28 abril 2012

Travessuras e breguices do amor de uma menina má (por Mara Vanessa)


"Pode chamar isso de amor tortuoso, paixão barroca, perversão, pulsão masoquista ou, simplesmente, de submissão a uma personalidade esmagadora, diante da qual ela não conseguia opor nenhuma resistência". Essa afirmativa, exposta nas páginas 280 e 281 da obra, catapulta uma história de amor que habita entre o animalesco e o terno; entre o desejo e a reparação; entre a fidelidade e a traição. O premiado autor peruano e ex-candidato à presidência do Peru, Mario Vargas Llosa, soube como fazê-lo através das sutilezas de "Travessuras da menina má" (Travesuras de la niña mala, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, editora Ponto de Leitura, pág. 400), um romance que alcança muito mais do que o triunvirato amor-mudanças-destino para ir de encontro às grandes mudanças recebidas pelo mundo na década de 1950 até o final dos anos 80.

Ricardo Somocurcio, um jovem peruano cujo maior objetivo na vida é ir morar em Paris, conhece, ainda na adolescência, a bela e misteriosa Lily, menina conhecida no tradicional bairro de Miraflores como chilenita. Desde esse tempo, Ricardito, como era chamado, tenta cortejar a menina e ocupar o posto de namorado. Muitos acontecimentos mais tarde, Ricardo vai viver em Paris - sonho finalmente realizado - e se emprega como tradutor da Unesco. Lá, o peruano faz amizades com guerrilheiros e ativistas do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR) e reencontra a ex-chilenita com o nome de camarada Arlette. A partir desse momento, a história de Ricardito e da menina má (alcunha a qual ele costuma chamá-la, já que não sabe nada sobre seu nome verdadeiro e suas origens) se intercala em longos períodos de ausência e um tórrido romance, atravessando Paris dos anos 60 e toda a revolução e pensamento que pareciam borbulhar dela para esbarrar na Londres das comunidades de paz e amor, dos ácidos lisérgicos e marijuanas,  do movimento do amor livre, da aids. Uma década depois, respira arduamente na Tóquio dos Yakuzas. O repouso final está em Madri de 1980, cercada pelas grandes mudanças políticas, pela babel urbana e últimos suspiros.

Llosa, que conquistou prêmios importantes como Cervantes, Príncipe de Astúrias, PEN/Nabokov e Grinzane Cavour, criou personagens sinceros e com toques suaves de experiência autobiográfica. Não há como ficar indiferente aos encontros sexuais de Ricardo (o "coisinha à toa", "menino bom") e da menina má, uma mulher que tem ânsia de riqueza, poder, prestígio e status. Uma personagem que inverteu os papéis tradicionais: ao invés de dar prazer, resignada aos pedidos masculinos, ela ordena ao amante proporcionar-lhe prazer e se concentra em tal.

A narrativa de "Travessuras da menina má" é próxima, acolhedora e gera identificação. Até mesmo aquela tiazinha beata pode ter atravessado uma fase de Ricardito embalada por antigas canções; ou ainda o olhar perdido do pós-doutor famoso em uma mesa de bar, devaneando na melodia de outras canções e lembrando como seu coração foi sumariamente pisado por tantas meninas más. Llosa também invade corações como o seu, nobre e moderno leitor(a), ao fazer a história do "coisinha à toa" pular no seu copo de cerveja ao som daquela banda preferida

Ler sobre as intempéries desse casal de peruanos do mundo nos faz lembrar como o amor não está a salvo, preso em uma redoma. Ele está solto no ar, na vida, e sujeito aos imponderáveis do destino.