21 fevereiro 2012

Carnaval no Fogo


Sem restrição, o sol incendiava uma fileira infinita de casas que se apinhavam umas sob as outras. Essa foi a primeira visão que tive ao sair do Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, o famoso Galeão, há três anos. Foi a primeira vez que senti o lugar conhecido mundo afora como ‘a cidade maravilhosa’.

Circulando pelo trânsito apertado até chegar no bairro Tijuca, zona Norte da capital, percebi a movimentação, o barulho intrépido de vozes que mesclavam sorrisos e produtos, as buzinas apressadas que entravam, sem pedir licença, nos meus tímpanos, então acostumados a quatro horas de silêncio. Todas essas sensações vieram muito antes da minha leitura ‘Ruycastriana’, o trepidante “Carnaval no Fogo – Crônica de uma Cidade Excitante Demais” (2003, Companhia das Letras, 256 pág.).

E bateu arrependimento por ter emparedado a leitura deste livro em uma posição tão retardatária. A obra do jornalista e escritor mineiro é uma verdadeira serenata de amor - finalizada com muito sexo pagão - ao sentimento carioca de ser, impulsionado pelas idiossincrasias que coroaram a formação e habitação do Rio de Janeiro. Há mais de uma década, Ruy Castro é colecionador voraz de livros, documentos e experiências que marcaram (e ainda marcam) a história fluminense.

Em “Carnaval no Fogo”, o escritor desenha, com a dose de bom humor e ironia que lhe é peculiar, a trajetória da cidade construída por boa parte dos quatro - ou mais - cantos do planeta. O surgimento do carnaval e do samba como políticas de resistência; as lideranças estrangeiras que por aqui fincaram moradia e estabeleceram contatos não tão formais com a população nativa existente; as belezas de paisagens naturais canibalizadas pela vontade do homem em manter perto de si conforto e luxo; a construção dos bairros tradicionais e a vontade do carioca em viver intensamente são peças fundamentais para começar a entender o que inspirou artistas, intelectuais, expoentes políticos, civis e mais um filão enorme de apaixonados incuráveis pelo Rio de Janeiro.

Castro também faz ode às “instituições sagradas” do carioca, tais como a comida de botequim, as chuveiradas, o fim de um dia exaustivo de trabalho com uma cerveja bem gelada na praia e a bossa nova, para exemplificar. Um livro bonito, apaixonado e que traz um recorte do Rio de Janeiro que ainda hoje seduz milhares de migrantes e imigrantes. O autor não esquece o eterno paralelo que vitima a cidade do fogo: tráfico, miséria, organizações criminosas e uma série de catástrofes sociais. O preço que todas as grandes urbes, em maior ou menor grau, pagam por serem excitantes demais.

Li a obra com um certo atraso, mas consegui experimentar algumas das emoções que Ruy detalhou, tão vivas no coração e na alma fluminense. Me apaixonei. Ardentemente.