15 setembro 2012

A imaginação além-Holmes de Conan Doyle

"Fui eu quem criei o Sherlock Holmes pessoal! Não ele quem me criou"

O criador do famoso Sherlock Holmes, nome que remete à situações misteriosas e detetivescas por si só, viveu por algum tempo tentando exorcizar a si mesmo da criatura que criou. O médico Arthur Conan Doyle não queria que suas produções ficassem restritas ao famoso detetive e tentou buscar outros caminhos, seja por meio de livros históricos, contos de suspense ou sobre conteúdo espírita, crença que abraçou até seus últimos dias. 

Tortura da Santa Inquisição
O resultado desse trabalho "além-Sherlock" pode ser encontrado na seleção de contos 64 páginas, da editora L&PM, que traz quatro histórias de suspense, surrealismo, terror e um pouquinho de fé. O conto "O funil de couro" (The Leather Funnel) fala sobre torturas da Santa Inquisição e seus rituais satânicos, pois só pessoas com instinto de perversidade digno do capeta poderiam fantasiar suas intenções sádicas atrás de uma suposta "guerra santa" (contradição em termos) contra hereges. O interessante desse conto é a retomada da ideia de interpretação dos sonhos e a possibilidade que essa nova ciência poderia transmitir aos conhecimentos humanos. Também vem a calhar a dualidade entre crença X ceticismo, que parece ter envolvido Conan Doyle. A sequência leva ao arrepiante "A nova catacumba" (The New Catacomb), história em que você se vê do lado do suposto vilão. Pode? Pode. O médico inglês que respirava suspense prova isso. Na narrativa seguinte o leitor encontra "O caso de Lady Sannox" (The Case of Lady Sannox), que traz as consequências funestas de um adultério (muito pior que tiro na cabeça do Ricardão, pode acreditar). 

Por último, Sir Conan Doyle finaliza com "O gato do Brasil" (The Brazilian Cat), história que dá nome ao livreto (O gato do Brasil e outras histórias de terror e suspense) e que conta o depoimento de alguém que andou bem perto da morte ao lado de uma pantera negra. Esse conto mostra como o Brasil era (e ainda é, que o diga o polêmico episódio dos Simpsons no Brasil) visto pelo chamado "mundo ocidental-civilizado", termo babaca inventado por uma parte do planeta que anda bem mal das pernas, diga-se de passagem: um país exótico, nativo, inóspito, cercado de mistérios e criaturas selvagens. De acordo com a descrição do 'gato do Brasil' expressa na história, o felino nada mais é do que uma pantera negra, com sua beleza e ferocidade imponentes, elementos que pareciam (parecem) encantar os europeus ("ah, o mundo novo... como será, hein? O povo ainda anda pelado?).

Gato do Brasil: nada mais que a pantera negra
No balanço, os textos de Conan Doyle me surpreenderam positivamente e derrubaram a máscara que Sherlock Holmes colocou no seu criador. São verdadeiras histórias de suspense, inusitadas e ligadas ao surrealismo, ao fantástico. Palmas. Dessa vez, a criatura não conseguiu devorar o criador.