09 abril 2012

Corações em curva


Duas mulheres, três crianças e um homem. Seis corações pulsando indistintamente e uma única palavra que dá início e fim a tudo: escolha. A narrativa traçada por Emily Giffin em "Questões do Coração" (Heart of The Matter, editora Novo Conceito, 2011, p. 438 ) envereda pelo milenar e obscuro caminho da infidelidade (nos termos entendidos pela sociedade). A história da ex-professora universitária Tessa Russo gira em torno de fatos nada distantes da realidade de boa parte das leitoras: mulher que abandonou a carreira para se dedicar em tempo integral ao exercício esposa/mãe, vivendo de descascar batatas, fazer compras, limpar fraldas e, dentro do contexto social no qual está inserida, fazer uma social com as amigas do bairro. Tessa é casada com o cirurgião pediátrico Nick Russo, descrito como um homem atraente e decidido.


A vida da advogada e mãe solteira Valerie Anderson também encontra eco na rotina de outra parcela das mulheres (uma boa parte delas). Valerie precisa dar o duro para criar sozinha o filho de seis anos, fruto de um relacionamento conturbado e infrutífero. Essas duas mulheres de rotinas tão diferentes, com expectativas traçadas por retas, encontram seus corações em uma curva que divide o mesmo nome, sobrenome e afeto: Nick Russo. Giffin sabe delinear de forma natural o encontro do médico com Valerie, mãe que precisou encarar o sofrimento do filho de seis anos, vítima de queimaduras no braço e na face. Também desnuda a confusão de Tessa ao perceber que alguma coisa vai mal no seu casamento.

Ausências, enganos, confusões e sentimentos são colocados à prova em dois lados da mesma moeda. Intercalando a visão de Tessa e Valerie, o leitor vai descobrindo como relacionamentos possuem linhas frágeis e difíceis de costurar. A dona-de-casa não consegue entender onde falhou, o que deixou de fazer, em que ponto permitiu que a rotina esmagasse o amor e o sexo de um casal apaixonado. A profissional e mãe independente não compreende como conseguiu viver tanto tempo sem aquela sensação de lar, de segurança, de desejo e, principalmente, da presença de um pai para o filho.

Todos esses questionamentos deram à autora uma posição de destaque em resenhas, postagens e comentários sobre a obra, enquadrada no gênero chamado "chick lit", onde estão escritoras como Helen Fielding (O Diário de Bridget Jones), Candace Bushnell (Sex and The City), Lauren Weisberger (O Diabo Veste Prada) e a sonífera Meg Cabot (O Diário da Princesa). Emily Giffin criou uma trama interessante, real e onde o peso da verdade/bondade não está expresso nas entrelinhas, e sim na interpretação pessoal.