15 maio 2012

Os cavalos viscerais de Ruffato


Fim de expediente e final de semana. Depois de enfrentar um trânsito estressante, a tão sonhada volta para casa. Banho, refeição e chega a hora da tranquilidade, da boa e aconchegante leitura; algo que compense seus desgastes, que te faça flutuar e se sentir por alguns momentos fora da realidade. 

Cenário que não corresponde ao visceral "Eles Eram Muitos Cavalos" (editora BestBolso, pág.154, 2010), obra do jornalista Luiz Ruffato. O curioso título foi retirado do poema "Dos Cavalos da Inconfidência", de Cecília Meireles, e não poderia ser mais pertinente para descrever São Paulo, a cidade das luzes e escuridões do Brasil.
O livro de Ruffato já esteve em pauta no Dose Literária e rendeu boas impressões. Tomei conhecimento dele através da Patrícia e decidi apostar. Confesso: foi bem complicado. A narrativa não segue os padrões convencionais e alterna entre poesia, prosa, texto, depoimento, conto,  fluxo de consciência... São histórias que circulam entre o rico e o pobre, o confuso e a certeza da incerteza. Ninguém é poupado: das despirocadas da alta sociedade até o crime de uma batalhão de esfomeados; da conversa de um taxista nordestino boa praça à uma lista de livros contidos em determinada estante "intelectual e esotérica" paulistana ou ainda, a revolta de uma mulher traída disparada contra a secretária eletrônica da suposta amante.

"Eles Eram Muitos Cavalos" me fez voltar páginas, respirar fundo e usar a imaginação mesmo quando seria recomendado não usar. É uma obra premiada, internacionalmente prestigiada e que me fez passar da incompreensão ao pasmo em segundos. Não é o tipo de leitura que eu adotaria como "perto da minha cama", justamente porque pode sufocar o sono, mas é o livro que não pode faltar na sua estante. De São Paulo ou não, tenho certeza que você, nobre leitor, é um pedacinho dessa grande e interessante Babel.