Útero Sertanejo - uma homenagem à Rachel de Queiroz

Criança Morta (óleo s/ tela - 1944) Cândido Portinari

Feições marcadas, exaustas, sangradas, humilhadas. O peito magro grita, mas só consegue ecoar para dentro de si próprio, reproduzindo o sentimento de impotência por um mundo que não muda; por esta terra que só chora. Filhos da esperança moribunda, de um Pai que só escuta: “Senhor, escutai a nossa prece”. Dentro dessa romaria inesgotável, existiu uma mulher capaz de sentir epidermicamente até o último dos sussurros do mais famélico embrião sertanejo. 

Rachel de Queiroz retratou como ninguém a alma de homens, mulheres e crianças presos na subsistência da seca nordestina e da morte silenciosa que olha de soslaio para corpos inanes. Nascida em 17 de novembro de 1910, a escritora cearense cravou na literatura brasileira uma identidade, uma referência à memória coletiva daqueles cuja relevância foi ignorada pela verve literária que priorizava o luxo dos folhetins burgueses. O romance “O Quinze” protagonizou a Era das narrativas de agudo teor social, desmistificando ideias camufladas de que o Brasil vivia um conto-de-fadas, lotado nas grandes metrópoles pelo desenvolvimento da economia cafeeira, pelo sangue azul dos barões do café e por uma sociedade imersa na própria embriaguez. 

Rachel não titubeava: escritora, jornalista, esposa e mãe, ela invadiu o campo sacramentado pela presença masculina sem pedir licença. Corajosa, arre! Mulher de fibra, para quem escrever era um ato praticado involuntariamente – as mãos pareciam projetar o que o coração gritava, e a alma repetia com a mesma exatidão dos repentistas: “Essa é minha missão, meu Padim, Padim Ciço, eis aqui minha devoção.”

Quem, em todo o Brasil, poderia sentir a intensidade das palavras que brotam, assim de repente, de uma sanfona, de uma viola, de pouca instrução e muita vivência? Em 1977, a Academia Brasileira de Letras entendeu que Rachel de Queiroz absorveu, interpretou, deu à luz e amamentou as histórias de um Brasil sufocado, e laureou a escritora com a cadeira número cinco, fundada por Raimundo Correia. 

Conquistas que acompanharam toda a trajetória de vida da escritora e que ajudaram a propagar a grandeza de suas ideias, de sua sensibilidade e da capacidade de construir personagens universais, evoluídos, e que fazem despertar no leitor mais distante um sentimento de pertença. Eis o grande diferencial do útero nordestino que gerou romances, literatura infanto-juvenil, teatro, crônica, antologias, livros em parceria e tradução de clássicos da literatura universal. 

Não há como limitar a importância de Rachel de Queiroz com palavras grafadas tão apressadamente. Assim como o canto da cotovia, a escritora e jornalista – antes de tudo, jornalista, como costumava dizer – foi embora sem fazer alarde, em quatro de novembro de 2003. Para a literatura, deixou saudade. Para nós, brasileiros e brasileiras que ainda procuram identidade, Rachel deixou um legado. Legado este que reluz como ouro; pulsa e corre em nossas veias.

Comentários

  1. acredita que ainda não li nada da rachel? nem conhecia muito sobre ela, só de nome! que mulher, viu? sempre bom deixar registradas as memórias desse brasil. adoro esse tipo de "retrato".

    beijos - Rascunhos e Borrões

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  2. Que triste essa pintura do Portinari. :(
    E que texto mais tocante!

    A Rachel é maravilhosa como ser humano, já li muito a respeito dela nas minhas pesquisanças para posts, rs, mas até hoje não li nenhuma de suas obras. Falha que será corrigida assim que surgir a oportunidade. ;)

    Adorei!

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