16 fevereiro 2012

3.096 dias: Memórias da vítima Natascha Kampusch

Capa de 3.096 dias
"We live, as we dream — alone", afirmou o escritor britânico de origem polaca Joseph Conrad, em sua obra 'O Coração das Trevas' (Heart of Darkness). Quando a li pela primeira vez, há quase 10 anos atrás, eu não imaginava que pudesse pensar nesse trecho ao me deparar com o livro "3096 dias - Natascha Kampusch" (Natascha Kampusch, tradução Ana Resende, Verus Editora, 2011, pág. 225).

Trata-se de uma autobiografia escrita à custa de memórias e registros da austríaca Natascha, vítima de um sequestro bizarro que durou 8 anos. O sequestrador, Wolfgang Priklopil, que trabalhou como engenheiro de telecomunicações da Siemens, arquitetou um verdadeiro bunker para aprisionar a garota, que contava então com 10 anos. Em um porão minúsculo, com nenhuma luminosidade ou saída de ar, situado debaixo de uma casa em Strasshof, próximo a Viena (Ásutria), Wolfgang encarcerava a pequena Natascha, oscilando entre métodos de tortura física e psicológica, tais como controle das horas de sono e comida, e surtos de superficial compaixão, encarados pelo desequilibrado sequestrador como uma dávida.

Strasshof é conhecido por ser um lugar de transeuntes, ou, como citou a própria Natascha em sua biografia: "um lugar sem identidade". Com pouca movimentação e ausência de relacionamento entre os moradores, o ambiente se mostrou perfeito para os planos de Priklopil. Foram 8 anos trabalhando de forma desumana, utilizada como uma escrava que deveria atender rápido e a qualquer tempo todos os desígnios do "mestre" (forma de tratamento que a garota se recusou a oferecer, para, segundo ela, manter o pouco de dignidade que lhe restava.

Somente com o passar do tempo, o sequestrador permitiu que Kampusch subisse ao andar de cima da casa para executar tarefas domésticas ou ter acesso ao jardim. Quase perto do período da fuga, Priklopil começou a realizar pequenas saídas e viagens curtas ao lado de Natascha, sempre monitorando-a e ameaçando. Como foi capturada aos 10 anos, a ex-menina do subúrbio de Rennbahnweg acreditava piamente nas palavras do homem que a mantinha em cárcere privado. Entre as principais ameaças, estavam tentativa de assassinato, explosões de bombas, ataques a quem quer que pudesse ajudá-la, entre outras coisas.

Durante esses 3.096 dias nefastos, Natascha era espancada, algemada, obrigada a raspar a cabeça e trabalhar semi-nua. Segundo consta na obra, o sequestrador nunca a violentou - trecho que segue, inclusive, com o pedido da autora-vítima em resguardar esse ponto de seu pesadelo.

Somente em 23 de agosto de 2006, no momento de uma distração de Wolfgang Priklopil, a garota conseguiu fugir e pedir ajuda, situação descrita no livro como constrangedora, pois pessoas que transitavam pelas ruas e receberam o grito de socorro de Natascha se negaram prontamente, achando se tratar de algum golpe ou desatino. Só depois de pedir auxílio a uma senhora que estava na janela de uma das casas, o sequestro de 8 anos teve fim.

O livro é marcado por narrativas dramáticas, acompanhadas de lapsos de perdão e afeto que a vítima demonstra pelo sequestrador. Ela afirma que não existe apenas uma face no ser humano, e que todos temos um lado bom e outro ruim. Esse comportamento, que se refletiu com a notícia de que Natascha havia chorado desesperadamente ao saber da morte do sequestrador - ele se jogou no meio de um trem logo após a fuga da prisioneira -, rendeu à Natascha Kampusch o desafeto da imprensa e de parte da população austríaca, que lhe atribuiu o estado psicológico denominado Síndrome de Estocolmo.

Uma parcela da população também acusa Natascha de utilizar sua história como forma de virar celebridade, pois, após o fato, a então jovem de 18 anos passou a conceder inúmeras entrevistas e ter seu próprio programa de entrevistas. Hoje, 5 anos após a libertação, a jovem de 23 anos, loira, de peso médio e olhos tristes, ainda conserva medo de relações sociais - pelo menos diante dos holofotes, como pode ser constatado na entrevista concedida para o repórter Pedro Bassan no Fantástico.

Assim como a frase de Joseph Conrad, Natascha Kampusch passou 8 longos anos de sua vida tendo que viver da mesma forma em que ela sonhava: sozinha. Além de desabafo, acusação contra a ineficiência da polícia austríaca em solucionar o caso e exorcismo de memórias que lhe causam uma dor difícil de cicatrizar, o livro funciona como uma válvula de reflexão sobre como podemos ir além do nosso tempo-espaço; como podemos sobreviver à situações extremas usando o escapismo da nossa mente. Como o fato de imaginar pode ser, acima de tudo, nosso próprio bunker-salvador.