24 abril 2012

Livros e fantasias: Presentes da infância para uma sociedade adulta anódina


A infância é, ou pelo menos deveria ser, um período mágico de descobertas, fantasias e diversão. É a fase em que nos permitimos sonhar livremente, falar livremente, perguntar livremente. É o momento em que estamos preenchendo os nossos sonhos com cores e balões flutuantes, longe dos grilhões sociais que não tardarão a chegar, nos açoitar e nos desapropriar do nosso mundo de fantasias coloridas.

Nessa etapa, algumas histórias são capazes de nos transformar - daquele jeitinho próprio -, de nos encorajar e abrir ainda mais as asas da nossa imaginação. Anos depois, percebemos que somos capazes de lembrar nitidamente aquela frase, gravura ou personagem que ficaram registrados no mais íntimo da nossa memória. Foi assim que aconteceu comigo ao ler "Os Cisnes Selvagens", de H.C. Andersen, "O Companheiro de Viagem", do também escritor H.C. Andersen", "Pretinha, Eu?", do brasileiro Júlio Emílio Braz e "O Amor Chegou de Surpresa" (Love changes everything), de Arlynn Presser. Expostos de forma cronológica, esses livros contam um pouco da minha história; sempre que os releio ou revejo (e acreditem, faço isso espaçadamente), lembro de como costumava rir, me encantar, desejar e sonhar com essas histórias.



Tudo começa nas bases da secular história da princesa que, renegada pela madrasta má, teve que se apartar da sua família, reino e irmãos queridos. A trajetória de Elisa retoma valores tradicionais e enaltece a questão da pureza, da família e do perdão. Uma história de amor com final feliz, óbvio. Mas o que me marcou foi o sofrimento de Elisa: sua abnegação silenciosa em aceitar as maldades dos outros para fazer ao próximo feliz. Piegas? Pode ser. Afinal, hoje temos a Semiótica e os críticos para explicarem a origem de todos esses contos e histórias infantis. Mas não posso esquecer que passei a entender valores como a bondade e o amor como algo que transcende as obrigações religiosas ensinadas desde o berço. Passei a entendê-los importantes pelos princípios que carregam em si, e não por medos de castigos divinos - o que, definitivamente, saiu do meu repertório há muito tempo e explanou possibilidades de compreender Deus de formas diferentes. Isso é outra história...

Não posso deixar de mencionar a trajetória do menino bom, pobre e órfão (altruísmo e sofrimento) que, após enterrar seu pai, parte em uma grande jornada. Com sua bondade, Joãozinho modifica a vida de todos ao seu redor - inclusive a sua. É um enredo tocante! Inserido nas clássicas histórias infantis, lembro como se fosse hoje como molhei as grossas páginas do livro, impressionada com a bondade do menino órfão que deposita suas últimas moedinhas para favorecer o corpo de um morto que nem conhece. O personagem me provocou surtos de pena e indignação, e lembro ter pensado (erroneamente, como hoje posso comprovar) que gostaria de ser advogada para ajudar os outros e, especialmente, fazer justiça. Ao menos foi um passo importante para que eu olhasse o mundo que me cerca com muito mais coração.


Ainda na infância, tive contato com as obras pré-adolescentes "Pretinha, Eu?" e o "O Amor Chegou de Surpresa". Impossível negar o mérito da história de Vânia, a garota negra e simples, que entra em um colégio tradicional e branco, conquistando espaço pela sua capacidade brilhante. Muito mais do que uma epopeia racial, o livro de Júlio Emílio Braz coloca de frente uma realidade que muitos de nós, brasileiros miscigenados, queremos negar: a cor da nossa pele. Esses dias, lembrei da obra de Braz quando, assistindo a um noticiário de televisão, vi a repórter perguntar a um punhado de crianças que estavam em uma exposição (não me recordo qual) em São Paulo sobre que cor de pele elas atribuíam a si mesmas. De repente, um garoto negro aparece no meio da matéria e diz: "Sou moreno claro". Evidentemente nós temos um problema. E Braz encara isso na personagem Isabel, mestiça que não percebe a própria cor. Anos mais tarde, encontrei nos textos do Alex Castro algumas respostas para dúvidas que circularam minha cabeça na época. Mas a importância do livro me despertou para isso bem mais cedo do que de costume.

E, encerrando o revival proposto, no finalzinho da infância, desceu como um tombo a obra teen de Presser, que traz a "saga" de Gerolyn "Gigi" Pelka, a típica desengonçada que, após passar um ano fazendo intercâmbio em Paris, retorna aos EUA determinada a conquistar o amor de sua vida, Jack. Nem preciso mencionar que Jack é o favorito da escola, o bonitão, o coisa-e-tal, não é? Uma história norte-americana, com amores norte-americanos e caricaturas da então época teen de lá. O que achei interessante - e marcante - no livro foi a possibilidade de compreender que "os sonhos nem sempre estão onde nós achamos que eles estão". A frase não é do livro, mas poderia ser o começo do final. Gigi encontra no melhor amigo as estrelinhas que tanto povoaram seus sonhos do primeiro beijo. Claro, na época em que li, ainda não pensava 100% em namoros e beijos, mas lembro que desejei que fosse encontrar as estrelinhas que Gigi viu. Ao menos, eu consegui sonhar. E a realidade não foi totalmente diferente, provando que açúcar e sal podem coabitar harmonicamente.