27 março 2012

Da literatura russa - Anton Tchékhov e seus contos

Os títulos dados à Anton Tchékhov sempre me instigaram, por ser um russo, contista, atemporal, nascido no século XIX, conhecido mundialmente mas que eu até então não tinha tido a oportunidade de conhecer.
Na realidade nunca havia me deparado com nenhuma obra dele até recebê-lo em um envelope de remetente Patricia (obrigado amiga por este tesourinho!).
Me senti tão agraciada com esta “adivinhação de pensamento”, que passei-o na frente de todos os outros “livros à ler” da minha significativa lista de livros-não-lidos.
Li-o em poucas horas, não somente por ter 64 páginas, mas por ter me levado à esta ambientação russa de um século atrás com tanta magnificência em suas descrições, mesmo tendo como coadjuvantes de seus contos as pessoas comuns, com suas rotinas, perfídias, sordidez e autocomiseração. Tchékhov, usando sempre um tom de humor generoso e discreto, trata da narração com tamanha leveza que esta me fez sentir até mesmo compaixão por seus mais lânguidos protagonistas.

Neste livreto da Coleção 64 Páginas lançada este ano pela Editora L&PM, constam 8 de seus contos.
A palerma refere-se a governanta de um senhorio que a convoca em seu gabinete para acertar seu pagamento utilizando argumentos pouco plausíveis para descontar-lhe seu merecido dinheiro, dando-lhe uma lição de moral ao final.

No reencontro inesperado entre dois antigos amigos numa estação de trem, O Gordo e o Magro protagonizam uma história de exacerbada reverência aos títulos que ambos adquiriram na sociedade ao longos dos anos sem contato.

De título Ele brigou com a esposa e subtítulo Fato Verídico, este conto retrata as lamentações de um marido ao chegar em casa. Verifiquei um fato do cotidiano marital, em que o consorte engole à seco suas opiniões acerca da esposa enquanto se faz rude a um suposto pedido de perdão. Não pude deixar de imaginar sendo este protagonista o próprio Tchékhov, também não pude deixar de conter o riso.

Três atores itinerantes encontram um pomposo montante de dinheiro em A carteira, planejando como irão gastar, mas preocupados em como irão partilhar essa quantia. Entre os pensamentos de ganância de um e de outro, e falsos elogios e solidariedade mútua, nesta breve história há uma moral digna de reflexão.

A corista recebe em sua casa uma visita inesperada e se vê diante da sofreguidão da esposa de um de seus amantes que alega estar passando dificuldades financeiras com seus filhos, e sentindo-se trocada pelo marido, apela para um ser par de conjuras contra a cantora, no entanto, a protagonista que é até então odiada pelo leitor, está na verdade a sofrer uma fraude. Essa inversão de sentimentos muito me encanta e o autor consegue com muita harmonia, proporcionar essa variação de compadecimento pelas personagens.

Uma história de amor é narrada em A Dama do cachorrinho, em que duas almas comprometidas pelo laço matrimonial se encontram e passam a vivenciar este proibido e fulminante sentimento que gradativamente se eleva com a distância entre eles, em seus furtivos e calorosos encontros às escondidas.

Em o tocante A noiva, Nádia se vê infeliz com a ideia do enlace matrimonial que se aproxima, levando uma vida inerte em seu vilarejo e sem muitas perspectivas apesar de ter como noivo um jovem de bom nome e caráter. Com o passar de uma temporada de seu primo Sacha em sua residência, a protagonista encontra neste amigo conselhos para o despertar de sonhos de uma vida livre e independente, em um lugar distante, e fugida dali, abandonando família e noivo, parte para uma viagem determinada a seguir sua própria vontade.

Finalizando com banal mas bem humorado Trapaceiros à Força – Historinha de Ano-Novo o filho ansioso em demasia por o copo de um bom trago antes das doze badaladas do ano-novo, tenta pôr pressa ao mesmo adiantando-lhe os ponteiros enquanto a mãe está na cozinha a preparar o banquete. A mama, por sua vez, comete o mesmo ato ao ver as horas de aproximando do fim sem se dar conta do trapace.

Vale a pena cada linha lida, cada sentimento revivido, cada riso roubado. Tchékhov faz jus ao título que lhe foi atribuído de um dos melhores contistas de todos os tempos!

Anton Tchékhov - 1889