10 março 2012

Semana da Mulher: A obra-prima de uma prima-donna


Jane Austen nasceu em uma paróquia de Steventon no condado de Hampshire, Inglaterra. Sua família pertencia a uma classe latifundiária da Grã-Bretanha (os gentry). Esta classe social era formada por pessoas sem muitas posses, mas, em termos de títulos nobiliárquicos, estavam logo abaixo dos nobres aristocratas. Foi nesse ambiente puritano e fechado que a romancista encontrou material suficiente para elaborar personagens que transcenderam a rotina limitada a qual estava submetida.


O clássico Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, 1797) não só introduz Jane Austen na galeria dos maiores fenômenos da literatura inglesa, como também retrata as principais ideias da mulher que interpretou temas cotidianos à luz da universalidade. Com uma observação cirúrgica da realidade que a cercava, Austen retratou a limitação da aristocracia rural em personagens ‘transgressoras’ (guardadas as devidas proporções), irônicas, fortes, visionárias e rigorosamente convictas.



“É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa.” Com essa introdução, a romancista irrompe na peça-chave que permeava a sociedade da época: casamento e dinheiro.



Orgulho e Preconceito foca suas atenções na saga de Elizabeth Bennet, a segunda filha em um lar de seis mulheres e um único varão – o patriarca –, o que simbolizava, segundo a lei da época, que o espólio iria para o parente do sexo masculino mais próximo na árvore genealógica.



Para se manterem, as mulheres precisavam arranjar bons casamentos, com homens que vivessem de renda e que pudessem lhes proporcionar uma vida confortável em termos financeiros. Com a chegada de Mr.Bingley, um gentleman que dispunha de quatro ou cinco mil libras anuais, a casa dos Bennet entrou em alvoroço, com a Mrs. Bennet solicitando ao marido uma visita ao novo locatário de Netherfield Park. A partir desse ponto, a história se desenrola em longos e inteligentes diálogos, demonstrando toda a capacidade da autora de contrapor os hábitos da sociedade aos verdadeiros sentimentos e paixões que guiavam suas heroínas.



Com Elizabeth (Lizzy) não foi diferente. Ao travar o primeiro contato com o amigo de Mr.Bingley, o insociável e taciturno Mr. Darcy, a protagonista diz uma das frases que nortearam o rumo do tempestuoso relacionamento que brotaria dali: “Eu poderia facilmente perdoar o seu orgulho, se ele não tivesse mortificado o meu”. Diferentemente de suas irmãs, Lizzy Bennet é um espírito indomável, guiada por questões existenciais complexas.



No decorrer da trama, Jane Austen descortina relações de poder, alpinismo social e a estratificação de condutas e comportamentos, onde, muitas vezes, a figura feminina era renegada ao mero estado de obrigação. Acima de tudo, o livro caracteriza a veia central de todos os trabalhos da autora, onde a força dos pré-julgamentos reverbera no que, segundo informações biográficas, distinguiram sua própria vida: o fato da mulher assumir uma posição autônoma dentro da sociedade, podendo decidir o rumo do destino que almejava seguir. Jane Austen cria outros mitos de ascendência feminina – temperada, claro, com muita contenção, o que viria a ser outra marca registrada – em Razão e Sensibilidade, Mansfield Park, Emma, Abadia de Northanger e Persuasão.



Através da obra Orgulho e Preconceito, a autora inglesa imortaliza o drama que, séculos depois, permanece sempre atual: posição e poder nas relações interpessoais. Na edição nacional, lançada pela editora Civilização Brasileira (2006, 2° edição, 430 pág), o livro conta com a tradução do renomado escritor, jornalista e dramaturgo Lúcio Cardoso.



Como escreveu David Cecil, autor do retrato-biografia ‘A Portrait of Jane Austen’: Jane Austen “permanece para mim – sem dúvida como ela teria desejado – sem intimidade, apenas uma conhecida.”