24 fevereiro 2012

As Intermitências da Morte

No dia seguinte ninguém morreu.

É assim que começa o livro As Intermitências da Morte de José Saramago. Foi o segundo livro dele que li e posso dizer que a minha admiração por essa Literatura só cresceu. Meu primeiro contato com a obra dele foi em Ensaio sobre a Cegueira. Livro em que de repente, todas as pessoas de um certo país ficam cegas. 

Mas falando do livro em questão, Saramago explora as possibilidades de como seria a vida em um país em que ninguém morre. No começo, seria algo lindo, para se comemorar. Vida eterna, algo que desde a antiguidade é estudada por religiosos, filósofos, cientistas e etc. Aí começam os problemas. As funerárias iriam falir, os hospitais ficariam hiperlotados, pessoas com graves problemas de saúde não poderiam nem ao menos recorrer à eutanásia. E no quesito religioso seria pior. Se não há morte, não há ressurreição e sem ressurreição, não há Cristianismo.

Eu colocaria Saramago, Márquez e Kafka num mesmo patamar. Os três conseguem tratar do "absurdo" de modo que traga algum questionamento filosófico sobre a vida. Neste livro, Saramago humaniza a morte. E para quem não sabe, ele era um ateu convicto, fato que está claro em diversas passagens da obra.

Uma cena que me chamou muito a atenção na obra é quando um idoso muito doente pede à família que o leve até o país vizinho para que ele possa morrer. Seu neto (ainda bebê) também tem uma doença terminal. A família faz o que o idoso pediu, levando-o junto com o neto para a fronteira. Ele e o neto morrem e na hora de enterrá-los, a família o coloca diretamente na terra, com o neto nos braços. Quando colocados diretamente na terra, eles estariam "semeando-a". É só pensar na cultura mundial de enterrar seus mortos. Não seria semear a terra?

Enfim, esse livro é ótimo e desencadea diversos questionamentos. Esse é apenas um deles, é necessário que se leia a obra toda para tomar conhecimento de tudo. Confesso que achei algumas partes muito cansativas, principalmente quando fala dos termos econômicos e políticos da ausência da morte, mas é um livro maravilhoso.

Eu amo a escrita de Saramago, não há interrogações, travessões ou exclamações. Os personagens não possuem nome e mesmo assim, ele consegue levar a obra magistralmente.
Sem dúvidas, um dos meus escritores preferidos.

A propósito, não resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem.