29 agosto 2015

Caixa do Correio #3 - Uma história de amor que nasce entre dor e ódio

A parceria deste blog com a editora Companhia das Letras tem movimentado ainda mais nossas atividades, possibilitando a reflexão e discussão de obras literárias, sejam elas do time dos clássicos ou dos lançamentos. Iniciativas assim, cada vez mais frequentes, são a prova de que a literatura deve transbordar o copo dos saraus, academias e citações localizadas e pontuais, indo tocar a campainha do monitor de muita gente.

No mês de setembro, nossa Caixa do Correio irá trazer A zona de interesse, livro do escritor britânico Martin Amis - traduzido por Donaldson M. Garschagen.

Foto da capa do livro para ilustrar este post: Rafaela Torres

"A Zona de Interesse, em Auschwitz, era o local onde os judeus recém-chegados passavam pela triagem, processo que determinava se seriam destinados aos trabalhos forçados ou às câmaras de gás. Este romance se passa nesse lugar infernal, em agosto de 1942. Cada um dos vários narradores testemunha o inominável a sua maneira. O primeiro é Golo Thomsen, um oficial nazista que está de olho na mulher do comandante. Paul Doll, o segundo, é quem decide o destino de todos os judeus. E Szmul, o terceiro, chefia a equipe de prisioneiros que ajudam os nazistas na logística do genocídio. Neste romance, Martin Amis reafirma seu lugar entre os mais argutos intérpretes de nosso tempo."
Fonte: Blog Companhia das Letras

Em breve, a resenha do livro será divulgada aqui no blog - evento aberto à discussão e debate, sempre.

26 agosto 2015

Pequenos Deuses, 13º livro da Série Discworld

 Recebi este livro como cortesia da Bertrand Brasil e confesso que nunca tinha lido nada do autor, Terry Pratchett, e a leitura me pegou logo de cara... Pequenos Deuses é o 13º livro da série Discworld, é considerada um clássico de Fantasia e foi publicada em vários países e traduzida para mais de vinte idiomas. Discworld é o mundo fantástico onde as histórias ocorrem, servindo de referência por satirizar jogos de RPG e grandes autores do gênero... 



Somos apresentados a Brutha, ingênuo e de ótima memória, que vai se aventurar mundo afora junto com uma tartaruga que se apresenta como sendo o grande deus Om. A religião é algo fortemente discutida no reino, e os deuses precisam da crença das pessoas neles para adquirirem poder. Quanto mais seguidores, mais poder o deus terá. O problema é que a única pessoa que acredita realmente em Om é Brutha, e a tartaruga depende dele constantemente para não ser morta por engano... 

Apesar de ser o décimo terceiro volume da série, é possível ler e compreender a história sem a necessidade de ter lido previamente os volumes anteriores. Um dos aspectos mais encontrados ao longo do livro é a crítica à religiosidade. Em vários pontos, é possível detectar referências ao Cristianismo, às religiões pagãs, ao hinduísmo. A linguagem do livro é um pouco difícil, existem várias ironias contidas ao longo do texto, mas lendo atentamente é possível percebê-las ao longo da história... 

"Há bilhões de deuses no mundo. Formam um bando mais numeroso do que ovas de arenque. Muitos deles são pequenos demais para serem vistos e nunca são adorados, pelo menos não por algo maior do que bactérias, que nunca fazem suas orações e não são muito exigentes em termos de milagres. São os pequenos deuses - os espíritos dos lugares onde duas trilhas de formigas se cruzam, os deuses dos microclimas abaixo dos gramados. E a maioria deles continua assim."
Na cidade de Omnia, onde vive Brutha, há um Quisidor chamado Vorbis, que em sua ânsia de poder, decide tomar outras cidades alegando existir apenas um deus verdadeiro, Om, e que todo culto a outro deus deve ser destruído, e seus sacerdotes punidos. Om decide se manisfestar como um touro e acaba ressurgindo como uma tartaruga, e é nesse corpo que ele precisa convencer o bobinho Brutha, de que é o grande deus Om. Além do mais, ele está desmemoriado, porque viveu alguns anos no deserto, perdeu um olho e volta e meia precisa tomar cuidado com as águias que adoram tartaruga no almoço...



