03 março 2012

Trilogia Millenium - por Anna Costa


As meninas aqui do Dose Literária já me conhecem o suficiente pra saber que quando eu gosto de uma coisa, eu pago pau. E se tem uma coisa que paguei pau por todo o mês de fevereiro, foi a trilogia Millenium. 

Editora: Companhia das Letras
Autor: Stieg Larsson
Ano: 2010
Títulos:
1.    Os Homens que Não Amavam as Mulheres - 522 páginas
2.    A Menina que Brincava com Fogo - 607 páginas
3.    A Rainha do Castelo de Ar – 685 páginas

Um em cada três suecos já leu a trilogia. O museu da capital, Estocolmo, possui um passeio turístico que mostra as principais cenas do filme, entre eles a casa do protagonista Mikael Blomkvist, e a sede da revista Millenium, que intitula os romances.

Até 2010, mais de 26 milhões de exemplares foram vendidos em todo o mundo. A Suécia lançou três filmes baseados na história. Hollywood acabou da lançar sua versão do primeiro livro. Uma busca no Google gera quase 9 milhões de resultados. Acho que esses dados servem pra embasar meu fascínio pela obra. 

Apesar de tudo, quando peguei os livros, mal sabia do que se tratava. Apenas ouvia dizendo por todos os cantos que os livros eram fantásticos e os filmes, idem. Quase todos os amigos literatos com quem conversava já haviam lido ou estavam lendo. Quando surgiu a oportunidade de emprestá-los, não deixei passar, e não me arrependi. Uma dica que dou é: sente-se confortavelmente e leia os três volumes em um tapa. Ou só comece a ler quando tiver certeza que não vai precisar parar, porque os livros de Stieg Larsson são basicamente isso: você não consegue parar de ler. 

Stieg Larsson não dá ponto sem nó. Nas quase 2 mil páginas, de uma trama que, com tantos detalhes, parece ter sido concebida pela mente de alguém que realmente viveu cada segundo da estória, não consegui encontrar nenhum fio solto, não faltou nenhuma explicação para nada. O protagonista Mikael Blomkvist é uma espécie de alter ego de Larsson. Ambos são jornalistas, ambos lutaram pelos direitos das mulheres e ambos conheceram de perto vítimas de misoginia. Em suma, é disso que a trilogia trata: o ódio pelas mulheres.


~~ minhas visões sobre a trilogia ~~ 


No primeiro livro, "Os Homens que não Amavam as Mulheres", a trama começa lentamente. Tão lentamente que só lá pela página 200 é que os dois personagens principais - Mikael e Lisbeth - se encontram. O que pode ser um fator desestimulante acaba sendo uma recompensa pra quem não desiste, e a partir do momento em que a coisa 'engata', é bom ter os três livros à mão.

Mikael Blomkvist é um jornalista econômico e sócio da Revista Millenium, que enfrenta uma grande crise. No momento em que ele decide dar um tempo até as coisas esfriarem, surge Henrik Vanger, o patriarca de um grupo de empresas que tem um passado ligado à tragédias familiares. Henrik pede que Mikael o ajude a desvendar um mistério que o assombra há 4 décadas: o desaparecimento de sua sobrinha Harriet, provavelmente por um dos membros da família Vanger. 

Lisbeth Salander, uma incrível investigadora que trabalha para Milton Security, é o que pode-se chamar de anti-heroína. Pela sua descrição física (incluindo as frases das camisetas que ela usa), acredito que ela seria uma goth-punk, embora ela própria entenda tanto de música quanto um homem das cavernas. Com um visual chocante e incríveis habilidades em informática, a hacker Lisbeth é a verdadeira protagonista da história, mas só com o desenrolar da mesma é que o leitor percebe isso. De fato, Lisbeth Salander é um dos personagens femininos mais marcantes da literatura contemporânea. Declarada pela justiça como incapaz e psicologicamente perturbada, ela consegue liberdade monitorada por um tutor, que é um tremendo filho da puta misógino. 

Quando eles finalmente se encontram para solucionar o caso da família Vanger é que a coisa fica séria. Em cada parágrafo me peguei dizendo "a-há, o culpado é esse aí", mas era impossível afirmar. Não se sabia nem se Harriet havia sido morta ou sequestrada. Em uma das páginas, Mikael afirma: "É realmente um caso fascinante. Nada na investigação parece seguir uma lógica normal. Cada questão permanece sem resposta, cada pista leva a um beco sem saída".  Graças ao olhar perspicaz de Mikael para detalhes e às diversas habilidades de Lisbeth, o caso é solucionado, mas não sem um clímax que te faz prender a respiração e revelações surpreendentes. O título do livro em português faz muito mais sentido nessa hora.

