21 setembro 2012

Poesia Portuguesa

Com um pouco de atraso, dou continuidade à série de posts sobre poesia. O primeiro foi sobre poesia brasileira, hoje vou falar um pouco sobre poesia portuguesa e meus poetas preferidos. 

A arte portuguesa, principalmente o fado e a poesia, tem como característica marcante a melancolia. Amores perdidos, solidão e a morte são temas recorrentes, e eles estão presentes nas obras dos três poetas que comentarei hoje: Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa

Florbela Espanca nasceu em 8 de dezembro de 1894 e teve uma vida atribulada, repleta de amores e separações, que a afetaram profundamente. Sua depressão foi agravada após o falecimento de seu irmão em 1927 e no ano seguinte ela tentou o suicídio pela primeira vez. Sua obra é carregada de erotismo e feminilidade. A natureza também era assunto comum em suas poesias. Com uma saúde física e mental frágil, Florbela aos poucos perdia a vontade de viver e esse sentimento é notório em sua obra. Eis que em 8 de dezembro de 1930, dia de seu 36º aniversário, Florbela comente o suicídio. 

Aqui no Brasil, suas poesias foram publicadas em antologias editadas pela L&PM. O cantor Fagner musicou o soneto Fanatismo.

Amiga 

Deixa-me ser a tua amiga, Amor, 
A tua amiga só, já que não queres 
Que pelo teu amor seja a melhor, 
A mais triste de todas as mulheres. 

Que só, de ti, me venha mágoa e dor 
O que me importa a mim?! O que quiseres 
É sempre um sonho bom! Seja o que for, 
Bendito sejas tu por mo dizeres! 

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho ... 
Como se os dois nascêssemos irmãos, 
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho ... 

Beija-mas bem! ... Que fantasia louca 
Guardar assim, fechados, nestas mãos 
Os beijos que sonhei prà minha boca! ...


Nascido em 1890, Mário de Sá-Carneiro foi um dos grandes nomes do modernismo português. Sua obra, influenciada por escritores como Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe, foca principalmente em temas como a insatisfação pessoal e com o mundo. Sá-Carneiro passa bom tempo em Paris e em 1915 começa uma intensa troca de cartas com seu melhor amigo, Fernando Pessoa. No ano seguinte, ele envia uma última carta a Pessoa, explicando as razões pelas quais cometeria suicídio. 

Dispersão 

Perdi-me dentro de mim 
Porque eu era labirinto, 
E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim. 

Passei pela minha vida 
Um astro doido a sonhar. 
Na ânsia de ultrapassar, 
Nem dei pela minha vida... 

Para mim é sempre ontem, 
Não tenho amanhã nem hoje: 
O tempo que aos outros foge 
Cai sobre mim feito ontem.

(...)


Não falarei muito sobre Fernando Pessoa, pois ele é um dos poetas preferidos de todas nós aqui do blog. Pretendo em breve organizar uma série de posts sobre ele, mas enquanto isso, leiam esse post que a Eni escreveu. A seguir, um trecho do poema Tabacaria, assinado pelo heterônimo Álvaro de Campos

Tabacaria

Não sou nada. 
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 

Janelas do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é 
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

(...)


Conheci esses três poetas na escola, através dos livros de português e desde então eles se tornaram meus preferidos. Não me canso de ler e reler suas poesias, sempre descobrindo detalhes novos. A literatura portuguesa é muito rica, principalmente na poesia. Esses três talvez sejam os mais conhecidos e definitivamente, os que mais gosto. 

Até o próximo post. :)