Existem hierarquias no templo da cidade onde Brutha vive. Seriam padres e coisas do tipo, com nomes específicos, como por exemplo, os Arcepadres, Sous menores e algumas centenas de bispos, diáconos e sacerdotes. Os noviços ocupam um lugar menor que esses indivíduos, e logo abaixo deles se encontram os artesãos, torturadores e virgens vestigiais. Caso alguém cometesse alguma heresia, seria julgado pelo tribunal da Quisição. Por medo de serem punidas, as pessoas se submetiam à todas as ordens da religião praticada no reino. Nota-se a referência clara à Inquisição católica e à forma como a fé é utilizada para manter certas pessoas no poder...

Filosofia, política e afins também são encontradas nas páginas de Pequenos Deuses. Os dogmas de várias religiões, bem como o misticismo e formas de governo são metaforicamente utilizados para compor a trama do livro. Há também a questão do mundo conhecido por eles ser considerado redondo e alguns contestam dizendo que ele é plano e fica acima do casco de uma tartaruga, que plana no vazio... 

Quanto à diagramação do livro, só ouso ressaltar que o livro não se divide em capítulos e em alguns momentos, a leitura se mostrou um pouco cansativa por conta disso... Mas é questão pessoal mesmo, por não gostar muito de livros sem divisão de capítulos... Afora isso, a edição está perfeita...  

Em suma, não é um livro para crianças, acredito eu, pois sua linguagem cheia de metáforas e simbolismos serão melhor compreendidos por um público adulto, já habituado ao gênero de Fantasia. Terry Pratchett faleceu em março deste ano, mas sua obra se eternizou em 39 livros que compõem a série Discworld e certamente, muitas gerações irão se deliciar ainda com seus personagens e aventuras... 







23 agosto 2015

Um artista da Fome, de Franz Kafka...

Franz Kafka nasceu na cidade de Praga em 1883, famoso por ter escrito A metamorfose, obra consagrada em que relata a transformação de um funcionário público em inseto, da noite para o dia... Confesso que fiquei incerta sobre qual obra apresentar a vocês e A metamorfose me tentou, mas acabei optando por um conto não menos famoso intitulado Um artista da fome [tão logo possa, volto aqui trazendo minhas impressões sobre A metamorfose, mas por ora vamos nos ater a Um artista...]



Trata-se da história de um jejuador, que ganhava a vida se expondo em feiras, dentro de uma jaula, para que várias pessoas o observassem enquanto passava semanas sem comer. Ele possuía um empresário e haviam algumas pessoas que ficavam de prontidão vigiando para que o artista não abandonasse seu posto e sabotasse o espetáculo, se alimentando de alguma forma... 

"apenas o jejuador poderia sabê-lo, já que ele era ao mesmo tempo um espectador de sua fome. [...] Porventura não era o jejum a causa de seu enfraquecimento tão atroz que muitos, com grande pena, tinham de se abster de freqüentar as exibições por não poder sofrer sua vista; talvez sua esquelética magreza proviesse de seu descontentamento consigo mesmo."

No começo, esse tipo de show atraía muitos expectadores. Vários deles se chocavam com o estado de magreza do jejuador, outros contestavam se ele realmente ficava sem comer e que o espetáculo poderia se tratar de charlatanismo, mas o jejuador realmente honrava sua profissão e nunca comia durante o tempo em que estava confinado na jaula. Com o passar do tempo, essa atividade vai se tornando quase uma obsessão para o artista, que via no ato de se alimentar após o período da apresentação, uma verdadeira tortura, até mais que o ato de jejuar. Ele já havia se habituado à fome, e ela era sua única companheira dentro daquela jaula...