Já em "A Menina que Brincava com Fogo", a hacker é acusada de triplo assassinato, quando um casal que investigava crimes contra mulheres é encontrado morto e a arma do crime tem as digitais de Lisbeth. Além disso, seu tutor também é assassinado. O caso ganha proporções nacionais e um perfil distorcido dela é divulgado na mídia. Todos estão à sua caça, exceto Mikael, que acredita em sua inocência e faz de tudo para prová-la, investigando os assassinatos. Lisbeth é o foco do livro, e é nesse volume que geralmente a gente se apaixona por ela. Tremendamente sacaneada pela justiça sueca, pelos homens e pelo acaso, ela tem que se esconder para planejar sua própria justiça. Apesar de ninguém - nem mesmo o leitor, por várias páginas - saber onde ela está e se é mesmo inocente, acabamos torcendo por ela. Mikael e ela continuam extremamente conectados. O livro acaba justamente na melhor parte e se você não estiver com o terceiro na mão, ferrou. 

"A Rainha do Castelo de Ar" é a continuação do segundo livro e o desfecho da história que envolve o misterioso passado de Lisbeth, sua família e as tramas que a levaram a ser internada em uma clínica psiquiátrica. Os personagens que foram amplamente descritos nos dois volumes anteriores e que pareciam ter sido páginas desperdiçadas reaparecem e cada um tem um papel decisivo. Mortes e mistérios aparecem uns atrás dos outros e os protagonistas se vêem numa situação em que a própria polícia secreta sueca é a vilã da história numa incrível teoria da conspiração. Mikael acaba investigando a polícia e correndo risco de vida. Lisbeth aguarda julgamento por várias infrações que cometeu. É então que as mulheres se unem para guerrear contra os homens que as odeiam. Policial, advogada, investigadora, jornalista e hacker, mesmo sem se conhecer, combatem juntas os seus antagonistas.


Em suma, Millenium são livros atuais, que lidam com temas como pirataria, privacidade, quebra de valores da sociedade sueca e, porque não dizer, mundial. Temas como espionagem internacional e teoria da conspiração são retratados. Todos os personagens são descritos tão bem, física e psicologicamente, que é impossível não simpatizar e entrar na mente até mesmo do pior dos assassinos. Pra quem não tem medo de livros grandes, recomendo extremamente a leitura.


Curiosidades (um brinde pra quem aguentou ler até aqui): 

  • Stieg Larsson morreu aos 50 anos, antes de ver suas obras publicadas e toda a repercussão em torno delas. 
  • Ele havia planejado escrever 10 livros, e deixou um quarto livro pela metade. Mas isso não atrapalha de forma alguma a leitura da trilogia, que tem seus pontos todos amarrados (exceto uma personagem chamada Camila, que acho que vocês vão entender como único ponto sem nó na hora em que chegar à esta parte da leitura. Acredito que este personagem seria lidado com mais ênfase em alguma obra posterior).
  • A companheira de Stieg, Eva, se propôs a terminar o quarto livro já que possuía cerca de 3/4 dos manuscritos e conhecia o enredo, mas por problemas de direitos autorais, ficou impossibilitada de fazê-lo, já que eles nunca foram casados.
  • Um amigo de Larsson afirmou que, quando ele tinha 15 anos, testemunhou o estupro de uma garota chamada Lisbeth e nunca se perdoou por não ter feito nada para impedir. Daí vem o nome da heroína.
  • Surgiram rumores em torno de sua morte graças aos trabalhos jornalísticos que denunciavam racismo, nacionalismo e misoginia. Mas logo descobriu-se que sua morte foi devido a um infarto.
  • Lisbeth Salander é descrita, embora sem confirmação, como uma portadora da Síndrome de Asperger.

Finalizo este extenso post com uma descrição de Lisbeth que, de todos os links que visitei para construir meu texto, foi o que mais se adaptou ao meu próprio pensamento:

"Salander é inteligente, ela é guerreira, ela sempre vence, e ela não vai deixar ninguém dizer o que ela deve fazer. Não é de se admirar que tantas mulheres secretamente desejam ser como ela."