24 outubro 2014

Nosso GG em Havana

Bem, volto com mais uma obra de Pedro Juan Gutiérrez [sacaram o quanto sou louca por ele, não é?], mas dessa vez a trama é um pouco diferente da costumeira. Enquanto nos outros livros que já resenhei aqui aqui conhecemos o cotidiano de Havana de uma forma meio autobiográfica, Nosso GG em Havana é uma prosa ficcional, mas com a essência da escrita de Gutiérrez em cada um de seus parágrafos...
"Assim brincaram mais um pouco. Para Caridad foi uma bobagem de meia hora por vinte dólares. A rotina diária com esses americanos. Branquelos estúpidos que não imaginam como é a vida e como é preciso lutar para não morrer de fome. Para GG foi a experiência mais forte de sua vida."

Publicado pela Editora Alfaguara, Nosso GG em Havana traz elementos de espionagem, sexo depravado [como não poderia deixar de ter] com seus travestis e prostitutas, e... um crime. Isso mesmo. Um assassinato em que o personagem que dá entrada no início do livro acaba se envolvendo... Na verdade, GG é um 'turista' que se sente surpreso quando, ao chegar ao hotel e dar seu sobrenome na recepção, o atendente diz que é fã de seus livros e pede um autógrafo. Greene acaba concedendo o pedido do atendente e recebe algumas regalias do hotel. À noite, parte em busca de diversão e vai até um bar, onde o barman [que pelas características, suponho ser inspirado no autor] sugere que ele procure um local chamado Teatro Shangai, no bairro chinês. Greene parte pra lá e encontra um lugar cheio de homens loucos por uma noite nos braços de alguém, muita sacanagem e bolinagens no escuro da platéia. Após a apresentação de Madame Vishnu, uma senhora de uns sessenta anos, vem a atração principal da noite: o Super-homem. Ele tem um órgão gigantesco e a platéia se vê extasiada quando recebe no rosto a 'chuva láctea' [sim, é aquilo mesmo que você está pensando...].

GG fica curioso e atraído por aquele negro forte e viril e vai até seu camarim. O resto da noite, você pode imaginar no que deu... No dia seguinte, ele vai novamente ao encontro do Super-Homem, ou Caridad, como é mais conhecido. E de repente, eles encontram um corpo no camarim do artista...

"Deve ser paranóico viver assim. Um pouco homem e um pouco mulher... ou talvez... talvez seja a perfeição... Viver no meio do caminho".
Nesse ínterim, nos deparamos com Graham Greene em sua residência numa ilha italiana, que recebe um telefonema dizendo que ele se encontrava preso em Havana, suspeito por assassinato... Viajando para a ilha cubana, GG, o verdadeiro escritor de "O americano tranquilo" descobre que alguém tomou seu nome e acabou preso. Mas os problemas dele ainda vão piorar quando o FBI o procura para dizer que ele se encontra em perigo naquela ilha, gangsteres caçadores de nazistas oferecem uma proposta dele escrever um livro sobre eles, a KGB o ameaça para que ele vire agente duplo e ele se vê perdido e sozinho numa cidade sem lei, conhecida pelo mundo além-ilha como 'o paraíso do Caribe'... Mesmo em meio a essa confusão, ele quer conhecer o 'impostor' que foi preso com seu nome e descobrir o motivo daquilo... 

Gutiérrez possui uma narrativa deliciosa, que enlaça o leitor na trama de maneira frenética. Os capítulos do livro são curtos, dando essa impressão de 'preciso ler o próximo pra saber no que vai dar isso'. Com menos de 130 páginas, o autor tece uma trama ágil, entremeada com cenas de sexo, apostas em corridas de cavalos e conversas de bar. Tudo isso situado na estrelada capital cubana, mais precisamente no submundo das relações humanas, em contraste com ambientes de luxo. Bebidas, sexo, mulheres, noites quentes caribenhas e becos escuros em ruas esquisitas compõem o cenário dessa história... 

Recomendado para aqueles que buscam uma leitura despretensiosa nas horas vagas, e não desmerecida por tal despretensão... 

