05 agosto 2012

Quando o futuro não pede licença

Imagina você hoje voltando do trabalho e na hora de descer do carro para abrir o portão da garagem é rendido por diversos homens armados anunciando um assalto te apontando uma arma na cabeça e entrando dentro da sua casa com toda a sua família lá dentro. Apavorante, né?
Agora imagina se de repente alguma coisa no assalto dá errado e você é atingido por um tiro no pescoço e no mesmo segundo perde a sensibilidade do seu corpo, perdendo seus movimentos, porém ainda consciente.
Correndo para o hospital, na ambulância, você pensa em como tudo aquilo aconteceu, não acreditando que estava acontecendo e se perguntando o que de fato havia acontecido, pois você não sentia dor, não sentia seu corpo, mas sabia que ainda estava vivo.

Você já se imaginou numa cama de hospital, tetraplégico, sem poder sequer levar a mão à boca, sem conseguir limpar a própria bunda, sendo cuidado e tocado algumas vezes por dia por pessoas que você nunca viu na vida e por quem você não tem simpatia nenhuma? E ao saber que dali você até vai conseguir levantar daquela cama, mas que nunca mais voltará a andar?

Pense em seus pais, irmãos, nos seus amigos e na(o) sua(seu) companheira(o) lidando com toda essa mudança, toda a dependência em que você se encontra, deixando de fazer coisas básicas como descer uma escada sozinho ou caminhar até o outro lado da rua, lembrando de coisas que você fazia que jamais poderá fazer da mesma forma como ir a um show de rock, acampar com os amigos, fazer sexo, e isso tudo com apenas 22 anos de vida na violenta capital paulista do final dos anos 80.

Carlos Roberto Limetre Moreno (1961- ), nascido na Moóca, roqueiro, comerciante, passou por tudo isso e escreveu um livro sobre.

Ontem, na ida para um dos encontros do Dose Literária, desci na Barra Funda e comprei um livro por 2,00 reais na máquina de livros da estação de metrô. Dos cerca de 30 títulos disponíveis, escolhi um que eu nunca tinha ouvido falar, mas que o título e capa me chamaram a atenção, “Quando o Futuro Não Pede Licença” de Carlos Moreno.

Único livro do escritor e pintor Carlos Moreno
Cuspido o livro da máquina, assim que embarquei no metrô sentido zona sul comecei a ler até que cheguei ao meu destino.
Na volta pra casa, sentido zona oeste, li mais umas 70 páginas, e hoje terminei as 143 paginas deste livro lançado em 1991 pela editora Ícone. Ao todo não levei nem 24 horas para ler-o inteiro.

Carlos foi só ele mesmo neste livro, não é um grande escritor, não escreve de maneira enfeitada, não usa palavras difíceis digna de uma consulta no dicionário, não conta uma história extraordinária e acredito que nem rico ele ficou com essa história; ele simplesmente narrou um acontecimento que hoje em dia para nós é até banal, mas que mudou toda a sua vida, para sempre.
Por ser tão simples a sua narrativa, é como se Moreno nos contasse sua história assim, sentado na mesinha da calçada de um bar, copinho americano cheio de cerveja, rock brasileiro dos anos 80 tocando na rádio de fundo, ar fresco batendo, e um tempinho de prosa com um amigo.
Passados alguns meses depois de ter sido baleado e saber que passaria o resto da vida numa cadeira de rodas devido a perca parcial da medula óssea, Carlos ganha um livro de um amigo, “Feliz Ano Velho” de Marcelo Rubens Paiva, que também aos vinte anos de idade, após saltar em um lago, fraturou uma vértebra (a quinta cervical) do pescoço ao chocar a cabeça em uma pedra, ficando tetraplégico. Após tratamento de fisioterapia, voltou a locomover as mãos e os braços, relatando os fatos neste livro.
O interessante é que, enquanto Carlos frequentava um Centro de Reabilitação Física para fazer fisioterapia, ele era constantemente confundido com um tal de Marcelo. Coincidentemente era o mesmo escritor daquele livro que inspirou Carlos a escrever este. Inclusive, os dois chegaram a se conhecer no Centro de Reabilitação pois ambos estavam curiosos para saber “quem é esse cara tão parecido comigo?", mas após se conhecerem não concordaram com a semelhança:

Um dia, na CCP, eu estava deitado fazendo exercícios com os pesos, quando ouvi uma fisioterapeuta falando:
_Oi, Marcelo!
_Oi.
Na mesma hora eu pensei “será que é o cara do livro?” Aí eu o ouvi dizendo:
_Vim conhecer o meu sósia.
_É o Carlos, ele está ali deitado.
“É ele mesmo, devem ter falado pra ele que a gente se parece.”
Ele se aproximou, olhou pra mim e disse:
_Não parece muito, não.
_Tem razão.
_Você é mais bonito.
_Também acho.
Ele deu uma risada (...)

Fiquei lembrando dessa história hoje o dia inteiro e pensando em como Carlos Moreno e outros tantos cadeirantes que tiveram a vida modificada devido a violência urbana dessa metrópole, conseguem sobreviver com tal trauma.
Pensando “e se fosse comigo, com o meu marido ou com um de meus filhos, como eu conseguiria lidar com isso? Será que conseguiria?”

Li absorvida, inteiramente compenetrada na história, nem vi o tempo passar, de verdade. Depois que o livro acabou já fui pra internet pesquisar mais sobre o autor, se ele tinha lançado mais livros, e o que aconteceu com ele depois que a namorada o largou, como lidou com as diversas outras dificuldades ocasionadas pela impossibilidade de caminhar e se locomover livremente, enfim, mas não encontrei muita coisa, aparentemente como escritor este livro foi o seu único trabalho e na rede não possui mais nenhuma outra informação pessoal e profissional de Carlos Moreno, uma pena.

Foram agradáveis estas horas passadas em sua companhia, Carlos.