28 junho 2012

Maiakóvski, poemas

Maiakóvski, poeta russo
Vladimir Maiakóvski é um cara quase intraduzível, pois além de escrever poemas russos - um idioma por si só difícil de traduzir – renegava a poética tradicional, tornando suas poesias hiperbólicas, descomunais, o que, para os tradutores, se torna um desafio de associação de tema à rima, de forma à ideia, coisa que Augusto e Haroldo de Campos fizeram com respeitosa habilidade aos escritos originais no livro "Maiakóvski, Poemas", lançado pela editora Perspectiva, em 2011 e distribuído gratuitamente pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo ao Projeto Leituras do Professor.
Nas 171 páginas desta edição, destaco a introdução de Boris Schnaiderman; o "Eu Mesmo" de Maiakóvski em que ele se descreve, transparece o seu interior em intimidade com o leitor; e os mais de 30 poemas com algumas imagens, gravuras e manuscritos originais, riqueza aos olhos!
Compostas com coerência, autenticidade, e acima de tudo originalidade, dificilmente dá para se escolher dentre todos, o poema preferido, o que torna o escritor um ícone da poesia russa moderna, considerado como o maior poeta do futurismo. Ele dava grande importância à rima, na maioria incomuns, encaixadas por assonância, o que permitiu, segundo Schnaiderman (tradutor), “uma exploração absolutamente nova dos recursos sonoros da língua russa”.
Confessou certa vez Maiakóvski, que chegava a escrever sessenta variantes do mesmo verso, pesquisando mais de uma vez as melhores sonoridades, a adequação mais perfeita entre a estrutura sonora e o tema.
É um dos poetas russos mais estudados, respeitados e admirados no meio literário vanguardista.

Poema escrito após saber da morte do amigo e poeta Sierguéi Iessiênin (retirado do "Maiakóvski, Poemas", página 108):

Até logo, até logo, companheiro,
Guardo-te no meu peito e te asseguro:
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro no futuro.

Adeus, amigo, sem mãos nem palavras
Não faças um sobrolho pensativo.
Se morrer, nesta vida, não é novo,
Tampouco há novidade em estar vivo.

Iessiênin, no Hotel Inglaterra, em Leningrado, algumas horas depois de seu suicídio,
em 28 dezembro de 1925.
Nascido em 1883 num vilarejo de Geórgia, Rússia, Maiakóvski aos 15 anos já demonstrou interesse político agregando-se a facção bolchevique do Partido Social-Democrático Operário Russo. Além de poeta, foi dramaturgo e teórico, ficou preso em duas ocasiões (uma delas por quase 1 ano) por conta das atividades políticas; entrou para a Escola de Belas Artes, e durante a guerra civil se dedicou a desenhos e legendas para cartazes de propaganda e fez publicidade de produtos diversos.

Fundou em 1923 a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), que reuniu a “esquerda das artes”, isto é, os escritores e artistas que pretendiam aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social. Fez inúmeras viagens pelo país, aparecendo diante de vastos auditórios para os quais lia os seus versos.

Foi homem de grandes paixões, arrebatado e lírico, épico e satírico ao mesmo tempo.
Oficialmente, suicidou-se com um tiro em 1930.

A Nuvem de Calças

Glorifica-me!

Os grandes não se comparam a mim.
Em cada coisa que eles conseguiram
Eu carimbo um nada
Eu nunca quero ler nada.

Livros?
O que são livros!
Antes eu acreditava que os livros eram feitos assim:
um poeta vinha, abria levemente os lábios,
e disparava louco numa canção.

Por favor!
Mas parece, que antes de se lançarem numa canção,
os poetas têm de andar por dias com os pés em calos,
e o peixe lento da imaginação,
lateja ligeiro no bater do coração.

E enquanto, com a filigrana da rima, eles cozem uma sopa
de amor e rouxinóis,
a estrada sem língua apenas sucumbe
por não ter nada a gritar ou a dizer.