Pedro Juan Gutiérrez, seu lindo 

20 outubro 2014

Um clássico nacional tocante e delicado... O meu pé de laranja lima

O meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, foi comprado em um sebo por apenas cinco reais. Sabia que tinha uma adaptação em filme, novela de televisão, mas não fazia idéia do que tratava a história. Então resolvi conhecer as aventuras que o pequeno Zezé, de apenas 5 anos quis me mostrar... Zezé é um menino muito traquina, que volta e meia leva uma sova pelas suas peraltices. De família muito pobre, ele tem uma irmã que sempre o protege das surras, Glória, seu pai está desempregado e sua mãe trabalha o dia inteiro numa fábrica, como operária. Numa noite de natal, Zezé fica triste porque não ganha nem um presentinho, mas como a família é pobre demais, não poderia comprar nada pra ele nem para seus irmãos. Ele tem um irmão caçula chamado Luís, a quem chama de rei, pois ele tem nome de um rei. 

Por ser muito travesso e esperto, Zezé acaba aprendendo a ler muito rápido, sem a ajuda de ninguém. Seu tio Edmundo acha que ele deveria estar na escola, então a família o matricula como se ele tivesse seis anos. Na escola, ele tem afeição por dona Cecília, sua professora, que gosta do menino mesmo sabendo que em casa ele é um pestinha. A rua onde Zezé mora conhece sua fama de menino que apronta todas, e quando sua família muda de uma rua pra outra, ele ganha uma árvore no quintal, um pé de laranja lima. No começo ele não gosta muito da árvore, mas logo vê nela um amigo, e lhe dá o nome de Minguinho. Os animais do quintal ganham nomes, e Zezé fantasia várias aventuras com amigos imaginários e seu pé de laranja. 


Numa de suas tantas traquinagens, leva umas palmadas de Manuel Valadares, um portuga do bairro. Mas o destino brinca com Zezé e eles se tornam muito amigos, mas por vergonha de ter apanhado dele não conta pra ninguém sobre essa amizade. O portuga tem muito amor pelo menino, e volta e meia o leva pra comer um lanche e passear em seu carro. Além desse amigo, temos o Seu Ariovaldo, que sai com Zezé pra cantar na rua e ganhar uns trocados. Zezé também engraxa sapatos para ajudar na renda da família. Pela pobreza de seus pais, o menino se lamenta bastante por não poder ganhar um presente de natal, e acha que é porque não se comporta durante o ano, e sendo assim, Deus lhe castiga. 

Bem, eu poderia ficar contando sobre o livro inteiro até o seu desfecho, mas preciso colocar alguns fatores da obra em pauta. Uma das coisas que mais me encantaram foi que a inteligência de Zezé é acompanhada de extrema curiosidade das coisas do mundo. Sua inocência em meio a um ambiente adulto sofrido e cheio de problemas, em que ele vive apanhando por ter aprontado alguma me cativou de forma impressionante. Em um dos trechos [que logo identifiquei como um dos textos que li na infância nos livros didáticos de português] foi quando a professora de Zezé descobre que as flores que ele levava para ela eram roubadas. Com muita naturalidade ele confessa que realmente furtava as flores, e com a mesma naturalidade explica o porquê. Ele é tão 'puro', apesar de travesso, que não percebe que roubar é um ato feio em si, seja lá de que forma for. A professora diz pra ele que se ele não roubar mais, ela vai fingir que sempre haverá uma flor no vaso, mesmo não havendo nenhuma. E ela diz pra ele que aquela rosa será a mais linda do mundo pra ela. Isso deixa o menino satisfeito.

Outro ponto que me deixou com um nó na garganta foi quando ele fala para a própria mãe, depois de uma surra que o deixou todo machucado, que nao deveria ter nascido porque é uma criança ruim. Na mente dele, ele é uma pessoa ruim e por esse motivo é que apanha tanto. Numa das queixas que faz ao seu amigo Portuga, ele se despede dele, dizendo que essa última surra que levou foi injusta demais, porque ele vinha se comportando. Com raiva de seu pai ele resolve matá-lo [como havia dito sobre o portuga quando ainda eram 'inimigos']. 

"Matar não quer dizer a gente pegar o revólver de Buck Jones e fazer bum! Não é isso. A gente mata no coração. Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu." [Buck Jones é um de seus personagens nas brincadeiras pelo quintal de casa]
Logo depois, em um dos trechos mais tocantes:

Eu vim dizer adeus para você.
- Adeus?
- Sério. Você vê, eu não presto para nada, estou cansado de sofrer pancada e puxões de orelha. Vou deixar de ser uma boca a mais...
Comecei a sentir um nó doloroso na garganta. Precisava muito de coragem para contar o resto.
- Vais fugir então?
- Não. Eu passei essa semana toda pensando nisso. Hoje de noite eu vou me atirar debaixo do Mangaratiba..
Ele nem falou. Me apertou fortemente nos braços e me confortou do jeito que só ele sabia fazer."

