25 fevereiro 2012

O Indivíduo - Entrevistas do Le Monde

O jornalista Alberto Dines, em nota de rodapé da obra O Papel do Jornal: uma releitura (1986), expressou de forma clara que "um jornal é a memória da sociedade, ele tem obrigação de organizar-se neste sentido". Dentro desta assertiva, o clássico jornal francês Le Monde tem feito história e inflado de orgulho seus compatriotas com edições que, ano após ano, revelam-se muito mais do que notícias frias ou distanciadas do presente. Pelo contrário: guardadas as devidas medidas, o Le Monde da década de 1980 soa absolutamente atual, ácido, instigante; observações que podem ser reconhecidas no volume "O Indivíduo", da série "Entrevistas do Le Monde".

Meses atrás, eu tive a oportunidade de ler "Literaturas", filão da mesma série, e me encantei com o engajamento dos jornalistas, a escolha dos entrevistados (todos de extrema relevância para a história da sociedade contemporânea, quiçá mundo), e entrevistas desafiadoras que, ao invés de embarcar em tendências, procuram encontrar horizontes diferentes.

"O Indivíduo: Entrevistas do Le Monde" (tradução de Sergio Flaksman, editora Ática, 181 páginas), traz uma seleção com os melhores psicólogos, cientistas, psicanalistas, teóricos e estudiosos da mente e do comportamento do século XX. A busca por respostas sobre o inconsciente humano e todos os desafios que o cercam; o misterioso processo do cérebro e as implicações político-ideológicas assumidas (ou mascaradas) pela teoria dos genes (hereditariedade), assim como pesquisas na área de sociobiologia (ostracismo intelectual à parte, foi a primeira vez que tive contato com o termo) e a condenação direta do modelo absurdo proposto na criação de hospitais psquiátricos. Todos esses assuntos podem ser encontrados na série, com destaque para as entrevistas de Erich Fromm, Léon Chertok, Jean-Pierre Changeux, Albert Jacquard, Jacques Mehler, Thomas Szasz, Ronald Laing e Joseph Berke (grifo no que mais me marcou).

Para mim, que só conhecia vagamente algumas das linhas de pensamento expostas ali através da minha irmã, que é psicóloga, foi uma descoberta enriquecedora. Como assinala o jornalista e crítico literário Roland Jaccard na Introdução do volume, o homem tem vivido uma intensa crise de identidade, onde pairam dúvidas, incertezas, incomunicabilidades, tédios, melancolias, desgostos, isolamento. A péssima administração dos meios de produção, associados a uma completa incompreensão da evolução tecnológica enquanto potencial de igualdade e justiça tem gerado frutos podres. A lista dos angustiados, deprimididos, abandonados e incompreendidos "homens-máquinas" (tema da excelente ficção científica Blade Runner) aumenta desproporcionalmente, e as instituições sociais continuam mergulhadas em total omissão. Qualquer escritor de mente criativa e um pouco de olhar agudo pode imaginar o final dessa história sem consultar nenhum calendário maia.

Retornando ao ponto, "O Indivíduo" consolida ainda mais o caráter documental do Le Monde como um periódico crítico e diferencial, mas que não está imune a erros, como pode ser observado nas entrevistas dos antagônicos Edward O. Wilson (teórico da sociobiologia) e Richard Lewontin (seu crítico mais ferrenho). Ao conduzir a entrevista, Claude Fischler coloca mais "lenha na fogueira" em ideias tão diferentes de egos que não se bicam. É como ler um jornal de caráter publicista do período imperial.

Entretanto, o balanço termina de forma positiva e confesso estar cada vez mais interessada em ler os outros volumes da mesma série, a saber: "A Sociedade", "Civilizações", "Filosofias" e "Idéias Contemporâneas".