29 setembro 2012

Nem mesmo a solidão vem sozinha


Quando eu era criança, lembro de escutar a voz chorosa do cantor pernambucano Alceu Valença em uma música que fala sobre solidão. Não sabia exatamente do que se tratava, mas sempre que acontecia alguma festa ou reunião familiar, lá estava o famigerado karaokê e uma voz desequilibrada nos fundos. Dentre as canções que costumavam ser disputadas entre os cantores da caixinha musical com nome japonês estava "A solidão é fera, a solidão devora/É amiga das horas/Prima-irmã do tempo/E faz nossos relógios caminharem lentos/Causando um descompasso no meu coração" (ouça aqui). Aos oito anos, essa letra torta e diferente do meu repertório infantil mexeu um pouco com a minha mente, sem que eu soubesse exatamente porquê. Algum tempo e muitos gêneros musicais depois, a temática da solidão bateu novamente na minha porta com "I'm sitting here alone in darkness waiting to be free/ Lonely and forlorn I'm crying/ I long for my time to come/Death means just life/Please let me die in solitude" (ouça aqui), lamúria do pessoal do Candlemass, a primeira banda pesadamente tristonha que escutei. 


Essas foram algumas das minhas referências quando bati o olho em "Noite em Claro", livro da autora e colunista Martha Medeiros, e no fantástico "Cenas de Nova York & outras viagens", do "(...) estranho e solitário católico, louco e místico...", Jack Kerouac. Este último foi indicação da querida Eni e sua excelente resenha sobre o livro em questão, me despertando interesse imediato. Mas vamos por partes.

Antes do pocket da editora L&PM (sempre ela), eu não tinha lido nada da Martha. Claro que não estava incólume por completo, já que vi uma citação da Patrícia retirada do "Noite em Claro", ouvi muitas pessoas falando dos livros "Divã" e "Doidas e Santas", li inúmeros fragmentos de obras da escritora salpicados em redes sociais ou em desabafos de blogs e assisti à entrevista concedida por Martha Medeiros ao Conteúdo, produção cultural e informativa da Saraiva. Já que o nome soava vagamente familiar, resolvi apostar e levei mais uma edição da série 64 páginas. Como o título sugere, o conto-com-cara-de-crônica desabafa a história de uma jornalista solitária e confusa, perdida no meio de sua champanhe, frustrações e solidão noturna. Do lado de fora, uma chuva torrencial assola a cidade e ela decide escrever até a chuva estancar, pois com a promessa de água ilimitada, o tempo lhe permitiria desabafar um pouco sobre a própria vida. E lá se vai: amores que não são amores, amarguras, coração repartido em mágoas, corpo sedento por sexo, passado, presente e futuro completamente misturados. Tudo gira em torno da narrativa de uma mulher que não procura por censuras ou padrões e apenas escreve dentro de um verdadeiro dilúvio; uma chuva interna, que desaba e não termina. Uma chuva que está dentro e não fora. O tempo todo, a ideia da chuva me soou como uma metáfora pessoal, uma sensação interna, uma solidão que não tem rosto, um infernal que "todos os dias se apresenta de algum modo".


Tacadas interessantes e questionamentos comuns a quase todos que estão em relacionamentos, independente da posição que ocupem dentro dos mesmos. Ainda me falta um pouco de empatia ou qualquer outra compreensão emocional de descrições como essa, de pessoas que se dispõem a desenhar um panorama de suas narrativas amorosas-sexuais sobre uma ótica intimista. Saber misturar afirmações que parecem provérbios com uma pitada de humor não é tarefa fácil. Por isso, sigo acreditando que devo buscar mais sobre a colunista. Quem sabe eu ainda consiga me encantar e, principalmente, me envolver com coisas como esta: 

"Eu estava diante de um homem que não estava à minha altura, mas que media o meu tamanho" (pág. 33). 

Passada essa solidão repleta de lacunas da Martha Medeiros, cheguei ao Kerouac e seus louvores à vida livre, à religião das viagens, do aprendizado, das culturas novas, das experiências, do andar a pé, da solidão. Mais uma vez a solidão. Diferente do que aconteceu com o conto da brasileira, as ideias de Kerouac encontram espaço na minha mente e no meu arcabouço de experiências. Desde à adolescência eu tive contato com Henry David Thoreau e isso mudou muita coisa na minha forma de agir e pensar. Depois que li "A Desobediência Civil", "Walden" e "Andar a Pé", comecei a questionar a mim mesma sobre como poderia mudar o meu dia-a-dia, os meus atos e palavras, antes de ter a pretensão tola de mudar o mundo. Acompanhar a narrativa de Jack Kerouac, suas experiências solitárias, autônomas, uma existência dividida entre vagões de trem, cidades cheias de poeira e habitantes desconhecidos, culminando no trabalho de três meses como vigia de incêndios no meio de uma floresta inóspita, me fez perceber que existe muito mais do que drogas, alucinações, bebidas e porra-nenhuma dentro da literatura beat (apesar de Jack renegar o rótulo alguns anos depois). 

Kerouac olhando para você... DIRETAMENTE!
Respeito as descobertas, a escrita traçada por meio de fluxo de consciência, as palavras que são mais que letra morta, redigidas no sossego dos gabinetes; as palavras são vida, fatos marcados na memória, cicatrizes recebidas por Jack e compartilhadas conosco, mesmo depois de quarenta e três anos de sua morte. 

"As estrelas são palavras e todos os incontáveis mundos da Via Láctea são palavras, e esse mundo também o é. E percebo que não importa onde eu esteja, seja em um quartinho repleto de ideias ou nesse universo infinito de estrelas e montanhas, tudo está na minha mente. Não há necessidade de solidão. Por isso, ame a vida pelo que ela é e não forme ideias preconcebidas de espécie alguma em sua mente" (pág. 40).

De longe, um dos fragmentos mais bonitos que já li em toda a minha vida (considerando que já tenho metade de meio século)! Se Jack Kerouac escreveu isso alucinado, dopado por benzedrina, anestésicos e café, pouco me importa. Por um segundo, por uma fração de segundo, Kerouac teve uma epifania (escolha o nome de sua preferência) e entendeu o que muito doutor em filosofia passa a vida procurando. Remando contra a maré, ler "Cenas de Nova York" não me fez conhecer mais sobre a cidade dos beatniks, tampouco saber sobre a extinção dos autênticos vagabundos, e sim penetrar um pouco mais na cabeça de alguém que sentiu e viveu a solidão "no topo da montanha". 

A literatura possibilita encontrar a si mesmo dentro da história de outras pessoas. E em momentos assim descobrimos a vida e aquela música chorosa do Alceu Valença passa a ter sentido, já que "A solidão dos astros/A solidão da lua/A solidão da noite/A solidão da rua". 


Observação reforçada: Não deixe de ler a resenha da Eni e esmiuçar um pouco mais sobre a obra imperdível de Kerouac.

Observação direcionada: Permita-se ler Jack Kerouac ouvindo Townes Van Zandt e sua MARAVILHOSA canção "Our Mother The Mountain".