14 março 2012

"Mutações"

Neste livro, pessoalíssimo, Liv Ullmann, uma atriz mundialmente famosa e admirada escreve, com total e tocante honestidade, a respeito de si própria – a respeito de ser atriz, mulher e mãe.
A Liv que nesta obra conheci, é a mulher complexa, irrequieta, para a qual tenho sido atraída também para os filmes que ela fez com Ingmar Bergman, desde Persona até Cenas de um Casamento e Face a Face.
Ela permite que entremos em seu mundo e em seus sentimentos, vendo-a em momentos cruciais de sua vida, expondo seus pensamentos e emoções.
Ela se abre completamente quando escreve como é trabalhar com Bergman, ou viver com ele, ou viajar com ele. Enfim, ela nos fala a respeito de seu gênio monumental e de suas idiossincrasias.
Liv nos deixa sentir o fluxo quase torrencial de seus próprios sentimentos pela jovem filha Linn – sua culpa por estar longe dela com tanta frequência; sua alegria por estarem juntas, coisa que, digo com firmeza, só quem é mãe para compreender e ser cúmplice dessas sensações tão profundas.
Ela conta a respeito de seu primeiro amor, do marido que ela abandonou, da família de onde veio, das pessoas em que ela confia... diversas foram as identificações.
Sua honestidade e franqueza me deu a total sensação de estar com ela, senti-la – quando ela recorda sua vida de mocinha em Oslo; quando ela entra em pânico ao se aproximar o dia das entrevistas; quando ela espuma de raiva no estúdio em Face a Face, quando ela e Bergman se encontram com Fellini e sua mulher pela primeira vez; quando ela assiste num cinema vizinho a Cenas de uma Casamento e fica espantada no momento em que uma mulher a seu lado irrompe num choro convulsivo; quando ela e Bergman reconhecem mutuamente que precisam separar-se; quando ela faz a experiência das pressões – e dos prazeres especiais – de Hollywood...

Cena de  "Persona" - Liv Ullmann
Vejo seu intenso envolvimento no trabalho, tanto no cinema como no teatro. Ela escreve ainda sobre seus estudos, seus primeiros papéis, as maneiras de usar a solidão e o sofrimento, e sua sensação completa de liberdade quando está trabalhando bem.
Sinto seus esforços ao ruminar, analisar, ao tentar compreender o que é que suas emoções lhe estão dizendo. Vejo suas mutações, ao vê-la deixar para trás seus antigos egos, ao vê-los refletidos na sua filha, ao vê-los todos reunidos na sua arte.
Romântica, amorosa, alerta, intensamente acolhedora e inteligente – e, nos aspectos essenciais, uma personalidade fortíssima – eis a Liv Ullmann cujas percepções, derrotas, lutas e conquistas se tornam para mim presentes e inspiradoras através deste livro maravilhosamente bem escrito e primorosamente traduzido pela escritora Sônia Coutinho ("Atire em Sofia”, “O caso Alice”, “Rainha do crime”) que soube conservar da melhor maneira toda a tranquila força do texto original.
De todos os livros que li sobre mulheres esplendorosas, Mutações foi a que mais me encontrei. Liv independente de luzes artificiais e holofotes para brilhar como atriz; como mulher. Ela tem seu brilho próprio, é simples, é forte, de opinião própria mas sem impôr sua feminilidade com bandeira erguida. Ora encontro simplicidade, ora complexidade. Ora me deparo com narrações vagas e reticências, ora com textos absorventes e descrições abrangentes sobre o âmago de seu ser. Liv é aberta, mas misteriosa, de sensibilidade honesta e transparente.
Ela encanta sem causar enfado, a leitura deste livro é um respirar de alívio, ao finalizar a última linha constatei: Eis aqui uma mulher compreensível e cúmplice da alma feminina.

Michelle falou um pouco mais sobre este exímia artista no post Semana da Mulher: Liv Ullmann

Mutações
Editora Nórdica
222 páginas
Título original: Förändrigen
Ano: 1978