09 setembro 2012

Cenas de Nova York & Outras Viagens - Jack Kerouac [7 livros em 7 dias]

Todas as obras deste escritor me despertam interesse, e a minha (amiga, irmã, amada) Michelle conhecendo o meu gosto literário me presenteou com este tesourinho.
Coleção 64 Páginas - L&PM
Relato de viagens
Ele começa com uma “Apresentação do autor” em que o próprio mostra seu currículo com dados e gostos pessoais, experiências de trabalho, obras escritas e publicadas, um resumo de sua vida e uma descrição do seu livro Viajante Solitário. E isso tudo nas palavras de Kerouac se torna único, bem humorado e característico de seu talento para descrições. Selecionei um trecho em que ele fala de si mesmo:
“Sempre considerei escrever meu dever na Terra. E também pregar a bondade universal, que críticos histéricos não foram capazes de descobrir sob a frenética atividade das minhas histórias verídicas sobre a geração beat.” Pag 8

O relato “Cenas de Nova York” é uma descrição muita vívida de cada rua, beco, estabelecimento, esquina, transeunte, sensação, clima e personalidade artística de Nova York. Kerouac expõe a cidade de uma maneira tão pessoal assim como descrevemos o bairro que moramos desde a infância. É como se passeássemos junto dele pelas ruas e avenidas novaiorquinas com aquela sensação de já ter estado lá um dia. Ele cita muitos nomes da literatura universal, astros do jazz e cinema dos anos 50 com bastante intimidade, pois muitos destes nomes foram seus ídolos e amigos. Esse conto é descrito com o fluxo intenso das lembranças vivas do escritor, portanto é impossível não ler no mesmo ritmo que foi escrito e as palavras absorvidas, guardadas, como se o leitor tivesse vivido tudo aquilo de fato.

“Sozinho no topo da montanha” é o segundo relato autobiográfico deste livro, e uma das coisas mais lindas que eu já li nos últimas tempos. Depois de refletir sobre a frase de uma antiga escritura “A sabedoria só pode ser obtida sob o ponto de vista da solidão”, Kerouac decide largar por alguns meses a vida agitada e toda a farra noturna da metrópole mais famosa dos Estados Unidos para viver uma experiência única no topo de uma montanha, candidatando-se a um emprego como vigia de incêndio na Floresta Nacional de Mount Baker no extremo noroeste americano, divisa com Canadá, ou seja, do outro lado do país a quase 5 mil quilômetros de distância de casa e “no meio do nada” (ou do tudo, depende do ponto de vista). Como o título do relato expõe, Kerouac passou três meses inteiros sozinho no topo de uma montanha, numa cabana a mais de mil metros de altura sem qualquer contato com outro ser humano, só ele, a paisagem de abastados pinheiros, picos em torno do vale, neve, pássaros, animais selvagens da região, alguns livros e elucubrações debaixo dos cobertores.

O então expedicionário narra com tamanha emoção cada uma das suas mais importantes visões a respeito desse lugar, que é possível sentir o cheiro da grama verde e úmida e ouvir o farfalhar das folhas das árvores do alto da montanha ao ler-o.
Rolou uma invejinha branca de Kerouac por ter vivido essa experiência. Um dia, quem sabe, realizo este desejo.
Trecho selecionado: “Nenhum homem deveria passar pela vida sem experimentar pelo menos uma vez a saudável e até aborrecida solidão em um lugar selvagem, dependendo exclusivamente de si mesmo e, com isso, aprendendo a descobrir sua verdadeira força oculta. - Aprendendo, por exemplo, a comer quando tem fome e a dormir quando tem sono.” Pag. 37
Esse conto lembra muito a história de Thoreau à beira do Walden, o próprio Kerouac fez tal alusão.
Jack Kerouac (1922-1969)
Logo após vem “O vagabundo americano em extinção” em que o espírito andarilho do autor dá voz a um relato de algumas cenas que ele viveu enquanto “vagabundo” expedicionário por toda a América do Norte e lamenta que em sua época já não se podia mais andar livremente “sem lenço e sem documento” pelas ruas, highways e paisagens americanas sem ser repreendido por um policial ou enfrentar duras penas de quem só quer andar por ai à toa sem prejudicar ninguém, mas tem sua liberdade tomada por leis que descriminam e subjugam a integridade moral do indivíduo. Uma pena que as coisas fossem e ainda são desse jeito, nos faz refletir sobre nosso direito de ir e vir como cidadão.
Trecho retirado da Bíblia budista de Dwight Goddard, citado por Kerouac:
Oh, por esse raro acontecimento 
Eu alegremente daria dez mil peças de ouro! 

Um chapéu na cabeça, uma trouxa às costas, 
E minha companhia, a brisa refrescante e a lua cheia.

Pag. 44

Depois dessas reflexões de vida, direitos e liberdades, o livro conta com a última parte “Rimbaud”, um poema escrito por Kerouac em homenagem à Arthur Rimbaud, em que ele demonstra possuir bastante conhecimento acerca da vida e obra do poeta francês, escrito no ritmo peculiar de Kerouac e muito bem compreendido por quem também é fã do autor de "Uma Temporada no Inferno".

Esta é uma obra altamente obrigatória para quem é fã de Jack Kerouac e de literatura beat, para quem ainda não teve o prazer de conhecer sua narrativa eloquente e transcendente, sempre carregada de alma e de vida. De um estilo que até hoje não encontrei em nenhum outro escritor.

Recomendadíssimo!