29 fevereiro 2012

Caio Fernando Abreu, por Tatiana Pinheiro

Pedi à minha amiga Tatiana Pinheiro que escrevesse um pouco sobre Caio Fernando Abreu. Eis o texto dela. :)

“O que eles deixaram foram estes três postulados:
importante é a luz, mesmo quando consome;
a cinza é mais digna que a matéria intacta
e a salvação pertence apenas àqueles
que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias.”
("Eles" - Caio Fernando Abreu)

Foram dois grandes amores à primeira vista. Naquela madrugada há mais ou menos cinco anos atrás, eu tinha conhecido aquele que foi, durante muito tempo o grande amor da minha vida e era exatamente esse trecho que preenchia seu perfil na Internet. Eu lembro que o tal grande amor tinha me impressionado bastante, mas tenho quase certeza que ter me deparado com esse trecho em seu perfil foi a gota d'água para que eu me apaixonasse perdidamente. Por ele e pelo Caio, que foi sempre, de uma forma ou de outra o assunto principal de longas conversas.
Como foi grande o impacto desse trecho na minha vida! No mesmo instante procurei pela fonte, li o conto todo e depois outro conto, e mais um e nunca mais parei até que tivesse lido toda e qualquer coisa já escrita pelo Caio e todas as coisas também já escritas sobre ele. Na verdade eu nunca parei. Não importa quantas vezes eu leia todas essas coisas, cada vez é uma novidade. Cada vez elas me parecem ainda mais fantásticas. Além de ter sido o trecho que me apresentou à sua obra, acredito delinear muito bem a sua personalidade. Caio brilhava; e era aquele tipo de pessoa histérica diante da vida, cujo maior objetivo é mesmo viver, ainda que o preço seja a constante morte.
O Caio é desses escritores cuja biografia não pode ser separada da obra. E ele ainda tem um dom incrível (e essa não é uma impressão minha, somente; praticamente todos os leitores do Caio que eu conheço sentem o mesmo), que é o de fazer amizade com seus leitores. O leitor acaba por sentir-se íntimo dele. Além dessa coisa fantástica de inspirar as pessoas. Se eu acreditasse nessa coisa toda de vida após a morte, poderia jurar que o espírito do Caio baixa feito inspiração nas pessoas para poder continuar a escrever. E de certa forma, ele continua. O que sai das pessoas depois de terem contato com os escritos do Caio é inacreditável. Ele consegue emergir o melhor de nós.
Nunca, jamais, em toda minha vida me senti tão compreendida. Existem escritores que você admira pela criatividade e forma, escritores que fazem você pensar em coisas que jamais passaram pela sua cabeça e existem os escritores sensíveis, capazes de transcrever de forma intensa todo o sentimento humano. O Caio é a junção de todos esses, mas acima de tudo ele é do tipo que sabia como ninguém relatar as nossas mazelas da forma mais linda, profunda e humana possível.
A biografia do Caio é muito rica; tão rica que dezenas de pessoas já publicaram livros a seu respeito e existem intermináveis estudos e monografias envolvendo seu nome. Então, se você quer de fato conhecer a fundo a vida do Caio, aconselho que você leia pelo menos alguma dessas biografias. Recomendo "Pra sempre teu, Caio F.", escrito pela Paula Dip. Apesar de ter uma certa antipatia por esta biografia (o livro na realidade é um relato da amizade dos dois e de quebra, da vida da autora também), tenho que admitir que é a mais completa.
Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul em 12 de setembro de 1948, virginiano, portanto. Virgem com ascendente em libra e lua em capricórnio, porque Caio, assim como Pessoa, tinha uma ligação fortíssima com a astrologia. Ele tinha o costume inclusive, de fazer o mapa astral de seus personagens, que lhe serviam como guia na escrita.
Teve uma infância relativamente tranquila, e na adolescência mudou-se para Porto Alegre onde estudo em um colégio interno para rapazes, sendo este motivo de angústia e de difícil adaptação, quando Caio frequentemente reclamava aos seus pais sua infelicidade. Seu primeiro romance, "Limite Branco", foi escrito neste seu período em Porto Alegre, aos 19 anos, sendo perceptível a semelhança entre o drama do personagem e o próprio Caio. Apesar de um romance pós-adolescente, carrega já uma literatura bem madura e de cara já contém os traços que vão marcar a literatura do Caio por toda a sua vida. Logo depois cursou letras na UFRGS junto ao não menos fantástico escritor João Gilberto Noll, mas não concluiu o curso. Assim como não concluiu o curso de artes cênicas. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na revista Veja e desde então desenvolveu uma relação de amor e ódio com a cidade grande (e quem não vive essa relação? Mas com o Caio era tudo mais intenso, mais dramático), e não só com a cidade grande, mas também com a cidade maravilhosa, Londres e pra falar a verdade, com todos os lugares. Ele mesmo se intitulava um estrangeiro onde quer que estivesse, inclusive em sua cidade natal. Esse tema foi constantemente abordado em seus textos.
