01 setembro 2012

Quando a criatura devora o criador



Imagine que você é um escritor. Tente imaginar um personagem. Pronto? Atribua a ele uma vida, uma carreira, uma mente e um corpo. Agora, dê a ele uma narrativa emocionante, uma inteligência acima do normal e uma capacidade de resolver mistérios insolúveis para a grande maioria da humanidade. Por último, tente sonhar com milhões de leitores em todo o mundo completamente dependentes do seu personagem. Já?  É em horas como essa que você vai afundar na poltrona e questionar a si mesmo e ao universo, soltando baforadas cíclicas no ar: "Pode uma criatura se tornar maior que o criador?"

Usando a minha imaginação, presumo que tenha sido esse o desabafo silencioso de Sir Arthur Conan Doyle, criador de um dos personagens mais queridos e que tem "sobrevivido ao seu tempo", o detetive Sherlock Holmes. A obra é vasta: 56 contos e 4 romances, onde Holmes, com a ajuda do seu fiel "Robin" e "Sancho Pança", o médico dr. Watson, desvenda os crimes mais complicados e os mistérios aparentemente insolúveis, passando a perna até mesmo na Scotland Yard (a tradicional polícia metropolitana de Londres). Há tanto para se falar ou pontuar sobre Sherlock Holmes que é mais racional usar "métodos científicos" e ir espalhando as informações aos poucos, deixando alguns feijões para as comentários posteriores (eles virão, esteja certo(a) disso). 
Watson (Jude L.) e Holmes (Robert D. Jr) no cinema
Neste primeiro momento, vamos falar um pouco dos suspiros finais (ironias da vida?) do detetive inglês ainda na ativa. Mais uma vez, a editora L&PM oferece ao leitor grandes aventuras literárias por apenas R$5,00. O volume 1014 traz "A aventura de um cliente ilustre" e "O último adeus de Sherlock Holmes", dois contos saborosos da saga do maior investigador do século XIX e XX. A primeira história traz Holmes e Watson envolvidos na tentativa de estragar um casamento que pode vitimar uma donzela meio inocente, meio tola, já que o noivo é um assassino impiedoso que, além de usar as mulheres para seus fetiches luxuriosos, as descarta ou as mata. O bandido é um "lobo em pele de cordeiro", como diz o ditado popular: galã de cinema, beleza hipnotizante, fala mansa, jeito educado, culto e exímio conhecedor de relíquias da cerâmica chinesa. Apesar  de todos os alertas feitos, a ingênua moça (que parece estar sob efeito hipnótico) nega veemente qualquer acusação contra o amado. O pai, um famoso general, não sabe mais o que fazer, cabendo a um amigo da família, o coronel sir James Damery, entrar em contato e acertar os detalhes com Holmes.

Com as informações em mãos, o detetive e seu amigo-auxiliar partem em busca de uma forma para elucidar o caso antes que seja tarde demais. A narrativa é interessante, cheia de afirmações que mais parecem aforismas e uma aura de mistério envolvendo completamente o ar (claro, é Sherlock Holmes). O tipo de conto que você pode ler ouvindo um trecho da lindíssima Finlândia, de Jean Sibelius. 

House e Wilson: Versão moderna de Holmes e Watson
O segundo conto, como o nome sugere, é o aceno de adeus ao detetive mais famoso do mundo, cuja tônica foi inspirada nas histórias de C. Auguste Dupin, personagem de Edgar Allan Poe. Na história de despedida, Holmes impede que um espião alemão leve à tona seu plano de traficar informações importantes da Inglaterra, causando um mal estar que levaria à guerra. Claro, depois de ler algumas páginas e já estando habituado aos "disfarces" do detetive e do dr. Watson, você já consegue desmascarar o que vai acontecer nos próximos minutos. Uma despedida digna e prefaciada por Conan Doyle, tendo em vista a importância que seu personagem acabou conquistando entre os ingleses e no mundo. Se Watson é, como disse seu amigo, "o único ponto fixo e constante em uma época de tantas mudanças", Sherlock Holmes será sempre aquele arrogante genial, o homem cujo cérebro funciona acima do coração ("aparências, nada mais"), orgulhoso e reflexivo que exala admiração e motiva "detetives modernos", como é o caso do médico americano Dr. House (Holmes = House?, tente tirar o ''l'') e do seu amigo inseparável  Wilson (Watson = Wilson? O homem ao lado? O amigo inseparável? O fiel escudeiro?). Faça as contas. Ou nem isso.


Alguns "aforismas" de Sherlock Holmes:

"Uma mente complexa - disse Holmes. Todos os grandes criminosos a possuem".

"A afabilidade de algumas pessoas é mais mortal do que a violência de almas grosseiras".

"Esse parece ser o tipo de homem que diz muito menos do que realmente faz".

"As recompensas do pecado, Watson, as recompensas do pecado! - ele disse. - Cedo ou tarde elas vêm".