05 maio 2012

Histórias Extraordinárias

Edgar Allan Poe: o corvo da literatura horror/policial

Cada ser humano carrega dentro de si dois ou mais mundos que, algumas vezes, podem se confrontar. E quando isso acontece, a linha que separa sanidade e loucura se rompe, deixando a mente prisioneira de um desses universos. No momento de lidar com essa separação, algumas pessoas encontram inspiração na arte, no álcool, nas drogas, na música e etc.; outras se transformam em tecnocratas em cargos de comando, impermeáveis ao altruísmo, seguidos daqueles que simplesmente se deixam enlouquecer, matar, morrer. Há também os que somam algumas dessas 'formas de resistência' e as unem ao poder da palavra. Foi isso que fez o escritor, contista e poeta norte-americano Edgar Allan Poe.

Órfão desde os primeiros anos de vida, Poe foi criado por um casal rico que lhe registrou como se filho legítimo fosse. Frequentou excelentes colégios e, posteriormente, ingressou na University of Virginia (Universidade de Virgínia), onde passou pouco tempo, devido a um estilo de vida regado a farras e boemia. O insucesso também se estendeu na tentativa de carreira militar e nas relações familiares, levando-o a cortar relações com seus protetores. Após um período turbulento, o futuro escritor conseguiu espaço na revista "Southern Literary Messager", tendo seu talento reconhecido pelo fundador da publicação, Thomas White. Não obstante, os passos biográficos de Allan Poe são tortuosos: casa-se com sua prima de apenas 13 anos e a perde cedo para a tuberculose. Por conta dos vícios, é despedido da revista que o consagrou e acaba se afundando cada vez mais na bebida. Até que em 1849, o escritor é encontrado morto em uma rua de Baltimore (EUA).

Mesmo com essa sucessão de malogros pessoais (talvez, inspirado neles), Poe se consagrou como um dos mais perspicazes escritores do terror/horror/policial. Mas não se trata daqueles enredos baratos, repletos de carnificina gratuita e sem sentido. As histórias do contista norte-americano abordam os instintos humanos, a descrença no transcendentalismo paradisíaco, sentimento de luto, dor, além de temas como catalepsia (suspensão dos movimentos voluntários, rigidez muscular, estado de morbidez), tapocrifação (enterro de alguém que ainda está vivo), distúrbios psicológicos e psicopatia (adiantando anos luz um tema que hoje é banalizado à exaustão).

No livro de contos "Histórias Extraordinárias" (tradução, seleção e adaptação de Clarice Lispector, Ediouro, 2005, 164 pág.), Allan Poe despeja o melhor do subconsciente e do medo humano em contos como:

- 'O gato preto' (clássico)

Neste conto, você vai entender porquê ainda hoje persiste o mito de que os gatos têm sete vidas , além de entender quais são as formas do mal.

- 'A máscara da morte rubra'

Um rei covarde que isolou-se dos males da peste quando o povo padecia. Sátira excelente, intrigante e que dá frios na espinha.

- 'Os crimes da rua Morgue'

A figura do detetive (mesmo antes que o termo fosse cogitado) é exposta aqui através das observações brilhantes e estudadas do jovem Dupin.

- 'A queda da Casa de Usher' (fantástico!)

Na minha opinião, um dos melhores enredos do livro. Denso, fantasmagórico, retumbante! Não deixe de ler.

Entre muitos outros, nos quais ainda destaco: 'Os dentes de Berenice', 'William Wilson', 'Metzengerstein' (trazendo à tona a ideia de metempsicose) e 'Ligéia'. Um livro instigante, satírico, e que faz o leitor questionar suas próprias psicoses, além de confirmar o potencial de Edgar Allan Poe como contista. Certamente, meu caro, ele foi leitura de caras como Stephen King. Se você gosta do gênero, beba na fonte.