Depois de "Limite Branco", Caio passou mais de duas décadas escrevendo contos e peças. O outro romance do autor, "Onde Andará Dulce Veiga", só veio quase no fim de sua vida. Apesar de ter escrito coisas fantásticas na década de 70, e de ter tido um notório reconhecimento, como por exemplo "Inventário do Irremediável", que conquistou o Prêmio Fernando Chinaglia da UBE (União Brasileira de Escritores) e que teve seu título alterado para "O inventário do ir-remediável", (já que depois de muito viver, o escritor cheio de esperança já deixara de acreditar no irremediável), escrito durante sua temporada na casa da escritora Hilda Hilst, em Campinas, "O ovo apunhalado" e "Pedras de Calcutá", sua consagração só veio mesmo com a publicação de seu quarto livro (até hoje, o mais famoso) "Morangos Mofados", publicado no início da década de 80. Um dos contos mais fortes do livro, "Sargento Garcia", segundo o próprio escritor contou à revista Marie Claire, foi inspirado em sua primeira experiência homossexual, quando aos 16 anos foi seguido por um homem, num domingo à noite.
Mas Caio, apesar de retratar a homossexualidade em muitos de seus contos, nunca gostou de ser catalogado como escritor gay. E de fato, seria um absurdo. Sua literatura é muito mais abrangente. Ele conseguiu retratar a angústia e a forma da década de 80 como mais ninguém. Até hoje ele é visto como ícone de sua geração e como a cara dos anos 80, a década perdida. Apesar da pressão editorial para que Caio escrevesse mais livros no estilo "sexo, drogas e rock'n roll", outsider que era, não gostou da ideia e publica então um livro totalmente diferente, onde três novelas chuvosas do signo das águas compõem o então "Triângulo das Águas", que levou o Prêmio Jabuti, assim como o seguinte, o livro mais traduzido do autor, "Os Dragões não conhecem o paraíso", que traz a temática do amor e que lhe trouxe também o reconhecimento internacional, principalmente na Inglaterra e na França. É considerado por muitos, o melhor trabalho de Caio.
Seus amigos eram inúmeros e de todos os tipos. Atores, jornalistas, poetas, mães de santo, escritores, travestis, cantores, astrólogos e a lista não tem fim. Consegue-se achar no Google imagens fotos de Caio se esbaldando com Cazuza, por exemplo. Foi amigo íntimo de Ana Cristina César, Hilda Hilst, Marcos Breda, Adriana Calcanhoto e Bruna Lombardi. Sabe-se que possuía um gênio forte e que constantemente passava dias trancado no quarto após ingerir comprimidos para dormir. De repente saía do quarto todo empolgado como se nada tivesse acontecido. Constantemente ameaçava cometer suicídio, mas nunca chegou a tentar de fato. Era uma drama queen, na verdade. Mas isso não o tornava menos adorável.
Na década de 90, Caio finalmente consegue dar vida ao romance cuja ideia namorava desde os anos 80, "Onde andará Dulce Veiga", ganhador do Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), quando teve um insight na fila de um banco: " - Eu deveria cantar", lhe ocorre a frase, desenrolando-se numa obra de ficção mais do que fantástica, e que inclusive virou filme recentemente. Dirigido por Guilherme de Almeida Prado, contando no elenco com Maitê Proença, Carolina Dickman e Eriberto Leão, o filme foi um projeto desenvolvido pelo diretor junto com o escritor, quando Caio ainda era vivo. Infelizmente ele não teve tempo de ver a obra pronta.
Depois da notícia da Aids, além de dedicar-se ao seu jardim e à plantação de roseiras, trabalhou loucamente para revisar e terminar sua obra e juntou todos os seus textos ainda não publicados na coletânea "Ovelhas Negras” e no último ano de sua vida, ainda teve ganas de escrever o arrebatador "Estranhos Estrangeiros". Faleceu no dia 25 de fevereiro de 1996, vítima da Aids.
Caio também tinha uma verdadeira obsessão por cartas, escrevia as pencas para todos e sobre tudo. Muitas de suas cartas foram publicadas nas compilações "Caio 3D" por épocas (70, 80 e 90) e em um volume próprio para cartas, organizado por Italo Moriconi, intitulado "Cartas" e hoje em dia sem sombra de dúvida as mesmas já fazem parte de sua herança literária, assim como suas crônicas publicadas nos jornais e revistas nos quais trabalhou, sendo notórias por exemplo, "As cartas para além muro" publicadas no Estadão, onde o escritor conta então como é a sua experiência com a AIDS, desde que se descobriu soro positivo. Uma seleção de suas crônicas foi elaborada por Gil Veloso e foi publicada em 1996, alguns meses após a morte do Caio, sob o título de "Pequenas Epifanias".
Teve muitos de seus textos transformados em peças teatrais e escreveu algumas peças também ao longo de sua vida. Gostava muito de teatro. Suas peças podem ser encontradas na compilação "Teatro Completo", publicada pela editora Sulina em 1997.


