06 outubro 2012

O fabulador do cotidiano e seus amores difíceis


Para que uma obra literária forme uma identidade robusta, realidade e ficção não precisam estar, necessariamente, incomunicáveis. O escritor italiano Italo Calvino engrenou a fórmula “fábula com força realista”. Nascido em um subúrbio de Havana em 1923, Calvino se tornaria um dos maiores escritores do século XX, contornando com excelência as aventuras do cotidiano e o universo paralelo da literatura. Comunista ferrenho, o escritor participou do movimento de Resistência e atuou ativamente no Partido Comunista Italiano. Ainda no período em que desenvolvia atividades políticas, Calvino esboçava seus primeiros contos, tendo alguns deles publicados em revistas e periódicos da época, como L’Unità. 

Os amores difíceis (Gli amori difficili, Companhia das Letras, 1992, 6° edição, 264 pág), conjunto de novelas originalmente agrupadas em 1958, foi uma das minhas gratas surpresas literárias. São 15 contos, subdivididos em duas partes, que narram as aventuras amorosas que explodem no cotidiano-nosso-de-cada-dia, transformando gestos casuais, situações tacanhas e palavras sem maiores pretensões em verdadeiras correntes sentimentais. Como o jovem soldado permanecerá imune ao roçar da pele de uma desconhecida, provocando e incitando a imaginação dentro de um transporte público? O conto “A aventura de um soldado” narra, com maestria, as sutis investidas do jovem cabo; sutilezas estas que ora confirmam, ora retraem, a comunicação gestual. No conto seguinte, adaptado para “A aventura de um bandido”, a cama de uma velha prostituta é o palco que une o velho oficial de polícia e o fugitivo.


Italo Calvino faz jus à alcunha de fabulador, oferecendo ao leitor contos inventivos, propostos pela própria realidade que o cercava. Destaque especial para “A aventura de uma banhista”, trama que se desenrola em torno do ataque de vergonha e pudor de uma burguesa em meio à praia lotada; “A aventura de uma esposa”, narrativa marcante sobre a sensação de adultério nutrida por uma solitária e desconfiada senhora em frente ao balcão de um bar e a sensacional “A aventura de um automobilista”, onde a corrida desesperada para acalentar uma relação – estremecida por uma briga – é a própria finalidade do amor; o meio que traga a existência do sentimento e o transforma em concretude. Os dois contos que encerram o livro, “A formiga-argentina” e “A nuvem de smog” confirmam a destreza de Calvino em focar a realidade sob o prisma do imaginário, do fantástico, do epidérmico. “A formiga-argentina” traz a rotina de uma família que, após enfrentar uma mudança de vida, se vê às voltas com a casa infestada de pequenas, fedorentas e imperceptíveis formigas. A busca do narrador pela resolução dos problemas atravessa uma crise existencial velada, silenciosa. Já em “A nuvem de smog”, um jornalista desiludido assume novo emprego em uma cidade devorada por cinzas, que o faz repensar a própria lacuna de suas perspectivas e ambições. O grande fabulador deu ao cotidiano muito mais do que um espelho: deu personalidade.

Italo Calvino espiando suas fábulas reais