Ao longo dos meses, em que em intervalos de quarenta dias ele era forçado a comer e partir para exibição em outro local, o espetáculo em si já não atraía tantos curiosos e logo o jejuador se vê sem empresário, que já havia percebido que não lucraria mais com esse tipo de entretenimento. Logo, o jejuador é acolhido num circo, sem contrato ou coisa similar, e é posto numa área próxima dos animais, onde as pessoas se apertavam para vê-lo, mas não com tanto entusiamo. Os dias vão passando, e nem a tabuleta onde se contavam os dias de jejum era atualizada. Aos poucos, os funcionários do circo e seus visitantes esqueceram que havia um homem ali...

O conto vai caminhando para seu desfecho, mas não poderia tirar o elemento de descoberta de vocês soltando spoiler... Mas o que posso falar dessa história - a metáfora que ela me pareceu - é a de como o ser humano passa a ser um elemento dispensável quando surge algo novo a ser mostrado. O artista não se reinventa e logo é escanteado e substituído. A sociedade é injusta e implacável com quem não tem muito a oferecer além de quinze minutos de fama, como diria Andy Warhol. O artista da fome não tinha muito a oferecer além de demonstrar sua resistência, sem sucumbir à inanição...Logo, não tendo mais serventia é ofuscado, cai no ostracismo. 



Franz Kafka pertencia a uma família de judeus. Tinha um relacionamento complicado com seu pai, e chegara a escrever uma longa carta para ele, que acabou sendo publicada junto com a edição que possuo, que contém A metamorfose, Um artista da fome e Carta ao pai, publicadas pela Editora Martin Claret. Formado em Direito, acabou indo trabalhar numa companhia de seguros. Escrevia em seu tempo livre, e foi considerado o precursor da narrativa de Realismo Fantástico. Teve vários envolvimentos amorosos, chegou a ter uma noiva mas nunca casou. Sua saúde era frágil, e decorrente dessa fragilidade, acabou falecendo um mês antes de completar 41 anos, de fome, devido a uma tuberculose laríngea diagnosticada uns anos antes. A condição de sua garganta não permitia que Kafka se alimentasse, o que provavelmente o levou ao estado de inanição. Foi justamente nessa época que ele escreveu Um artista da fome. 

Antes de morrer, pediu que seu melhor amigo queimasse o restante de suas publicações. Para nosso deleite, seu amigo não cumpriu a promessa e é graças a ele que temos acesso a obra existencialista, melancólica e surrealista de Kafka. Seus livros mais conhecidos além de A metamorfose são O processo, Um médico rural e O castelo, obra que não pôde ser finalizada...  

minha [modesta] coleção Kafkiana...

É possível encontrar nas histórias de Kafka elementos claustrofóbicos, metáforas, simbolismos em seus personagens e críticas à sociedade, à política e à própria condição humana. Sua escrita é fatalista, opressiva e beira a alienação. Nota-se também um reflexo do relacionamento conturbado que o autor tinha com o pai em seus escritos, em que a culpa que o filho sentia era aliviada com o sofrimento que o torturava. Kafka se considerava um estranho dentro de si mesmo...

"Preso entre quatro paredes de mim mesmo, descubro-me um emigrante preso em um país estrangeiro... "

Em suma, não poderia deixar de falar sobre esse autor maravilhoso e de sua obra magnífica. Por ser um de meus preferidos, já estava em tempo de aparecer algum texto falando sobre ele, e espero ter me retratado dessa infâmia com essa simples homenagem... Espero que tenham gostado... Me contem nos comentários se conhecem algum de seus livros ou se tem vontade de ler a obra do autor... Será importante para mim saber a opinião de vocês... Até a próxima... Beijos...

22 agosto 2015

Baixe de graça: e-book Perfume de Píton em um Céu Bordô

Quero aproveitar alguns segundos de sua atenção - enquanto o café ou o chá esfriam - para falar sobre o meu novo conto, "Perfume de Píton em um céu bordô". Em pouco mais de vinte páginas, contei a história de Letícia Cristina, uma jovem que reencontra seus traumas e mordaças no ambiente improvável de um salão de beleza. Afinal, existem lugares onde pessoas sem nome vivem, respiram e imaginam que sonham. Lugares onde histórias reais são mascaradas pelas histórias que o desejo quer contar.

