08 junho 2012

Histórias de cronópios e famas, por Leandro Marcio Ramos


O texto de hoje foi escrito pelo convidado Leandro Marcio Ramos. Confiram. 

Lembro que a primeira vez que li algo do Cortázar foi na faculdade. Era o ensaio “Do conto breve e seus arredores”, reunidos no volume de ensaios Valise de cronópio. Primeira vez também que fui submetido ao estranhamento daquele nome absurdo: afinal, que diabos é um cronópio? Procurei no dicionário, incauto e esperançoso, em busca de uma cura para minha ignorância. Logrei o fracasso, lá no dicionário cronópio não estava. Então li em alguma nota de rodapé daquela mesma coletânea de ensaios e descobri então que cronópios não existem a não ser nos livros do escritor argentino mais genial que já conheci. Pois cronópios, assim como famas e esperanças, são os seres imaginários que povoam vários de seus belíssimos escritos, especialmente o livro Histórias de cronópios e famas.


Lançado em 1962, o livrinho de pouco mais de cem páginas reúne pequenos contos cuja veia poética, acentuadíssima, conduz o leitor a um mundo de comoventes absurdos surrealistas. Não é, apesar disso, um livro “triste”: bem me lembro de que li diversos contos com um sorriso no rosto, como por exemplo "Correios e telecomunicações” ou em histórias com singulares títulos como “Pequena história que tende a ilustrar o precário da estabilidade dentro da qual cremos existir, ou seja que as leis poderiam dar terreno às exceções, azares ou impossibilidades, e aí é que quero te ver”, para dar ao leitor a exata dimensão dos absurdos que preenchem esse livro saborosíssimo, que li esperando que não terminasse nunca.

O sabor que emana dos escritos cortazarianos tem momentos de uma ternura dolorida, como ao descrever as desventuras da tia da família que mora na rua Humboldt, que tinha um medo singular: de escorregar e cair de costas no chão, pois tinha a certeza de que nunca conseguiria levantar e morreria ali, sem socorro de nenhuma pessoa da casa. Seus jovens sobrinhos, com aquele típico desdém que os jovens nutrem pelas velhas caprichosas, viam no medo da tia apenas o absurdo. Isso mudou em uma noite quando, indo vasculhar a geladeira para um lanche, os sobrinhos encontraram na cozinha uma barata desesperada, com as patinhas enlouquecidas para o ar, incapaz de se virar sozinha; ali ela morreria, esperneando, sem a ajuda de nada e ninguém. Daquela noite em diante, compreenderam os temores da velha tia: passaram a ampará-la calmamente em todas as suas andanças pela casa, livrando-a do horror de morrer ao cair de costas no chão.

Mas são nas histórias que envolvem os cronópios que encontramos os melhores momentos do livro. Criaturinhas misteriosas (até onde sei, Cortázar nunca descreveu em detalhes as características físicas deles, mas é sugerido que são pequenos, verdes e úmidos), os cronópios vivem perdendo a hora, as moedas nos bolsos, atrapalhando-se com as atividades rotineiras mas, mesmo assim, encarando tudo que acontece com uma incrível naturalidade, como se suas desventuras fossem obra de um acaso misterioso. Já os famas são como o oposto: organizados, metódicos e rabugentos, via de regra entram em conflitos com os cronópios. Os esperanças são medrosos e chorões, e ficam apenas aguardando que as coisas aconteçam. No livro, há o brevíssimo conto "Viagem", que para mim é o melhor resumo das características dessas amáveis criaturinhas. Cito-o integralmente:

Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao pernoitarem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e indaga cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo se dirige à delegacia e lavra uma ata declarando os móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especializações. Terminadas estas providências, os viajantes se reúnem na praça principal da cidade, comunicam-se suas observações e entram no café para beber um aperitivo. Mas antes eles se seguram pelas mãos e dançam em roda. Esta dança recebe o nome de Alegria dos famas.

Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: "Que bela cidade, que belíssima cidade." E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.

As esperanças, sedentárias, deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens, e são como as estátuas, que é preciso vê-las, porque elas não vêm até nós.

Uma vez me disseram que Cortázar sofria de um distúrbio raro, que fazia com que seu corpo nunca parasse de crescer. Isso explica a aparência desengonçada que ele sempre teve, principalmente após os anos de juventude. E como estava sempre crescendo, talvez esse homem nunca tenha experimentado a sensação de ser um adulto, permanecendo até o fim da vida em uma infância constante - pois é a infância por excelência a fase onde estamos crescendo. E o estilo cortazariano, sempre atento às surpresas dos assuntos banais do dia a dia, o olhar fantástico sobre as relações humanas, a doçura que emana de seus contos - vejo algo muito infantil em toda a sua produção, no sentido de ser uma escritura plena de bondade, de afetuosidade, de ternura por todos os cronópios maltratados e por todos os famas rancorosos.

Ao mesmo tempo capaz de seduzir leitores iniciantes como também instigar debates acalorados sobre experiências estilísticas (e nesse ponto seu romance "Rayuela" é paradigmático), Julio Cortázar foi uma leitura (um pouco) tardia em minha formação, mas conquistou um lugar de honra no panteão dos escritores que mais admiro. E isso a tal ponto que, desde há tempos, passei a rotular as pessoas não mais como inteligentes, burras, más, vaidosas ou qualquer outro obtuso adjetivo. Nenhum deles me serve mais desde que li o Histórias de cronópios e desenvolvi a curiosa mania de rotular as pessoas apenas em três grandes grupos: cronópios, famas ou esperanças. Fica o convite para que você também ler esse apaixonante livro.

Julio Cortázar
Leandro Marcio Ramos também escreve no blog Dissolve Coagula