Esse diálogo é com Manuel Valadares, o Portuga. E o Mangaratiba é um trem que passa pelo bairro. E Zezé tem apenas SEIS anos. Notaram o quão forte é a coisa?

Ele sente um apreço pelo Portuga que não tem pelo próprio pai, já que é um dos que vive lhe batendo. Em uma parte do livro, ele pede para que o Portuga lhe compre.

"Se não quiserem dar, você me compra. Papai está sem dinheiro nenhum. Garanto que ele me vende. Se pedir muito caro, você pode me comprar a prestações, do jeito que seu Jacob vende..."

Para Zezé, as coisas podem ser resolvidas de maneira muito simples, sua alma de criança não enxerga maldade em suas soluções, como se fossem a coisa mais natural do mundo. Mas aí, ele recebe uma notícia terrível sobre o futuro do seu pé de laranja lima, e em cima disso, um golpe do destino faz com que ele deseje morrer, passando muito tempo numa cama, as pessoas creditam sua condição ao pé de laranja, sem nem desconfiar que ele sofre por seu amigo Portuga... 

Mas quis o destino que Zezé levantasse da cama, e vivesse...

"- Já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de laranja lima."
O pai não compreende a metáfora...

O capítulo final me fez desabar no choro de vez. Anos já haviam passado, Zezé não mais imaginava sua árvore falando, nem seus animais conversando e brincando com ele. A inocência da criança fora perdida. Já adulto, ele relembra com saudade de seu amigo Portuga. A maior lição que seu amigo deixou, foi a ternura que o menino levado praticamente não teve em casa. E essa ternura, Zezé levaria para sempre no peito... 

18 outubro 2014

Convite para um homicídio, de Agatha Christie

Em uma certa tarde de quarta-feira, fui resolver pendências no centro da minha cidade. O calor estava assassino e decidi não brigar com o clima: dei um intervalo às atividades e fui tomar um suco em uma das lanchonetes da região. Esperei menos de 10 minutos para receber meu suco geladinho e, depois de tomá-lo, fiquei sentada alguns minutos brincando com o canudo. Na mesa ao lado, um casal discutia ferozmente por alguma coisa que parecia ser uma panela (!!!) quando, em certo ponto da conversa, a moça fala para o companheiro: "Você só vê o que seus olhos querem ver". Depois dessa afirmativa, choveram impropérios de todo gênero, mas eu já não estava interessada. Minha mente vagava em torno daquela frase. "O que será que isso me lembra?'', pensei. Sim, a música da Madonna, mas será que é só isso?

Perdida em pensamentos, acabei colidindo com a ideia fixa que me perseguia: o livro "Convite para um homicídio" (original A murder is announced, tradução de Maria Isabel Garcia, sétima edição, editora Nova Fronteira, págs. 248), uma das obras estilo "quem matou" da famosa escritora Agatha Christie. A história é mais um dos casos da velha Miss Marple e tem como eixo central uma tentativa de homicídio seguida de três outros crimes consumados. Tudo tem início quando uma comunidade tranquila é alvoroçada em uma manhã de outubro com um anúncio de jornal; nele, um convite para um assassinato estava com dia, hora e local marcados, convocando todos os vizinhos e amigos próximos. Na casa em que o crime estava agendado, ninguém sabia de absolutamente nada e os moradores pensavam que tudo não passava de chacota. Apenas a empregada da casa, uma estrangeira refugiada de guerra, entrou em pânico com a "notícia-brincadeira".

No dia marcado, os presentes ao convite constataram que não se tratava de uma brincadeira infantil, culminando nas investigações, mistérios e crimes que permeiam toda a história. O enredo segue a linha 'christiniana', sempre com sua dose de astúcia e pontuação de enigmas para ludibriar o leitor. Personagens são inseridos na narrativa e a menor das ações pode ter significado extremo para o entendimento dos fatos. 

