17 fevereiro 2012

A intensidade do Bruxo do Cosme Velho: 50 Contos de Machado de Assis

Machado de Assi
“Genius is intensity”. A frase cunhada pelo escritor francês Honoré de Balzac avança séculos para pousar sob um dos maiores escritores brasileiros, se não o maior, de todos os tempos: Machado de Assis. Conforme consta em relatos biográficos, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no dia 21 de Junho de 1839, no Morro do Livramento (Rio de Janeiro). Descendente de escravos e mestiços, Machado teve uma infância de privações, ficando órfão de mãe e irmã ainda nos primeiros anos, e perdendo o pai algum tempo depois. Criado pela madrasta Maria Inês, conta-se que o jovem Machado de Assis começou a aprender francês com um padeiro das redondezas e procurava ler o máximo que podia, autodidaticamente.



Na adolescência, Machado começou a publicar poesias na revista Marmota Fluminense e, em pouco tempo, o jovem escritor já trabalhava na Imprensa Nacional como aprendiz de tipógrafo e revisor de imprensa. Conquistando a amizade de nomes como Manuel Antônio de Almeida (Memórias de um sargento de Milícias), Francisco de Paula Brito (A mulher do Simplício, A Marmota na Corte), Quintino Bocaiúva (Manifesto Republicano) e apadrinhado por José de Alencar (A Viuvinha, O Guarani, Senhora, Lucíola, Diva, Iracema), Machado de Assis foi desenvolvendo primorosos trabalhos, frutos de fases distintas, elemento fundamental para constatar o amadurecimento do autor.

Leitura obrigatória nos currículos escolares, o escritor carioca é conhecido pelo grande público através dos romances Dom Casmurro (1899), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), e de contos como "Missa do Galo", "A Catomante", "O Alienista" e "O Caso da Vara". Por alguma razão desconhecida, o ensino brasileiro ainda não aposta o suficiente na incursão pelas obras universais de um homem que teve a observação, crítica e consciência como principais aliadas.

Redescobrindo Machado

Capa do livro 50 contos de M.
Como depoimento pessoal, somente aos 24 anos eu consegui conhecer cinquenta, dos duzentos contos (aproximadamente) que Machado de Assis escreveu. Essa conquista só foi possível graças ao livro "50 Contos de Machado de Assis" (seleção, introdução e notas por John Gledson, 2007, Companhia das Letras, pág. 488). Gledson é professor aposentado de estudos brasileiros na Universidade de Liverpool, e é considerado um dos maiores especialistas em estudos machadianos, com cerca de 4 obras lançadas sobre o autor carioca.

Em uma seleção justificada por uma breve introdução, John Gledson diz que os cinquenta contos escolhidos foram todos construídos "depois de 1878, quando Machado já tinha quase quarenta anos, e outros foram escritos nas décadas seguintes". Para mim, foi uma surpresa descobrir ainda mais sobre o "Bruxo do Cosme Velho", apelido conferido ao escritor brasileiro - que pode ou não ter sido fruto do fato de Machado queimar suas correspondências em um caldeirão.

Dentre os contos que mais despertaram meus sentidos, estão "Teoria do Medalhão" (diálogo entre pai e filho sobre como alcançar sucesso e prestígio social/intelectual sem fazer grandes esforços, uma clara ironia às práticas da elite carioca da época); "D. Benedita - um retrato" (inconstâncias e caprichos de uma senhora leviana. Uma caricatura do ser humano, retratado aqui por uma figura feminina que não sabe o que quer); "O Espelho" (fenomenal! Elogios exacerbados acabam por alterar a identidade de um jovem nomeado alferes da guarda nacional. O rapaz, ao se olhar no espelho, perde-se em devaneios que lhe conferem fantasias de semi-deus); "Singular Ocorrência" (com finos toques de ironia que lhe são peculiares, Machado conta a história de uma ex-prostituta que, apaixonada, larga a vida mundana e se dedica ao homem que a provém. Mas, quebrando as utopias sociais, o amor não é capaz de suprir a carência afetiva e física que o parceiro, sujeito casado, deixa na vida da mulher, que acaba por traí-lo. Esse fato é alvo da especulação de dois observadores); "Uma Senhora" (a história de uma mulher que impedia que a filha casasse para não encarar que o tempo estava passando e ela envelhecia, mostrando até que ponto a vaidade envenena o coração e a vida das pessoas); "Um apólogo" (narração fantástica entre uma agulha e linha, sobre quem é mais poderosa e necessária. O enredo termina com uma lição de moral fantástica: "- Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico".

Outros contos que merecem destaque são "A Causa Secreta" (um homem sádico que sente prazer em apreciar o sofrimento alheio - um dos contos que mais me provocaram, justamente pelo teor psicológico); "Trio em Lá Menor" (uma dama que tem sua atenção disputada por dois senhores, mas seu único intento é juntar ambos em um só. Ela não deseja abrir mão da beleza de um, e nem das qualidades intelectuais do outro); "Um Homem Célebre" (fantástico! Um dos melhores contos que eu já li em toda a minha vida. O enredo conta a história de Pestana, um músico que sonha em compor obras clássicas, ser um imortal da música que consagrou Beethoven, mas só tem inspiração (e fama) por compor polcas, fato que se converte em um verdadeiro tormento na vida do pobre homem e, "Pai Contra Mãe", corte cáustico na prática escravagista.

Outras narrativas, de igual qualidade, figuram nessa coletânea organizada por John Gledson, sendo uma possibilidade inigualável de conhecer ainda mais - e se apaixonar perdidamente - pelo trabalho de Machado de Assis; sem dúvidas, um gênio pela intensidade.