29 fevereiro 2012

Antologia Poética - Fernando Pessoa

Conheci Fernando Pessoa, há muitos, muitos anos atrás quando minha mãe ainda era vendedora de livros e esporadicamente eu folheava algumas das coleções de clássicos que ela tinha em estoque. Eu que sempre fui apaixonada por poesia, prosa e versos me encantei instantaneamente por suas obras mais melancólicas.
Recentemente reli “Antologia Poética”, e desta vez com mais madureza, pude compreender melhor seu estilo, com todo o seu gênio, seu mau-humor, seu ceticismo, sua genialidade e seus outros “eu's”.

Relendo aqui alguns trechos enquanto escrevo esse Ode à Pessoa, não contenho o riso, se antes eu gostava, agora sou apaixonada por este lisboeta. Poemas de Álvaro de Campos (seu heterônimo) como “Lisbon Revisited (1923)”, “Todas as cartas de amor são ridículas...”, “Poema em linha reta” e “Dobrada à moda do Porto”, foram alguns de seus poemas que mais me encantaram, justamente por ter esse quê mau-humorado e bêbado. Se Bukowski fosse português e vivesse por volta de 1900 em Lisboa, seria um grande amigo de boteco de Fernando Pessoa, tenho certeza!

Um trechinho de “Tabacaria”:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Obra poética
A obra poética de Fernando Pessoa coloca-o, indiscutivelmente, entre os maiores poetas da literatura em língua portuguesa.
Escreveu muito, durante sua vida toda, mas ao morrer tinha apenas um livro publicado – Mensagem, no qual recriou liricamente a história de Portugal, projetando uma aspiração pela glória nacional futura de base sebastianista.
Em jornais e revistas, deixou alguns textos de crítica literária e uns poucos poemas em inglês. O restante de sua obra só veio a público postumamente.
Homem culto, de incrível curiosidade intelectual, Fernando Pessoa desdobrou-se em vários heterônimos, dos quais os mais significativos são Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caieiro.
Cumpre destacar aqui a diferença conceitual que há entre pseudônimo e heterônimo. Pseudônimo é apenas um nome falso, inventado por alguém para ser usado no lugar do seu nome verdadeiro. Heterônimo, porém, tem outro sentido. Significa um nome imaginário que um escritor usa para assinar certas obras como se fosse outro escritor, pois expressa uma visão de mundo e um estilo totalmente particular, tratando-se realmente de outra personalidade literária.
Para cada um dos seus heterônimos, Fernando Pessoa criou não só uma forma de expressão e uma visão de mundo particulares como escreveu até uma “biografia” de cada um deles;
Alberto Caieiro representa o poeta que busca o campo e a vida ingênua e simples, despojada de inquietações intelectuais e religiosas. Seu olhar é o olhar de quem vê o mundo pela primeira vez, sem metafísica nem religião.
Ricardo Reis é o poeta pagão, uma espécie de reencarnação dos antigos poetas gregos e romanos que, diante da brevidade da vida e da indiferença dos deuses, pregava o gozo sereno dos prazeres da existência, sem aflição ou angústia.
Álvaro Campos é o poeta do século XX, maquinizado, urbano, angustiado e descrente, perdido nas contradições do seu agitado mundo interior.
Existem ainda os poemas que se pode dizer que são de Fernando Pessoa “ele-mesmo" nos quais encontramos o poeta da saudade e da melancolia, que retoma formas tradicionais do lirismo português. Mas esse lirismo é sempre contido e marcado por uma nota de inquietação existêncial.

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não tem.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.



Fernando Pessoa
nasceu em 13 de junho de 1888 em Lisboa e faleceu aos 47 anos de idade em 28 de novembro de 1935 em sua cidade natal, com a sua saúde enfraquecida pelo vício de beber.