04 agosto 2012

Útero Sertanejo - uma homenagem à Rachel de Queiroz

Criança Morta (óleo s/ tela - 1944) Cândido Portinari

Feições marcadas, exaustas, sangradas, humilhadas. O peito magro grita, mas só consegue ecoar para dentro de si próprio, reproduzindo o sentimento de impotência por um mundo que não muda; por esta terra que só chora. Filhos da esperança moribunda, de um Pai que só escuta: “Senhor, escutai a nossa prece”. Dentro dessa romaria inesgotável, existiu uma mulher capaz de sentir epidermicamente até o último dos sussurros do mais famélico embrião sertanejo. 

Rachel de Queiroz retratou como ninguém a alma de homens, mulheres e crianças presos na subsistência da seca nordestina e da morte silenciosa que olha de soslaio para corpos inanes. Nascida em 17 de novembro de 1910, a escritora cearense cravou na literatura brasileira uma identidade, uma referência à memória coletiva daqueles cuja relevância foi ignorada pela verve literária que priorizava o luxo dos folhetins burgueses. O romance “O Quinze” protagonizou a Era das narrativas de agudo teor social, desmistificando ideias camufladas de que o Brasil vivia um conto-de-fadas, lotado nas grandes metrópoles pelo desenvolvimento da economia cafeeira, pelo sangue azul dos barões do café e por uma sociedade imersa na própria embriaguez. 

Rachel não titubeava: escritora, jornalista, esposa e mãe, ela invadiu o campo sacramentado pela presença masculina sem pedir licença. Corajosa, arre! Mulher de fibra, para quem escrever era um ato praticado involuntariamente – as mãos pareciam projetar o que o coração gritava, e a alma repetia com a mesma exatidão dos repentistas: “Essa é minha missão, meu Padim, Padim Ciço, eis aqui minha devoção.”

Quem, em todo o Brasil, poderia sentir a intensidade das palavras que brotam, assim de repente, de uma sanfona, de uma viola, de pouca instrução e muita vivência? Em 1977, a Academia Brasileira de Letras entendeu que Rachel de Queiroz absorveu, interpretou, deu à luz e amamentou as histórias de um Brasil sufocado, e laureou a escritora com a cadeira número cinco, fundada por Raimundo Correia. 

Conquistas que acompanharam toda a trajetória de vida da escritora e que ajudaram a propagar a grandeza de suas ideias, de sua sensibilidade e da capacidade de construir personagens universais, evoluídos, e que fazem despertar no leitor mais distante um sentimento de pertença. Eis o grande diferencial do útero nordestino que gerou romances, literatura infanto-juvenil, teatro, crônica, antologias, livros em parceria e tradução de clássicos da literatura universal. 

Não há como limitar a importância de Rachel de Queiroz com palavras grafadas tão apressadamente. Assim como o canto da cotovia, a escritora e jornalista – antes de tudo, jornalista, como costumava dizer – foi embora sem fazer alarde, em quatro de novembro de 2003. Para a literatura, deixou saudade. Para nós, brasileiros e brasileiras que ainda procuram identidade, Rachel deixou um legado. Legado este que reluz como ouro; pulsa e corre em nossas veias.