10 maio 2012

A cegueira epidêmica de José Saramago

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos".

Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.

A epidemia do chamado "mal-branco" surge, e é uma cegueira que se alastra rapidamente pela população, que fica presa em uma treva, mas branca, leitosa e quase palpável. O governo decide então colocar as pessoas em quarentena, e também quem teve contato com elas. Logo percebe-se que não há qualquer indício de cura e todos vão ficando cegos. A história principal gira sobre o primeiro grupo contagiado, que fica alojado em um manicômio desativado. Entre eles, há "a mulher do médico" que entra clandestinamente fingindo ser cega, mas de todos é a única que enxerga.
O que se passa no livro é um registro absurdo do que a sociedade se torna enquanto todos os cegos ficam confinados. Extremamente chocante, com passagens sobre a luta por comida e direitos sanitários básicos, como água limpa e banheiro. Se eles tentassem fugir, seriam mortos. Muitos foram mortos. A "mulher do médico" é a única testemunha de todos os horrores. 
Impossível  evitar a comparação com a série The Walking Dead. A primeira vista, pode parecer que a história é sobre zumbis, mas é muito além, e assim é "Ensaio Sobre a  Cegueira". A narrativa é um registro da sobrevivência física e do desmoronamento da sociedade. A cegueira é subjetiva e metafórica,  todos estão desesperados e a sociedade entra em ruína.
Nunca havia lido nada do Saramago antes. Ele tem um estilo único de escrever, que a princípio pode ser estranho, já que ele não utiliza falas com travessões e usa poucos parágrafos. Alguns deles correm livremente páginas a fio. Às vezes, não dá pra saber se quem está falando é o narrador ou até mesmo qual personagem, mas isso não atrapalha em nada a leitura, a meu ver. Considero-me com sorte por poder ler tamanha obra prima na língua original, sem traduções nem adaptações. Recomendo fortemente a leitura


(A Michelle fez um post sobre o "As Intermitências da Morte" aqui no blog. Recomendo também)


"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." - José Saramago.