20 agosto 2012

Vendi fiado a Edgar Allan Poe

Ophelia (1852) - by John Everett Millais
Edgar Allan Poe, o escritor preferido de muita gente, inclusive da querida amiga Anna, é um fenômeno clássico. Suas histórias inspiraram o gênero "história de detetive", seus poemas são a transcendentalidade do obscuro e o terror da grande maioria dos seus contos são irresistíveis, paradoxalmente fantasmagóricos e reais. Eu poderia continuar adjetivando Poe interminavelmente, mas o conto "O mistério de Marie Rogêt" (The Mystery of Marie Rogêt), lançado pela Coleção 64 páginas da L&PM, me colocou freios. Depois do excelente "Assassinatos na Rua Morgue", pensei que algo muito melhor poderia vir desse conto, que faz uma  analogia ao caso real do homicídio da jovem Mary Cecilia Rogers, ocorrido nos arredores de Nova York em 1841.

Poe faz uso das evidências publicadas nos jornais da época e ambienta o conto ficcional na França, terra natal do incomum e casmurro Chevalier C. Auguste Dupin, o detetive que inspirou Sherlock Holmes e Hercule Poirot. A história segue os procedimentos das matérias jornalísticas, contando quem era a jovem Marie, onde ela trabalhava, que tipo de família tinha, se possuía algum relacionamento, como e em que circunstâncias foi encontrada morta, qual o procedimento da imprensa, do público e da polícia, já que o caso causou intensa comoção social à época. Marie (Mary Rogers) foi encontrada flutuando nas águas do rio Sena (Hudson River, USA, no caso real). Devido ao interesse social e falta de resolução, a história se tornou um verdadeiro mito criminal, e ninguém sabe o que realmente aconteceu. No conto de Poe, devido à sagacidade de Dupin em analisar minunciosamente o crime através das notícias da impressa, somado à sua habilidade lógica, científica e racional, o crime foi solucionado. Na vida real, o fato continuou obscuro. Alguns acreditam que Mary Rogers tenha sido vítima do ataque de uma gangue, mas o testemunho de uma mulher, Frederica Loss, chegou a revelar que Mary tinha sido vítima de uma tentativa falha de aborto. A polícia, no entanto, não deu crédito ao depoimento da mulher. 

Ophelia (1883), by Alexandre Cabanel
Indo e voltando, esse conto de Poe é parado, baseado apenas em análises de matérias, pesquisas e palpites. Antes do final, já tinha me chateado um pouco, já que esperava muito mais de Dupin - e por que não de Poe?! No derradeiro parágrafo, fechei o livro, levantei da cadeira, o recoloquei na estante e abri outro. Poe fica me devendo- sem problemas, eu vendo fiado sem neura.