Difícil é indicar um ou outro livro. Todos eles são uma viagem fantástica - muitas vezes angustiante, outras epifânicas - ao mais profundo de nós. Literatura da brava, pop/erudita/fantástica que não pode faltar na estante de todo e qualquer admirador da boa literatura.


Bibliografia:

- Inventário do Irremediável, contos. Prêmio Fernando Chinaglia da UBE (União Brasileira de Escritores); Rio Grande do Sul: Movimento, 1970; 2ª ed. Sulina, 1995 (com o título alterado para Inventário do Ir-remediável).

- Limite Branco, romance. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1971; 2ª ed. Salamandra, 1984; São Paulo: 3ª ed., Siciliano, 1992.

- O Ovo Apunhalado, contos. Rio Grande do Sul: Globo, 1975; Rio de Janeiro: 2ª edição, Salamandra, 1984; São Paulo: 3ª edição, Siciliano, 1992.

- Pedras de Calcutá, contos. São Paulo: Alfa-Omega, 1977; 2 ed., Cia. das Letras, 1995.

- Morangos Mofados, contos. São Paulo: Brasiliense, 1982; 9 ed. Cia. das Letras, 1995. Reeditado pela Agir - Rio, 2005.

- Triângulo das Águas, novelas. Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro para melhor livro de contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983; São Paulo: 2 edição Siciliano, 1993.

- As Frangas, novela infanto-juvenil. Medalha Altamente Recomendável Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil. Rio de Janeiro: Globo, 1988.

- Os Dragões não Conhecem o Paraíso, contos. Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro para melhor livro de contos. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.

- Mel e Girassóis. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.

- A Maldição do Vale Negro, peça teatral. Prêmio Molière de Air France para dramaturgia nacional. Rio Grande do Sul: IEL/RS (Instituto Estadual do Livro), 1988.

- Onde Andará Dulce Veiga?, romance. Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) para romance. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.

- Bien Loin de Marienbad, novela. Paris, França Arcane 17, 1994.

- Ovelhas Negras, contos. Rio Grande do Sul: 2 ed. Sulina, 1995.

- Mel & Girassóis (Antologia)

- Estranhos Estrangeiros, contos. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.

- Pequenas epifanias. Porto Alegre: Sulina. 1996: Rio de Janeiro: 2ª ed. Agir, 2008.
- Girassóis. São Paulo: Global Editora, 1997.

- Teatro Completo. Porto Alegre: Sulina/IEL, 1997

- Fragmentos. Porto Alegre: L&PM, 2002.

- Caio fernando Abreu: Cartas. Org: Ítalo Moriconi. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002.

- Caio 3D: o essencial da década de 1970. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

- Caio 3D: o essencial da década de 1980. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

- Caio 3D: o essencial da década de 1990. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

- Melhores contos de Caio Fernando Abreu. São Paulo: Global Editora, 2006.

Teatro:

- O Homem e a Mancha

- Zona Contaminada

Tradução:

- Sonhos de Bunker Hill, de John Fante.
- A Arte da Guerra, de Sun Tzu, 1995 (com Miriam Paglia).


Obrigada, Tati, pelo texto tão completo e apaixonado.

Tatiana Pinheiro também escreve no blog Extravios e Roubos