17 março 2012

Fun Home - uma tragicomédia em família

O texto de hoje foi escrito pela nossa convida Janaína Ferreira.
Boa leitura. :)

"em mim nada está como é, tudo é um tremendo esforço de ser"
Angústia - Secos & Molhados

Já faz um tempo que a Michelle me convidou pra falar sobre algum tema dentro da proposta do Dose Literária, porém, acasos da vida e contratempos impediram que eu mandasse antes.

Pois bem, falarei um pouquinho sobre um assunto que conheço razoavelmente (apesar de andar meio desatualizada dos novos lançamentos) que são quadrinhos literários - ou comumente chamados romances gráficos (graphic novels).

Esse termo é usado geralmente para quadrinhos de longa duração, seja qual for o estilo gráfico, baseado em um estrutura parecida com a prosa comum ou o romance. Das muitas graphic novels que eu já li, a preferida de todas é Fun Home de Alison Bechdel.


Em minha busca por novos títulos com estilo parecido, me deparei com a HQ dessa talentosa estadunidense da Pensilvânia. Alison narra de forma brilhante memórias de sua infância cuja figura central é seu pai, homem de comportamento ambíguo e confuso. O termo Fun Home é um trocadilho que pode tanto ser traduzido como "casa de diversão" quanto como "funerária", já que o negócio da família de Alison era justamente esse.

A narrativa de Alison é como um labirinto, hora externando sentimentos e fatos para no segundo seguinte voltar ao centro da história. Tudo isso entremeado por citações literárias (o pai de Alison era um apaixonado por literatura, em especial Scott Fitzgerald que é citado diversas vezes no quadrinho por sua obra "o Grande Gatsby") e sexualidade explícita. Inclusive, a sexualidade é um dos pontos que unem pai e filha que - mesmo separados por anos-luz em questão de gostos - eram, ambos, homosexuais. Ela, assumida desde a adolescência e bem resolvida. Ele, homem casado cujo comportamento com garotos jovens rendeu até um grande processo, nunca quis se expôr.


No final das contas, o que se vê em Fun Home, é uma tentativa - talvez bem sucedida- da autora/quadrinista em exorcizar os fantasmas de sua infância e juventude, além de instigar uma compreensão mais profunda sobre a figura quase mitológica de seu pai.

Alison, para mim, ensina que a relação familiar imposta pelos laços de sangue muitas vezes é dificultosa quando há o que ela chama de "espartanos e atenienses" convivendo no mesmo ciclo. Ela procura compreender e nós ganhamos com um livro intenso, visceral e humano. Em todos os sentidos.