08 julho 2012

Renato Russo: O filho da revolução


O Brasil ainda está em processo de descobrimento (e redescobrimento) do potencial artístico de seu povo. Essa realidade abrange todos os segmentos culturais: música, literatura, artes plásticas, cênicas e aderentes. Por se tratar de um país que está aprendendo a se descolonizar, muitos dos ídolos nacionais são, na verdade, produtos importados das grandes potências – com clara referência para o universo norte-americano e europeu.

Entre tantas assimilações estrangeiras, a década de 1980 surgiu como um grito de identidade nacional, propagando a ideologia punk/rock n’ roll em nosso espaço sonoro. E a jovem capital da Federação – Brasília contava com pouco mais de vinte anos – foi palco de todas as mudanças ocorridas no conturbado período pré e pós abertura política (lembrando que a ditadura militar só viria a ruir em 1985). É com esse plano de fundo que surge a Legião Urbana, um dos maiores fenômenos musicais do país. Capitaneada pelo jovem Renato Manfredini Júnior, a banda mudaria o percurso sonoro, lírico e ideológico da juventude brasileira.

Renato Russo, como ficou conhecido o músico carioca radicado em Brasília, ganhou o status de lenda, tão grande é a notabilidade conquistada por ele como cantor e compositor. Um legado que atravessa gerações, mesmo depois da morte do artista, há mais de quinze anos atrás. No meio de várias biografias, ensaios e homenagens póstumas, o livro “Renato Russo: O Filho da Revolução” (Agir, 2009, 400 pág.), escrito pelo jornalista Carlos Marcelo, vem preencher a lacuna do material anteriormente lançado quando o assunto é a relação de Renato com Brasília, enfocando os passos juvenis daquele que, anos mais tarde, seria considerado peça-chave na consciência pop do Brasil.

Carlos Marcelo esmiuçou arquivos pessoais, fez o levantamento de entrevistas (algumas pouco conhecidas), coletou dados e informações valiosíssimas de quem conviveu com Renato Russo, bem como de fontes documentais da época (leiam-se jornais, revistas, programas de rádio e periódicos de todos os gêneros). Um dos pontos altos do trabalho é a exposição de um farto material do cantor, com fotos, cartas, registros de diários, rabiscos, ideias... Em síntese, a obra aborda o dia-a-dia do estudante de Jornalismo e professor de Inglês, filho da classe média e morador da quadra 303 Sul, que chegou a cogitar uma banda imaginária (a 42nd Street Band), usava o pseudônimo de Eric Russell e que, ao contrário do que pregam por aí, era um cara cheio de receios, dúvidas e indecisões, que ostentava uma voz empostada no palco e, fora dele, carregava um timbre quase infantil.

Seguindo a linha de toda biografia autorizada, consentida e/ou compartilhada, “Renato Russo: O Filho da Revolução” faz uso dos já conhecidos “floreios” para transcrever alguns fatos e omitir o deslancho de outros, como a homossexualidade do cantor, seus problemas com drogas e álcool e o nascimento do filho, por exemplo, fazendo do biografado um indivíduo cheio de virtudes, criado em uma família perfeita, seguro de si, absoluto na resolução de situações vexatórias e assim por diante. Não obstante, essas pequenas “licenças poéticas” não diminuem em nada a exatidão do texto, as informações adicionais pré-Legião, o período frutífero com o Aborto Elétrico e a rebeldia e pioneirismo da juventude brasiliense na cena punk rock brasileira. Destaque para a contextualização histórica de cada capítulo, trazendo à tona os sonhos de JK para a capital do futuro, os traumáticos anos de ditadura militar, o lento e reumático processo de abertura política/social e cultural.

Que Renato Russo foi uma mente fenomenal e que tinha completo fetiche por cinema, música, literatura e conhecimento, ninguém duvida. Que o líder da Legião Urbana possuía desenvoltura política, com um lirismo quase antropológico, também não é segredo. Mas, o plus da obra de Carlos Marcelo está justamente na riqueza de detalhes, na sutileza de um Renato Manfredini Júnior que poucos conheceram: uma criança esperta; um adolescente doente e acamado, mas que nunca deixou de sonhar; um jovem rebelde e que possuía muito sangue revolucionário nas veias e ideologia na cabeça; um adulto aclamado pela crítica como exponencial da cultura brasileira, representante da maior banda nacional, mas às voltas com a solidão, com amores não correspondidos, com o fantasma do HIV e problemas na relação bipolar com seu público.

Renato Russo formou sua própria Legião, com uma única diferença: ela segue forte e firme, por entre metrópoles, zonas rurais, planalto central, cerrado, caatinga, atravessando fronteiras, tempos, identidades.