08 julho 2012

Do incentivo a leitura nas escolas públicas

Certa vez, conversando sobre livros com uma amiga e professora de língua inglesa de uma escola estadual, ela comentou sobre a dificuldade que seus alunos adolescentes (já de nível intermediário no idioma) tinham para ler livros em inglês, pois compreendiam muito da gramática, pronúncia e conversação, mas na leitura, associação de palavras, conjunção de frases e interpretação ainda pecavam, pois não tinham o costume de ler sequer livros em português, quanto mais em inglês. A partir disso a professora tentou aplicar uma metodologia de ensino extra curricular que incentivasse os alunos a lerem mais, e por conta própria adquirirem maior conhecimento e domínio do idioma americano.
Pesquisando o interesse pessoal de cada aluno, a professora descobriu qual seria o tipo de literatura mais indicada para cada um, sabendo que se indicasse somente um título para que todos lessem, alguns poderiam se interessar pela leitura e de fato aprender, já outros poderiam achar desinteressante e largar o livro sem absorver seu conteúdo. 
Durante o processo de indicação de leitura, a professora se deparou com diversas “desculpas” dos alunos, alguns não poderiam comprar os livros porque não tinham condições financeiras, outros, porque encontraram dificuldade na busca do título pelas livrarias, e houve ainda quem disse não ter tempo para ler. Porém, uma coisa sempre chamava a atenção (e tirava a paciência) da professora: durante a aula, 80% dos alunos acessavam a internet pelo celular.
A partir daí ela teve uma ideia e pensou nos argumentos que dirigiria aos alunos, sugerindo que eles baixassem os títulos das obras indicadas pelo celular em formato .pdf e com isso facilitaria àqueles que não tinham dinheiro para comprar os livros (pois todos os livros online indicados são gratuitos e de domínio público); ajudaria àqueles que tiveram dificuldade para encontrar o livro em livrarias; e acabou com a ideia daqueles que disseram não ter tempo para ler livros, mas que passavam a maior parte do seu tempo acessando a internet. No entanto, sempre há aquele que diz não conseguir ou não gostar de ler pelo celular ou computador, e neste caso o aluno não teve outra escolha a não ser imprimir o livro, gastando menos de 5 reais com isso.
Alunos da escola Tita Tafuri, município de Desterro do Melo/MG
Quase um ano depois nós voltamos a conversar sobre o mesmo assunto, e como uma entusiasta da leitura de livros e apaixonada por literatura que é, me confidenciou alegremente que todos os alunos passaram a ler com frequência, e que assim que finalizavam a leitura de um livro, ininterruptamente já partiam para uma próxima, e que sempre a consultavam para saber qual poderia ser sua (deles, alunos) a próxima leitura. Passaram a ler e aprender ainda mais não só a língua inglesa, mas o nosso idioma pátrio também. No entanto, ela diz que o caminho até ai foi árduo e que muitos desistiram da leitura porque não gostavam, não viam necessidade em ler um livro e não tinham motivação nenhuma dentro de casa ou entre amigos. Mudar esse pensamento, diz a professora, foi a tarefa mais difícil de todas, mas ela não desistiu, disse que chegou a emprestar livros de sua própria estante, fez passeios com os alunos pela biblioteca municipal para que os alunos se sentissem ambientados entre os livros, aprendessem a pesquisar gênero, autor e título entre as prateleiras, e criou um grupo de leitura para que os alunos pudessem trocar livros, sugestões e expôr suas opiniões sobre as obras.
Mas acreditem, isso tudo fora da escola! Pois os empecilhos que a educadora encontrou dentro do seu próprio ambiente de trabalho superou toda a dificuldade que ela teve para converter os alunos não-leitores à leitores assíduos.

Um pensamento: Se na nossa metodologia de ensino atual as escolas públicas não tem autonomia para criar grupos de leitura e interpretação de texto nas salas de aula; se os professores não tem direito à quebrar regras durante a aula e mudar a grade curricular para único e exclusivo benefício dos alunos; se o próprio governo não disponibiliza verbas para que a escola adquira novos títulos para agregar a suas bibliotecas; e se os órgãos responsáveis pelo estabelecimento de ensino não promovem eventos culturais, passeio à bibliotecas e exposições literárias, como podem marginalizar o aluno e se conformarem com a ideia de que o Brasil é uma nação sem cultura e um país de não-leitores? Se nem dentro de casa, no ambiente escolar e entre os amigos não há incentivo, não há insistência, suporte, apoio ou recursos para se ler livros? Além disso tudo, ainda nos deparamos constantemente com municípios que desviam verbas federais destinadas exclusivamente à educação fundamental e média, verbas estas que já são de valor irrisório perante as necessidades de um estabelecimento de ensino, e que ainda são roubadas de nossos filhos/alunos!

Desde a infância sabemos que as crianças aprendem aquilo que lhes é ensinado, e toma como exemplo o mundo que ela vê a sua volta, e o mundo que ela vê a sua volta é um mundo SEM LIVROS! Claro que muitas coisas estão mudando, não posso generalizar pois há estados e municípios que anualmente lançam projetos de incentivo a leitura, tanto entre os alunos e professores quanto entre a população, e o Governo do Estado de São Paulo seria um belo exemplo, já que, segundo a divulgação, no ano de 2011 investiu R$28.318 Bilhões na educação, não fossem os desvios.

Enquanto os professores lutam individualmente para a melhoria do ensino à baixos salários, outros surrupiam o nosso investimento, a nossa confiança, os nossos impostos pagos obrigatoriamente.
Mas desistir? JAMAIS! Enquanto estivermos fazendo a nossa parte, conhecermos nossos direitos, e começar, dentro de casa, a mudar essa realidade, não existirá obstáculos no crescimento individual e intelectual do ser humano. Basta querer.