard Butler no papel principal. Vai por mim.

O ator Gerard Butler na pele do Fantasma da Ópera


29 abril 2016

Só garotos, autobiografia de Pati Smith

A Editora Companhia das Letras nos brindou com a publicação de uma autobiografia da cantora, compositora e poeta Patti Smith. Nascida em Chicago, foi uma artista que viveu numa geração marcada por gritos de rebeldia, impulsividade e liberdade. Mas ao contrário de vários que cruzaram seu caminho, ela soube manter a razão naquele universo de entorpecidos...

O livro é dividido em cinco partes. Na primeira delas, conhecemos sua origem, numa família tranquila, os problemas comuns a adolescentes da década de 60 e de quando toma a decisão de ir morar em Nova York.

Na segunda parte ela fala sobre Robert Mapplethorpe, seu companheiro por longos anos, em que dividiram alegrias e dores, a fome e a esperança em dias melhores... Juntos, eles compartilharam sanduíches de queijo e alface, mobiliaram seus quartos com móveis retirados do lixo, leram juntos, amaram-se de maneira plena e com entrega total... A relação dos dois descrita por Patti é capaz de emocionar os leitores mais insensíveis...

Juntos foram morar no Hotel Chelsea, palco de diversas celebridades [e outras nem tanto assim], que percorriam aqueles corredores, em busca de uma emoção, uma picada, uma transa ou até mesmo uma conversa informal... vidas que se entrelaçavam e que compartilhavam do mesmo sentimento de rebeldia contra a guerra, contra a pseudomoralidade, em busca da arte que era considerada inovadora e 'para poucos'. Musicalidade repleta de poesia... 




Até que veio o momento de deixar o Chelsea. As poucos, Patti e Robert se distanciaram, mas o elo jamais se quebrou... e quando ele estava prestes a falecer [descobriu que estava com AIDS], Patti fez a promessa de que um dia iria escrever um livro sobre ele, sobre ambos... E eis que temos Só Garotos, que nasceu dessa promessa, de imortalizar seu companheiro, que a salvou de diversas maneiras e a fez sentir-se importante e protegida na gigantesca selva de pedra intitulada Nova York...

A edição está belíssima, conta com várias fotografias do Acervo da cantora e traz também algumas memórias acerca de suas [poucas] viagens. É cheio de referências a artistas como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Brian Jones e Andy Warhol. A 'cena' na Factory, Chelsea, Max's, e no Teatro La MaMa permitiu que o casal conhecesse muita gente que marcou o mercado da indústria cinematográfica, musical e artística das décadas de 60/70 e 80... 

Em suma, até para aqueles que desconhecem o trabalho de Pati Smith podem se sentir familiarizados com suas experiências, cativados por suas lembranças e enternecido com a trajetória da artista, bem como com a de Robert... Certamente, é uma leitura que vale a pena... 


27 abril 2016

Para Poder Viver: A jornada de uma garota norte-coreana para a liberdade

Cia das Letras - 308 páginas - ed. 2015
"A Coréia do Norte é um dos países mais fechados do mundo. Ao final da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS) alimentaram tensões internas entre o Norte e o Sul da então unificada Coréia, levando à eclosão da Guerra da Coréia em 1950. Após três anos de conflito – no qual estiveram envolvidos EUA, pelo lado sul-coreano, e URSS e China, pela Coréia do Norte -, foi acordado um armistício que resultou na divisão do país em duas partes. Mais de um milhão de mortos foram registrados em ambos os países, bem como a enorme destruição da infraestrutura da Coréia do Norte."
(Fonte: Carta Capital)

Confesso que o tema Coréia do Norte sempre me instigou bastante, é difícil para alguém que vive no Ocidente “democrático” (polêmicas sobre a situação política à parte) entender como um ser humano tem seus direitos primários usurpados por um governo tão covardemente. Para entender a história de Yeonmi, temos que nos imaginar vivendo neste que é considerado um dos piores lugares do planeta para se viver. 

Então, imagine-se vivendo em um lugar onde se fraciona comida, luz, água, onde se impõe as pessoas o que devem pensar, no que devem acreditar, o que fazer, onde trabalhar, onde morar e até com quem devem se relacionar; onde não existe comunicação com o mundo exterior, internet só para o alto escalão do governo, televisores com canais feitos pelo governo, com conteúdos do governo; rádio obrigatoriamente ligado 24 horas por dia com propaganda ideológica; imagine-se vivendo em um lugar onde se é executado em praça pública por assistir um filme americano; imagine-se vivendo num lugar do qual não se pode sair, e a única opção viável para a sobrevivência é a fuga desesperada e perigosa pelo deserto, muitas vezes com destino a lugar algum. Imagine-se viver sem nosso mais sagrado direito: o da liberdade. Essa é história da vida de Yeonmi Park, que em detalhes conta sua luta e as coisas que teve que fazer para como diz o título de seu livro, poder viver.


Nascida em 4 de outubro de 1993 na pequena cidade de Hyesan, Park como cita no início, nunca havia pensado em liberdade, nem sequer sabia o seu significado; suas ambições sobre uma vida diferente da que ela e sua família tinham, começaram a florescer depois que seu pai foi preso acusado de contrabando e ela com a irmã mais velha e sua mãe se viram em estado de completa miséria. Park diz em sua biografia ter tido durante sua infância alguns “pequenos gostos de liberdade”, como quando assistiu pela primeira vez a uma fita contrabandeada da vizinha China do filme Titanic. Mas foi a prisão do pai que a ideia passou a ser uma luta de vida ou morte pela sobrevivência.


A fome foi um dos grandes obstáculos na vida de Yeonmi e de sua família. No capítulo As noites mais escuras, ela conta como sobreviveu ao frio e à fome quando sua mãe se via obrigada a deixá-las sozinhas para conseguir dinheiro após a prisão do pai. A Coréia do Norte passou por uma das piores crises da fome na década de 1990, levando milhares de pessoas à subnutrição e à morte. O sonho de Yeonmi nessa época? Poder comer todo o pão que pudesse.


Atualmente Yeonmi atua como ativista dos direitos humanos e vive com sua família nos Estados Unidos. Em seu discurso ao Young World One, organização que luta pelos direitos humanos, ela relata seu sofrimento e pede ajuda para a situação dos refugiados na China que ao serem descobertos são repatriados e mandados de volta para a execução na Coréia do Norte. 

Uma história emocionante do começo ao fim. O relato honesto de uma sobrevivente. Essa é a vida de Yeonmi Park que eu tive a honra de conhecer, inspiração para a vida.

Assista seu discurso legendado aqui:



Posts relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...