17 março 2012

O livro que mudou minha vida: Pergunte ao Pó


Intensidade dantesca. Com duas palavras, a obra prima de John Fante veio ao mundo. Pergunte ao Pó (Ask the Dust, José Olympio, 206 pág.) traduz a angústia que ocupou a mente da tumultuada geração beat. E não só. Fante conseguiu traçar personagens com vida própria, usufruindo da rara capacidade de sair das páginas fixas e construir história. Foi assim com Arturo Bandini (alter-ego de John Fante), a mexicana Camilla Lopez e até mesmo o excêntrico Hellfrick.

A história é contagiante: de um lado, o amor incontido de Bandini e Camila, lutando diariamente para superar pressões acima do bem e do mal - que eu traduzo como o contexto histórico, desespero social e emocional, e acima de tudo, um complexo das relações humanas. Sim, Pergunte ao Pó reflete a incerteza dos sentimentos; o perigo quase atômico de relações hierarquizadas. Um verdadeiro chute nas bolas do véu que todos nós - em menor ou maior grau - ostentamos, à medida que limitamos nossas possiblidades, nossos desejos, nossas necessidades e nossas prioridades em modelos pré-fabricados.

Bandini é um sonhador. De um lado, luta pela sobrevivência, levado ao tédio da espera, à desolação do instante que não passa. Tudo isso ao lado da vontade sacramentada de ser escritor. Um grande escritor. Emoções que Fante conseguiu transmitir com genialidade. Irresistível a cena em que o italiano acompanha seu vizinho Hellfrick em busca de um pedaço de carne - nessa altura o estranho velhote, que gastava seu dinheiro em gim e andava enfiado em um roupão velho, desperta para uma nova fascinação: um bom bife, fígado, filé... Carne, muita carne. Bandini acompanha Hellfrick em sua empreitada por um bife suculento e, sem maiores delongas, observa horrorizado o parceiro acertar um bezerro e carregá-lo, semi-morto, na traseira do carro, completamente banhado em sangue.

Outro ponto forte está no antológico banho à beira mar, em estado de libertação total, de Arturo e Camilla. Uma cena de amor - sutil, exatamente como deve ser - como poucas na história da literatura. E, claro, a despedida de Bandini, ao lançar para a desaparecida mexicana seu primeiro romance; lançar aquele amor e presentear o deserto; o mesmo deserto que o tragou.

Recomendo acima de qualquer dúvida ou apatia.