Interessante observar no decorrer da leitura do livro alguns detalhes que merecem citação: 

1 - A paranoia inglesa depois da Segunda Guerra Mundial, já que o livro foi publicado originalmente em 1950, cinco anos após o término do grande holocausto. Personagens que representam o pavor e a crítica inglesa aos tempos bélicos podem ser encontrados em diversos trechos de "Convite para um homicídio";

2 - O sentimento xenofóbico que dominou - e continua dominando - boa parte da Europa. Em muitos momentos da narrativa, as personagens de origem inglesa fazem alusão aos estrangeiros como "pessoas em que não se pode confiar", "passionais", "sem refinamento ou cultura". Pode ser efeito pós-guerra, mas fica evidente na forma em que a personagem Mitzi, refugiada, que acaba como cozinheira de uma das protagonistas, é caracterizada: paranoica, nervosa, sem educação, mentirosa, apenas tolerável - e algumas vezes, nem isso. Da mesma forma são os diálogos-pensamentos construídos em torno de outro estrangeiro - personagem que dá às caras "indiretamente" no começo da narrativa;

3 - A exaltação de padrões de comportamento inglês está por toda a obra, com menções diretas ao modo de vida daquele povo. Outra observação que vale a pena ser levantada tem a ver com a construção das personagens femininas ditas 'fortes' - apesar de admiráveis, elas são associadas à figura masculina (conforme ordenava o bom-tom da época).

Reflexões à parte, "Convite para um homicídio" flui rápido, instiga a memória do leitor e o faz juntar peças. Para quem gosta das famosas revelações coletivas da autora, a obra é um prato cheio!

17 outubro 2014

Um delicioso e emocionante nacional - A máquina de contar histórias

 Quando vi que a Ed. Novo Conceito lançou A máquina de contar histórias, me peguei impressionada pela arte da capa, e pela sinopse que me despertou o interesse de ler algo sobre o autor Maurício Gomyde, do qual eu já tinha ouvido falar nas redes sociais. 

Tive a felicidade de ganhar um exemplar [autografado] do autor em um sorteio de blog. Em poucos dias recebi meu livro em casa e passei a frente de outras leituras, por se tratar de um livro curtinho, com menos de 200 páginas... 

O resultado disso é que estou surpresa em como uma história contada de forma tão simples e espontânea me cativou desde as primeiras linhas...


Vinícius é um autor bem-sucedido, que de tanto entregar-se ao seu trabalho, não é um marido e pai presente na vida da família V. A sua esposa, Viviana, sofre de uma câncer e acaba morrendo quando Vinícius estava em uma festa de lançamento do seu novo livro. A ausência dele em vários momentos importantes para a família e ainda mais a morte da mulher sem o marido por perto despertam o ódio de Valentina, sua filha de 16 anos, que ficou ao lado da mãe durante todo o período de tratamento contra a doença... 

Sentindo-se perdido, Vinícius tenta recuperar o tempo perdido que passou longe da mulher e filhas e enfrenta o desprezo de sua filha mais velha, então resolve fazer uma viagem com ela e Vida, a 'fadinha' de apenas quatro anos. Depois de muita resistência por parte de Valentina, ele finalmente consegue convencê-la a embarcar nessa viagem, e durante essas 'férias tiradas fora de hora', Vinícius passa a conhecer de verdade suas filhas...

Os personagens são bem construídos, a história poderia acontecer com qualquer um de nós e é possível nos identificarmos com alguns dos personagens. A relação que Vinícius tem com a filha mais velha é terrível, ela não confia no homem que 'abandonou a família por causa de seu próprio egoísmo e carreira', e a única base que ela tinha na vida, que era a mãe, se foi... Vida ainda é muito pequena e não compreende o que está acontecendo com sua irmã e pai, e está empolgada com os lugares que conhece na Europa... 

"Agora, o fruto do amor contido na chave que muitos anos antes ele e Viviana haviam jogado no rio voltava na forma de duas filhas e um pai tentando reconquistá-las."
Um fato importante é que a viagem e os locais escolhidos tem um propósito que só fui descobrir no final do livro, e me emocionei bastante com essa parte, pois o autor conseguiu ligar os pontos de forma a não deixar o leitor perceber que entrava numa 'armadilha' *risos* Me surpreendi demais. A capa do livro tem forte ligação com esses acontecimentos mas não vou contar, pois desejo que vocês tenham a mesma sensação que tive quando li... 

Vinícius escrevia de forma metódica e os leitores adoravam seus romances, achando que ele mesmo vivia todos aqueles sentimentos escritos por ele. Na verdade, ele desconhecia as emoções que passava para o papel, pois vivia absorto em técnicas de escrita, sem entregar-se de forma verdadeira ao seu talento... Com a descoberta das pequenas coisas da vida que podem ser maravilhosas, ele percebe o quão frio era, e muda sua maneira de escrever, de se relacionar com as pessoas. Com as filhas, ele aprende finalmente o sentido da palavra viver. 

