07 março 2012

Semana da mulher: Florbela Espanca

Florbela Espanca (1894-1930) tem sido considerada, com muita justiça, a figura feminina mais importante da literatura portuguesa em todos os tempos. Sua poesia, mais significativa que seus contos e produtos de uma sensibilidade exacerbada por fortes impulsos eróticos, corresponde a um verdadeiro e ousado diário íntimo, cuja temperatura de confidências só encontra semelhança nas Cartas portuguesas de Mariana Alcoforado, outra obra que terá seu espaço em minha estante, muito em breve.

Florbela d'Alma da Conceição Lobo Espanca nasceu em Vila Viçosa, Portugal. Seus primeiros versos foram escritos ainda em época do curso secundário, mas que só foram publicados após sua morte.
Malogrado seu casamento, vai para Lisboa estudar Direito e, nesse mesmo ano, 1919, publica Livro de mágoas, que não foi reconhecido na época. Igual destino teve a obra seguinte, Livro de Soror Saudade, dado a lume em 1923. Novamente infeliz no casamento, retira-se do convívio social, embora continue a escrever poesia e publicá-los ao acaso. Recolhe-se em Matosinhos, Portugal, já agora estimulada pelas renovadas esperanças de felicidade conjugal, mas seus versos entram a dar sinais de exaustão.
Morre, nesta mesma cidade, segundo alguns estudiosos, de suicídio, ao tomar uma overdose de barbitúricos. Antes dessa, havia cometido duas tentativas.
Portadora de uma insaciável sede de amar, logo convertida em ideário de vida, tem início sua dolorosa tragédia: a impossibilidade de expressar, à perfeição, este estado de alma. Embora os sonetos de Florbela sejam tão angustiosos e contagiantes, ela tristemente verifica a impossibilidade de efetuar a comunicação integral de sua desventura: no soneto Impossível, confessa que a sua dor é tão grande que não caberia mesmo em 'cem milhões de versos', caso os viesse a escrever.
Florbela vivia num drama existencial, numa eterna ansiedade, e de todas as tragédias que viveu, só tinha uma certeza: queria amar e ser amada.
A própria poeta, num auto-retrato, mostra até que ponto o seu temperamento, visceralmente insatisfeito, a fadava à incompreensão: O meu talento! De que me tem servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequena esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que não me tenha feito mal. Talvez culpa minha, talvez... O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!
Florbela passou por um enorme trauma, quando havia finalmente descoberto a gravidez que a consolidou firme em ideais de vida e de completa mulher, sofreu um aborto, e a partir desta perda, nunca mais foi a mesma, o que se sucedeu com isso o diagnóstico de uma neurose, que carregou pelo resto de seus dias.
Cansada de suplicar, a Morte é o próximo passo, como no soneto Com os mortos: Deixai entrar a Morte, a iluminada /A quem vem para mim, para me levar /Abri todas as portas par em par /Como asas a bater em revoada.
A tragédia da impossibilidade de comunicar um amor incorrespondido foi, portanto, a grande tragédia de Florbela Espanca, compreensível (se é que há compreensão para essas coisas) na fusão das duas personalidades da poeta numa só: a artista e a amante.

Nas obras da poeta “Poesia de Florbela Espanca Volume 1 e 2” lançados pela editora L&PM foram reunidos seus mais tocantes e íntimos poemas, estes, com tantas variações de temas e humor, porém, focados mais no sentimento de amar, que seria injustiça eu citar somente um, recomendo fortemente àqueles que procuram encontrar em Florbela, não somente poesia melancólica, mas todo o seu intrigante e profundo interior.

Quem me conhece, e conhece Florbela, também entende o porquê das minhas identificações em sua vida e obra.