20 outubro 2012

Corpo, alma e coração: a paixão pelos livros

Holland Park Library (Kensington, London, 1940) Imperial War Museum
Há quem diga que vender o amor é tarefa quase impossível. Também há quem defenda a imaterialidade de sentimentos elevados, intensos, que se sobrepõem à nossa própria lucidez. E por último, mas não menos importante, há nesta mesma terra de paixões desenfreadas e amores imaculados uma espécie de contubérnio; uma atividade prazerosa, viciante, colérica, arrebatadora, terna, compreensiva e quantos mais adjetivos couberem aqui. Como protagonistas de tal vida incomum estão os livros. 

 A Paixão Pelos Livros (autores universais, org. Júlio Silveira, Martha Ribas, editora: Casa da Palavra, pág. 152), traduz com expressividade todas as afirmações mencionadas. Trata-se de uma coletânea de contos, crônicas e depoimentos de quem descobriu na leitura a própria alma. Autores nacionais e estrangeiros revelam, cada qual a seu modo, a intimidade que desenvolveram com os livros e a importância dos mesmos na trajetória de suas vidas. Não existem destaques ou melhores textos. Tudo entra em consonância com o principal objetivo do livro: acionar o leitor atual sobre como a paixão literária pode transformar o dia-a-dia de homens comuns. 

É inegável a paixão que o poeta Drummond exala no depoimento "O Sebo"; a observação sagaz do filósofo e físico francês D'Alembert em "Bibliomania" (quando trata, com muito humor, da diferença entre os reais amantes dos livros e os pseudos-intelectuais); da irreverência devota do ensaísta Montaigne (quando descreve a necessidade de isolamento para praticar o hábito da leitura); sem mencionar a declaração visceral do russo Varlam Chalámov (do qual me tornei fã depois da leitura de seu depoimento/crônica) e ainda do escritor americano William Saroyan (que me fez imaginar John Fante). Isto apenas para citar. No livro também estão inseridos textos de Camilo Castelo Branco, Plínio Doyle (bibliófilo), Gustave Flaubert, Benjamin Franklin (cientista e impressor), Rodrigo Lacerda, John Milton, José Mindlin, Petrarca e o músico Caetano Veloso. 

Outro adicional da edição é o papel 'encorpado' (impresso em Chamois Bulk) e belíssima arte interior, que contrasta gravuras ora em branco, ora em preto, com um ardente fundo vermelho (na capa e no miolo, respectivamente). A fotografia, que retrata a biblioteca londrina bombardeada em 1940, é uma das imagens mais tocantes que vi em toda a minha vida. É simplesmente magnético! "A Paixão Pelos Livros" é o tipo de obra que te faz amar ainda mais o que você é, o que você sente, o que você faz e todo o seu desprendimento em prol da literatura.