15 julho 2012

A cachaça que fez efeito: Charles Bukowski



"Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão". Cass, personagem do conto "A mulher mais linda da cidade" não viveu suficiente para saber que, com o passar do tempo, muitas são as razões para simpatizar ou odiar o "velho safado" que a eternizou - e ficcionalizou - em um dos contos mais fustigantes de sua carreira literária. O boêmio em questão foi ninguém menos que Henry Charles Bukowski (1920-1994), escritor, poeta e amante etílico de marca maior,  cuja capacidade em retratar um submundo miserável, repleto de homens e mulheres que se movem como sombras em meio a uma vida barata e medíocre, onde cigarros, bebidas e falta de perspectivas misturam vazios e escondem dores, rendeu obras interessantíssimas.

Buk caiu nas minhas mãos através da Patrícia, amiga paulista, que me enviou mais um investimento da L&PM Editores com sua "Coleção 64 páginas", cujo título é "A mulher mais linda da cidade & outras histórias". São cinco contos, dentre os quais quatro autobiográficos, retirados dos livros "Crônica de um amor louco" e "Fabulário geral do delírio cotidiano", ambos publicados pela editora. A tradução ficou a cargo de Milton Persson e a ilustração por Robert Crumb, conhecido colaborador de Bukowski. A proposta da editora em baratear ainda mais o valor do livro (R$5,00) é simplesmente fantástica e espero poder adquirir ainda mais títulos.

Até ler essa pequena amostra de contos, eu só conhecia Bukowski de nome e péssimas recomendações. Um amigo do qual gosto e confio muito costumava tacar a lenha no autor por associações amorosas do passado - que devem ter sido tão cheias de malogros como a impressão que ele tem do escritor - , além do fato de eu ter lido a opinião de alguns críticos literários sobre a obra, revelando algo como: "Não sei como alguém pode ler esse autor", "Escrever de porre o dia todo é humanamente impossível", "Esse bêbado só fala putaria", etc e tal. Incorri no erro de ficar "parida pelos ouvidos" e deixei de tirar minhas próprias conclusões. No entanto, quando entrei no Dose Literária, era impossível não ler os textos e a empolgação da Michelle, Eni, Anna e Patrícia em relação a ele - principalmente esta primeira, uma fã de carteirinha. O amor da mãe da Stellinha é tanto que ela já expressou isso em palavras várias e várias vezes. Então, decidi largar os "ouvidos de mercador de Veneza" de lado e ir em frente.

No começo foi difícil. Asco, repúdio, cenho franzido, coceira na cabeça. "Cara, como assim alguém escreve 'Levanta, cafajeste! Joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa'?! Não sou puritana, longe disso, mas pelo fato de minha veia literária ser ainda baseada em autores mortos há, no mínimo, 150 anos atrás, ainda preciso conhecer e receber mais sobre a realidade que ninguém pode calar: o dia-a-dia no gueto, a rotina de pessoas esquecidas, silenciadas, excluídas, e de formas de amor e ódio postas para fora assim, de maneira direta e nem por isso menos passional. Colhendo informações na internet e com a Michelle, descobri dados bibliográficos que me ajudaram a entender a narrativa do Henry Buk: o cara apanhou para caramba do pai, um soldado americano frustrado, teve uma mãe omissa, não pintava carinho/afeto em casa, era vítima de bullying na escola por ter o rosto coberto por acnes, não se considerava bonito, tinha a autoestima dentro do ralo e encontrou no álcool uma forma de libertação. Fora isso, trabalhou, viveu e frequentou lugares marginais, gastando madrugadas inteiras para finalizar seus trabalhos, que totalizam 6 romances, 11 livros de contos e um grande número de poesias. 

Sobre os contos lançados pela edição econômica da L&PM

A coletânea 64 páginas traz o já citado "A mulher mais linda da cidade" (The Most Beautiful Woman in Town), com a história da mestiça de índia Cass, uma mulher de beleza e impetuosidade incomparáveis. Se você reparar bem, Buk dá uma pista de qual será o final do conto no seguinte trecho "Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo" (pág. 5, bem no comecinho). Um amor louco, sexual, instintivo como o olhar de uma cobra e calor de fogueira, mas é uma história de amor. Nesse conto, Bukowski dá uma tacada direta na futilidade social, para quem aparência é tudo, conteúdo não é nada. Na sequência, "Kid Foguete no matadouro" (Kid Stardust on the Porterhouse), sobre a experiência de trabalho em um ambiente onde novilhos e homens se misturam entre sangue e morte, sem pausas, "brigando por ninharias". Já os contos "Na cela do inimigo público número um" (Doing Time With Public Enemy) e "Cenas da penitenciária" (Scenes from The Big Time) falam sobre a experiência de cadeia, a selvageria dos presos, a falta de pudores e criação de códigos de honra próprios - por mais paradoxo que isso possa parecer. 

Já o horripilante "O assassinato de Ramon  Vasquez" (The Murder of Ramon Vasquez) me desceu garganta abaixo como uma grande pílula envolvida em uma capsula ainda maior, sem água. Violência, estupro, homofobia... É um pacote violento e misturado no liquidificador, mas que também entrega o deserviço que a  impressa faz quando noticia fatos mentirosos, criando realidades. É uma crítica à imprensa marrom. Um dos contos mais interessantes é "Você aconselharia alguém a ser escritor?" (Would You Suggest Writing as a Career?), onde Buk conta a experiência vivida por Henry Chinaski, seu alter-ego. A missão do escritor é realizar leituras em universidades e, por estar sempre bebendo e vomitando, torna o trabalho de Belford, o sujeito que deve o acompanhar, ainda mais hercúleo. Destaque para as observações sobre o quão obcecados e limitados podem ser os ditos intelectuais. "Vulva, Kant, e uma casa feliz" (Cunt and Kant and a Happy Home) traz as corridas de cavalo - uma das grandes paixões de Charles Bukowski - com o tapa na cara de quem fala muito e vive pouco. Não consegui deixar de grifar o trecho em que o protagonista discute com um bisbilhoteiro desocupado às voltas para atrapalhar suas apostas: "- nós estamos num país livre, eu...", "- não estamos, não senhor. é um país onde tudo se compra, se vende e se possui" (pág. 57). 

Terminei o livreto com vontade de ler mais, averiguar mais, assistir à entrevista Born Into This e esmiuçar... Sempre. Também não passaram despercebidos um certo caráter misógino, um despertar inconsciente (ligado aos porres) e uma misantropia incurável. Resta saber - e estou disposta a descobrir - se esses rastros dizem mais do que aparentam dizer ou simplesmente fazem parte de uma mente perdida em erros e mágoas. Como fazer? Simples: curiosidade e leitura - não necessariamente nessa ordem. 


"Ele mudou a minha vida. Antes dele eu estava vivendo por osmose, depois dele eu passei a pensar nas minhas escolhas, perdi um pouco da fé, mas isso me deixou mais forte". - Michelle Henriques sobre Bukowski.