02 junho 2012

Aços e flores das palavras


"Sou antiga que só. Ainda prefiro a madeira nobre e sua dureza permanente aos compensados e suas transitoriedades". Muito mais do que palavras e utilidades, um universo de significados. Essa foi a grata surpresa que tive ao ler o livro de contos "Mulheres de Aço e de Flores" (Editora Gente, 2008, p. 215), obra do religioso Fábio de Melo. São 21 histórias de sofrimento, amor, prisão à tradição e a quebra dela, trazendo dentro de cada narrativa as complexidades próprias dos fenômenos que envolvem a aura feminina.

Sou aberta a todo tipo de leitura e foi uma grande sensação descobrir que primeiras impressões nem sempre são as melhores. Vou explicar: quando segurei o livro nas mãos pela primeira vez, pensei logo que se tratava de uma doutrinação religiosa, um direcionamento insano e cheio de "estórias de ilusões", já que a grande maioria dos membros da Igreja - bem como de muitas comunidades religiosas - chegam a ser como jesuítas no século  XVI, tentando colonizar todos os "selvagens" para levá-los ao encontro da "salvação" e da "verdade". Felizmente, não é isso o que encontramos no livro de contos. Padre Fábio de Melo traça perfis de mulheres simples que, provavelmente, devem ter surgido da inspiração que teve na infância e adolescência em Minas Gerais. São histórias sobre perder-se e/ou encontrar-se, seja na sombra de um grande amor, na ausência, nos sofrimentos, na morte ou na redenção. 

Two Lovers (Fragmento) - 1888, by Van Gogh
Destaco os contos "A primavera", regada de um fatalismo à luz da geração de Byron; o interessante "Tarde Santa", que desnuda constantes associações da vida e das coisas religiosas a um sentimento de mau humor, sisudez e sofrimento eternos (basta contemplar o rosto dos santos e ver que tipo de expressão fazem para se ter certeza de que os valores precisam mudar porque, afinal de contas, sofrer não é sinônimo de paraíso); "A atéia" traz um enredo divertido, mostrando o poder que a associação mental tem em nos levar de um lado ao outro da moeda; "Antiguidades", de onde extraí o trecho acima e onde encontrei uma semelhança muito forte (nos significados) com os meus próprios anseios; o divertidíssimo "Doente de amor" (quem não conhece um "profundissimamente - e intencionalmente - hipocondríaco"?), finalizando com os emocionantes "A Costureira", "Eulália" e "Amor de sol poente", com seus traços delicados e sensíveis sobre perda e amor que não se vai.

O conselho que dou é: não se deixe enganar por preconceitos, pré-opiniões ou raiva de alguma espécie. Vá fundo, se permita e conheça o trabalho que pode - ou não - ampliar emoções ou, até mesmo, permitir identificação.