06 agosto 2012

Notícias: Filho de John Fante escreve livro de memórias

A entrevista publicada há cerca de 3 meses atrás foi realizada em Los Angeles pela jornalista Fernanda Ezabella da Folha de S. Paulo, onde Dan Fante expõe a relação tumultuada que teve com o pai e fala sobre seu livro mais recente. Para quem é fã, vale a pena conferir.

"John Fante não era um cara legal." A afirmação vem de um de seus filhos, Dan, 68, com quem o autor de "Pergunte ao Pó" (1939) e "Espere a Primavera, Bandini" (1938) só foi se dar bem 30 anos depois de nascido o garoto.

"Meu pai teve muito azar, mas ele também construiu sua própria má sorte. Era um homem muito difícil, insultava pessoas. Não era nada político", diz Dan à Fernanda, numa conversa no restaurante Musso & Frank, o mais antigo de Hollywood, frequentado pelo pai e pela nata literária desde os anos 1930.

As memórias tumultuadas da relação pai-filho estão no livro "Fante - A Family's Legacy of Writing, Drinking and Surviving" (legado de escrita, bebida e sobrevivência de uma família, em tradução livre; Harper Perennial, US$ 15, cerca de R$ 30, na amazon.com).

A obra mistura a jornada de John Fante (1909-1983), dividido entre os gordos cheques dos estúdios de cinema e o foco na carreira literária, e a jornada de Dan Fante, não menos interessante, encarando vários trabalhos estranhos em Nova York e Los Angeles.

Ambas as trajetórias são encharcadas de álcool, mas sem o glamour das peripécias de Arturo Bandini, alter ego de John Fante.

"Havia muita informação errada sobre meu pai. Diziam que foi Charles Bukowski (1920-1994) quem o redescobriu, mas não é verdade. Quem insistiu foi Ben Pleasants, e Bukowski demorou para ajudá-lo", diz Dan, sobre o então editor de poesia do "Los Angeles Times", que recuperou as obras de Fante nos anos 1970.

"Pergunte ao Pó" vendeu apenas 3.000 exemplares quando lançado originalmente, porque o editor não tinha dinheiro para divulgá-lo, já que travava uma batalha jurídica por publicar "Mein Kampf", de Adolf Hitler, sem permissão do autor. Em 1980, veio a reedição com prefácio de Bukowski.

"Eles tiveram uma grande amizade, mas meu pai nunca entendeu o oba-oba em torno do trabalho de Bukowski. Meu pai não lia poesia, e a poesia de Bukowski era brilhante; seus romances, nem tanto." Dan está há 25 anos sóbrio. Foi aos 47, ao voltar a viver com a mãe e sem um centavo no bolso, que ele achou a máquina de escrever do pai na garagem e resolveu rascunhar alguma coisa. Hoje, tem 11 livros publicados, a maioria com ótimas resenhas.

Retrato de Dan Fante, filho do escritor John Fante
(Fernanda Ezabella/Folhapress)
TOUR LITERÁRIO

Quase nada resta atualmente em Los Angeles do distrito de Bunker Hill, onde John Fante morou quando solteiro e que usou como cenário para várias tramas de Bandini, como em seu último romance, "Sonhos de Bunker Hill", ditado para a mulher quando já estava cego.

A empresa Esotouric, que promove passeios literários na cidade, faz um "tour Fante" uma vez ao ano. O mercado onde Bandini comprava laranjas ainda existe, assim como o trenzinho Angels Flight.

Há, com mais frequência, o "tour Bukowski", que passa por uma de suas casas em Hollywood, hoje patrimônio da cidade, e também pelo Pink Elephant, sua loja de bebidas favorita.