Você deve conhecer lugares assim. Caso não, descubra quem é e o que sente a herdeira ingrata do "Perfume de Píton". Clique aqui e baixe o e-book gratuitamente.

Ah, não deixe de comentar e compartilhar. ;) Acredite: cada manifestação é muito importante para que a arte continue florescendo em qualquer lugar.

Antes tarde do que nunca: Você pode baixar todos os meus e-books aqui (de graça, livres, leves e soltos).

Capa do e-book. Créditos: Ana Cândida Carvalho

21 agosto 2015

A queda do Governador Parte 2 - The Walking Dead...

Olá, pessoas queridas. Volto com mais uma resenha da série The Walking Dead - A queda do Governador Parte 2, de Robert Kirkman e Jay Bonansinga, publicado pela Editora Record. Aviso que se você não leu os livros anteriores, vai encontrar alguns spoilers na resenha, pois tentei e não consegui ficar sem abordar nada do enredo até então... Aconselho a pular ou escolher outro post do blog para ler...


Dando continuidade aos acontecimentos ocorridos no livro anterior, o Governador se vê a beira da morte, e só não se ferra por causa de Bob, que - mesmo relutante por seu vício em bebida, não se acovarda e passa a cuidar de sua recuperação, que se dá quase por um milagre, tal o estado em que Michonne o deixou... Em paralelo, Lilly e Austin estão cada vez mais inseguros quanto ao futuro incerto deles e do bebê que Lilly carrega no ventre. A cada dia, ela se convence que o grupo de Rick é responsável por todo o caos que se instaurou em Woodbury e fica cada vez mais leal ao Governador, embora uns meses antes tenha organizado um motim contra ele...

"Ele vê todo o sangue escorrendo pelo tronco despido, formando manchas grudentas, no formato de mapas, que já começavam a secar e escureciam à luz fraca da sala. ele olha para o cotoco chamuscado do braço direito, etão avalia a cavidade ocular exposta e ensopada de sangue; a órbita ocular, brilhante e gelatinosa como um ovo cozido mole, pendia da lateral do rosto do homem por gavinhas de tecido. Ele reparar no pântano de sangue arterial formando uma poça ao redor das partes íntimas do homem." 

Quando O Governador consegue se pôr de pé, resolve atacar a prisão, mas pra isso ele envia alguns homens para descobrir a localização do esconderijo de Rick, além de irem encontrar Martinez, que até o momento não voltou... O grupo parte, juntamente com Lilly e Austin, e no caminho, se deparam com uma horda de mordedores e algumas descobertas nada agradáveis. Ao relatarem tudo a Philip, este aproveita parar usar de artifícios que fazem com que a população de Woodbury se volte contra o grupo da Prisão, e acabam promovendo uma caçada ao local a fim de matarem todos os sobreviventes que encontrarem na prisão, sem chance de redenção. Cegos de fúria, vinte e três membros da cidade partem, carregados de munição e armamento pesado... Pelo jeito a carnificina será grande... Muitas baixas ocorrem, principalmente no grupo do Governador. Mas uma morte [três, na verdade] no grupo de Rick tem efeitos bem impactantes e causam uma reviravolta na trama... 

Mais uma vez, o enfoque principal dos livros está na figura de Philip Blake, o Governador. Diferente da série, nos livros conhecemos mais o lado dos moradores de Woodbury, e os personagens centrais da série ficam em segundo plano, embora tenham papel importante na história. Pelos livros, é possível conhecer mais o 'lado inimigo', que na verdade é composto apenas de mais vítimas do ardor doentio de Philip... Lilly [que no livro anterior me deu muita raiva], me deixou um pouco penalizada com ela neste volume da série, e passa a enxergar as coisas por outra perspectiva, embora de forma ainda muito remota... 

O livro deixa um final satisfatório, de uma calma e felicidade tensas, como se a qualquer momento, tudo o que eles reuniram após os eventos tempestuosos pudesse ruir, como num castelo de cartas... E acredito que o livro cinco terá um enfoque maior no grupo de Rick. Vamos aguardar pra ver...


ShareThis

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...