09 junho 2012

O diabo da luxúria e seus encantos


Nymphs and Satyr (1873) - by W.A.B
"Pushed against a stone wall/Your heat betrays in darkening eyes/So smooth and moistened skin (of yours)/Our lips entwine in crimson wine/I wake up in the morning/And feel your naked skin alive/In thoughts that sad emotions hide/We live each day as if we're about to die". O fragmento, retirado da música 'She, The Lust', da banda carioca de Progressive/Doom Metal Avec Tristesse, pode servir de som ambiente na leitura do excelente conto O Diabo, do aclamado escritor russo Leon Tolstói. Desejo, obrigação, luxúria, fidelidade matrimonial, fantasias, rotina, tédio, imaginação, pele, comportamento... A novela de Tolstói é construída em cima da dualidade mental do homem de ser possuído por suas vontades, da fajuta harmonia conjugal regada por obrigações e tolhimento de desejos, das máscaras artificiais de uma burguesia que enxerga felicidade onde ela pode não existir.

O enredo traz o jovem Evguêni, bacharel em direito, filho de latifundiário que, logo após a morte do pai, se vê obrigado a colocar os negócios para frente e saldar as dívidas da família, já que o progenitor tinha sido um péssimo administrador. Ao sair da cidade e ir morar na fazenda, cercada por aldeias que ele não frequenta, Evguêni se vê às voltas com a necessidade de manter relações sexuais, dispostas no livro como necessárias para manter a sanidade masculina - fórmula confirmada pelo próprio jovem. Para isso, procura o guarda florestal, de nome Danila, que tinha servido ao seu pai como caçador, e sugere que o mesmo lhe traga uma mulher "saudável e limpa" para que pudesse saciar suas vontades. Nisso, Danila o apresenta à camponesa Stepanida, casada com um cocheiro que trabalha em Moscou. Os furtivos encontros de Evguêni e Stepanida se dão até o rapaz contrair casamento e dar por encerrada a relação.

Mas a vida é cheia de surpresas - agradáveis ou não - e preparou uma para o jovem latifundiário: a camponesa de vestido amarelo, lenço vermelho, tornozelos à vista e um jeito todo particular de mordiscar as folhas enquanto eles se encontravam às escondidas fez com que Evguêni entrasse continuamente em um caminho sem volta; uma lascívia que cobraria seu preço: a infelicidade da mulher, que era boa e prendada (típico retrato da submissão feminina), os escândalos da sogra, que vivia implicando com o jovem, a opinião social, e a filha recém nascida. Pesos e vontades que vinham e iam como pêndulos na cabeça de Evguêni, constantemente torturado pela imagem luxuriosa de Stepanida. Com a camponesa, liberta das amarras sociais impostas pelo código de conduta burguesa, o latifundiário vê seus desejos o dominarem e vive em completo tormento. A novela conta com dois finais perturbadores e que nos levam a rever conceitos como sanidade e abnegação. Uma das questões que podem ser levantadas é: Até que ponto somos donos dos nossos desejos? Até que ponto eles nos consomem?

Um dos fragmentos mais significativos do livro está no final, com o desabafo de Evguêni: 

Ela é o diabo. É o próprio diabo. Pois ela se apossou de mim contra a minha vontade.


A edição lançada pela L&PM na 'coleção 64 páginas' custou o preço simbólico de R$ 5,00 reais e foi o presente mais interessante que a Patrícia (amiga de livros, bandas e segredos) poderia ter me dado. A tradução é assinada por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares e o livro vem circundado por notas de rodapé explicativas, bem como da variante do final da novela.

Foram 64 páginas de êxtase e incapacidade de julgamentos, pois o jovem russo luta até o último segundo contra a vontade que lhe domina. Será que somos capazes de contornar os "demônios" que aparecem em nossas vidas para nos tirar do "caminho do bem"? Mas, antes de tudo, será que rotular nossas vontades mais secretas de 'demônios' seria a saída para continuar seguindo os princípios morais da tradição que, muitas vezes, ao invés de nos libertarem, nos aprisionam? Como lidar com ela, a luxúria?

'O Diabo' me fascinou. Muito. E me fez pensar o quanto Tolstói precisa entrar na vida de muitos leitores - o quanto antes, melhor. 


-> Para mim, o diabo pode estar personificado em dois pares de olhos 'grey the blue'. E você?



O par de olhos em questão pertencem ao vocalista e multi-instrumentista Adrian Hates, vocalista da minha banda preferida de todos os tempos.

(Selecione a parte acima em branco e descubra quem é o dono desse par de olhos).