03 outubro 2012

A Ilustre Casa de Ramires


O texto a seguir foi escrito pelo nosso convidado Fábio Michelete, autor do romance “Aprendi a me Amar – Em busca da felicidade”.

Amigos de Gonçalo, Admiradores de Portugal - 28/10/2012


Já devo ter comentado isto em outra resenha, mas já há alguns anos tenho comigo a promessa de terminar cada livro que começo. Previne que eu abandone um livro antes que ele “engate” e fique bom.

Confesso que “A ilustre casa de Ramires” me tentou a quebrar a promessa. A leitura estava muito rebuscada no começo. Não tenho vocabulário para lê-lo sem visitas constantes aos verbetes de dicionário. A frase abaixo é emblemática nesse ponto:

“ ´Bofé!...Mentes pela gorja!... Pajem ,o meu murzelo!...´; e através de toda esta vernaculidade circulava uma suficiente turba de cavalariços com saios alvadios, beguinos sumidos na sombra das cógulas, ovençais sopesando fartas bolsas de couro, uchões espostejando nédios lombos de cerdo...”

Também achou difícil? Entendo que para a educação da época, isto talvez fosse mais viável, mas tornava o livro muito chato pra mim. Aos poucos, porém, o autor vai nos afeiçoando ao Gonçalo Ramires. Vamos gostando de seus jeitos nobres, mas verossímeis, suas covardias, suas atitudes generosas.

Talvez seja tudo parte do plano do autor, de relacionar seu personagem à Portugal. O antigo país podia ser assim, intelectual, valoroso, tradicional. Carrega ainda essas ideias, e sabemos que transmitiu muitas delas ao Brasil.

É claro que não passaram para nossa cultura apenas a generosidade, bom humor, nobreza. Transmitiram também a diferença marcante entre ricos e pobre, e um fisiologismo – claros nas relações de Gonçalo com a coisa pública. Enfim, de minha parte, reforço a admiração pela cultura portuguesa, que em seu balanço é mais boa que má.

Casa da Torre da Lagariça / Resende - Portugal


Trechos selecionados:

“Despido, soprada a vela, depois de um rápido sinal-da-cruz, o fidalgo da torre adormeceu. Mas no quarto, eu se povoou de sombras começou para ele uma noite revolta e pavorosa. André Cavaleiro e João Gouveia romperam pela parede, revestidos de cotas de malha montados em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho mau, arremessavam contra seu pobre estômago pontoadas de lança que o faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau-preto.”

“As duas manas Lousadas! Secas, escuras e garrulas como cigarras, desde longos anos, em Oliveira, eram elas as esquadrinhadoras de todas as vidas , as espalhadoras de todas as maledicências, as tecedeiras de todas as intrigas. E na desditosa cidade não existia nódoa, pecha, bule rachado, coração dorido, algibeira arrasada, janela entreaberta, poeora a um canto, vulto a uma esquina, chapéu estrado na missa, bolo encomendado nas Matildes, que os seus quatro olhinhos furantes de azeviche sujo não descortinassem – e que a sua solta língua, entre os dentes ralos ,não comentasse com malícia estridente!...”

“Agora, porém, durante três, quatro anos, os regeneradores não trepavam ao governo. E ele, ali, através desses anos, no buraco rural, jogando voltaretes sonolentos na assembleia da vila, fumando cigarros calaceiros nas varandas dos Cunhais, sem carreira, parado e mudo na vida, a ganhar musgo, como a sua caduca, inútil torre!”

“ – Pois a D. Ana é uma beleza! Vocês não imaginam!... Santo nome de Deus! Que ombros! Que braços! Que peito! E a brancura, a perfeição... De endoidecer! Ao princípio, como havia muita gente, e ela estava para um canto, acanhadota, não fez sensação. Mas depois lá a descobriram. (...)
- Pois, por mim, o que posso afirmar é que a senhora D. Ana é uma mulher muito asseada, muito lavada...”

“ – Talvez seriam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a impensa bondade, que notou o senhor Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?...A imaginação que o leva sempre a exagerar até a mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de rala, aqui pegada à sua velha torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
- Quem?...
- Portugal.”


Por Fábio Michelete

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