A diagramação do livro é um show a parte. A capa, que traz elementos fundamentais à história [e que só com o final da história descobrimos o porquê], os capítulos trazem desenhos de 'plays' de música e letras embaralhadas. A escrita de Gomyde é deliciosa, faz a leitura fluir muito bem...

Com cinco livros publicados, A máquina de contar histórias é o primeiro lançado pelo selo Novas Páginas, da Ed. Novo Conceito. Espero ter o privilégio de conhecer os demais livros do autor e que ele lance muitos outros, pois ganhou uma fã de seu trabalho... 




Maurício Gomyde nasceu em São Paulo mas vive atualmente em Brasília. Lançou O mundo de vidroAinda não te disse nadaMelhores pra sempre e O rosto que precede o sonho de forma independente. Para conhecer mais o trabalho dele, visite seu site: 
www.mauriciogomyde.com 

14 outubro 2014

A História do Brasil numa história (relativamente) curta

O texto de hoje foi escrito pelo colaborador Fabio Michelete.

"Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo"
(George Santayana, 1863-1952)

Apesar de ter estudado em uma boa escola, não importava quão interessante uma matéria podia me parecer. Eu estava ocupado demais construindo minha personalidade, tentando me sociabilizar e ainda tirar boas notas este último um desvio de função que realmente atrapalha o aprender.

Pois foi agora, perto dos 40 anos de idade, que decidi retomar meu interesse pela história. Venho estudando história da arte no Khan Academy, mas em especial o momento era propício para a história do Brasil. Acredito veementemente que entender a história de nossa política e a raiz de nossas dificuldades atuais pode nos guiar pelo labirinto de ódio e de pessoas com certeza absoluta sobre suas opções. O ódio nunca foi um bom conselheiro.

Escolhi o livro Brasil - Uma História de Eduardo Bueno por ter uma boa impressão de suas entrevistas na TV. Ele parecia dar um refresco ao estudo da história do Brasil, interpretá-la com um olhar mais distante, diferente daqueles que a codificaram e ideologizaram durante o período militar. É certo que toda a opinião tem ideologias por trás, mas eu queria mais fatos, para que pudesse eu mesmo checar as interpretações que deles derivaram.

BRASIL, uma história Cinco séculos de um país em construção é ótimo! Leitura leve, mas com bom nível de detalhe e encadeamento de ideias. Cumpre bem a proposta. Não tem cara de livro didático, e te faz prolongar as sessões de leitura. 

Passando pelos nomes importantes de nossa história, que vemos nomeando ruas e avenidas, tive maior conhecimento sobre o descobrimento, a relação entre os países europeus que por aqui deitaram seus interesses, nossa independência, a república, a escravidão, os ciclos econômicos, Getúlio Vargas, período militar, Diretas já, enfim, aqueles temas que não nos são estranhos, mas que fazem mais sentido se apresentados em sequência curta, mesmo que com menos detalhes. O autor fala de Collor, FHC, Lula e mesmo o início do governo Dilma, com um olhar suficientemente distante. Não endeusa nenhum deles, fala de acertos e erros, e de nossa relativa dificuldade em superar problemas pela fraqueza de nossas instituições.

Faz também um bom retrospecto de nossa cultura. Esta parte é particularmente interessante para quem gosta de literatura e música. Teve apenas um pequeno deslize, ao apresentar o Chacrinha como mais brilhante, mais tropicalista, mais antropofágico, mais macunaímico e mais brasileiro dos apresentadores. Teve sua importância, é óbvio, mas é preciso umas doses na cabeça para usar o adjetivo macunaímico.



Algumas Frases:

"... Thomas Ewbank, também britânico, dizia que, no Brasil, um jovem preferiria morrer de fome a abraçar uma profissão manual. Segundo ele, a escravidão tornara o trabalho desonroso resultado superlativamente mau, pois inverte a ordem natural e destrói a harmonia da civilização."
"D. Pedro II parece ter percebido a verdade contida na frase do senador Holanda Cavalcanti: Nada se assemelha mais a um saquarema do que um luzia no poder. Luzias eram os liberais, e saquaremas os conservadores: embora em tese fossem adversários irreconciliáveis, no fundo eram farinha do mesmo saco."
"Dutra era uma figura caricata, sobra a qual surgiram muitas piadas. Uma delas contava que, ao ser cumprimentado por Truman, que dissera How do you do, Dutra, o marechal de imediato respondeu: How Tru you Tru, Truman"

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