16 junho 2012

A Regra do Jogo

A constelação jornalística Cláudio Abramo

Março de 2008. Em meio a um turbilhão de ideias sistematicamente organizadas em livros, eu encontrei um homem. Um homem feito de palavras ácidas, lúcidas, significativas, repletas de argumentos que ultrapassam os fatos tão brilhantemente descritos. Nas 272 páginas de “A Regra do Jogo” (Companhia das Letras, 1988, 4° edição), conheci Cláudio Abramo.




Jornalista excepcional, leitor contumaz e intelectual indiscutível, Cláudio Abramo modificou a ‘célula tronco’ de dois dos mais influentes jornais do país, O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo, além de ter contribuído para um novo conceito da prática jornalística, que se popularizou como “a ética do marceneiro”. Em seus textos, Abramo priorizou o esclarecimento dos fatos, ao invés de narrativas meramente informativas. Com uma formação humanística exemplar - – não cursou nenhuma faculdade, mas cresceu lendo expoentes da literatura clássica (na maioria dos casos, no idioma original), era poliglota e perseguidor implacável do cepticismo racional.

A Regra do Jogo, livro organizado por Cláudio Weber Abramo [filho do jornalista], agrupa matérias, entrevistas, opiniões e informações escritas por Cláudio no decorrer de sua trajetória jornalística. Dividida em seis capítulos, a obra abarca o contexto histórico vivido pelo mundo nos idos de 1940 ao final da década de 1980 sob a ótica reflexiva do jornalista, sempre disposto a levantar dados sobre o que escrevia, justificando-os à luz do factual, bem como dando à ética profissional o tempo de duração adequado: 24 horas do dia. Cláudio Abramo não encontrava limites quando o assunto era disseminar o esclarecimento, provocar a consciência. Atacava mandantes e lacaios do meio político, empresarial e cultural, bem como o cidadão comum que insistisse em permanecer alienado, asfixiado pela rede de mentiras mantida pelo sistema dominante.

O grande diferencial da obra – que conta também com prefácio do jornalista Mino Carta – é oportunizar às outras gerações posteriores um retrato jornalístico amplo, honesto, longe da idolatria que muitos profissionais da mídia incorporam e do conteúdo supérfluo que tem assolado nossa imprensa. Para Cláudio não interessava fazer fortuna por meio de matérias compradas e nem galgar espaço [status] através de ‘favores entre amigos’. Para o jornalista, o profissional da comunicação é apenas um mediador social; alguém que deve estar interessado em elucidar os fatos, em levantar questionamentos.

Cláudio Abramo defendia o investimento na formação e especialização dos novos jornalistas. Para ele, a técnica era um fator diferencial, mas nem de longe o mais importante. É na prática diária, na labuta das redações, que os melhores profissionais são formados, aperfeiçoados e lapidados. Em suas próprias palavras: “Para ser jornalista é preciso ter uma formação cultural sólida, científica e humanística”. Cláudio acreditava que as universidades ainda eram precárias e defendia a desburocratização do sistema de ensino implantado pelas mesmas. A estratificação do ensino [ocorrida com a criação de fórmulas e conceitos fechados, como o lead, por exemplo] tem arrancado à espontaneidade, a liberdade e o tato na hora de localizar e expressar um acontecimento, fato que tem estado presente na imprensa contemporânea, que faz uso de plágios constantes e falta de uma posição mais interpretativa/investigativa na exposição dos fatos.

Era contra isso que Cláudio Abramo lutava. E esta talvez seja a maior herança deixada a todos nós, profissionais do Jornalismo, que comemoramos no dia 07 de abril o reconhecimento profissional sem nos questionarmos se ele tem sido, efetivamente, real e significativo. Estamos nós, estudantes e jornalistas, vivenciando o “sentimento de pertença” dentro do nosso espaço acadêmico e do nosso ambiente de trabalho? A prática jornalística tem transmitido confiança à população? A expressão “função social” tem se restringido apenas aos livros e compêndios teóricos?

Talvez, Cláudio precisasse de apenas duas linhas para esboçar uma opinião sensata: “O jornalista não tem ética própria. Isso é um mito. A ética do jornalista é a ética do cidadão. O que é ruim para o cidadão é ruim para o jornalista.”