10 outubro 2012

O Príncipe de Nicolau Maquiavel

Nicolau Maquiavel

O texto a seguir foi escrito pelo nosso colaborador Fábio Michelete.


Os fins justificaram os meios

27/08/2012

Tinha uma cota de pocket books para resgatar com meus pontos de fidelidade. Dentre os títulos, escolhi “O príncipe” de Maquiavel, pela curiosidade de ler um autor que virou adjetivo (“maquiavélico”) e ao qual se atribui a frase: “Os fins justificam os meios”. Outra menção a este título foi feita por FHC em uma de suas entrevistas para uma revista semanal, numa interessante alusão a seu período no poder e ao de seu sucessor.

“O Príncipe” parece ser um dos primeiros, senão o primeiro tratado de ciência política. Nele, o autor se baseia em experiências que pode observar, sobre os principados de sua época, e traça com base em seus exemplos as regras gerais que garantiriam a manutenção do poder e a coesão do estado político. Teve a oportunidade de discutir estados mais democráticos em outro texto, mas neste descreve principados em suas mais variadas formas, por hereditariedade, conquistados belicamente, adquiridos em acordos, etc.

É de sua escrita realista, sem floreios nem respeito à ética religiosa que surgem seus críticos, impingindo a sua autoria a ideia de que os fins justificam os meios. Na verdade, os fins destes críticos, que eram os de desacreditar este autor, justificaram os meios difamatórios. Não é dele a frase emblemática, e também não vi a defesa destas ideias com quaisquer outras palavras, ao menos não em “O Príncipe”.

Num texto protocolar, ilustrado de exemplos, organizado em tópicos como uma revisão moderna, elenca uma série de ideias que, por sua generalidade, aplicam-se ao longo do tempo a toda manutenção de poder, não só de um estado, mas de qualquer poder. Me lembrou muito o “A Arte da Guerra” de Sun Tzu, e foi sem surpresa que soube que ele próprio tem o seu livro homônimo.




Frases selecionadas:

“Porque os romanos fizeram, nesses casos, tudo aquilo que os príncipes sábios devem fazer, os quais não somente devem atentar para os conflitos presentes, mas também aos futuros, impedindo-os com toda a habilidade, já que, prevendo-se o amanhã, facilmente os conflitos podem ser remediados; contudo, esperando que a ti se apresentem, não haverá mais tempo para a cura, porque a doença tornou-se incurável. E ocorre com isso o que os médicos dizem acerca da tuberculose, que, no princípio da doença, é fácil de curar e difícil de reconhecer, mas no progresso do tempo, não tendo sido no princípio conhecida e medicada, torna-se fácil de reconhecer e difícil de curar.”

“Precisava que Ciro encontrasse os persas descontentes com o império dos medas, e os medas moles e efeminados devido a uma longa paz.”

“De onde é de se notar que, ao tomar um Estado, deve o seu ocupador pôr em curso todas aquelas ofensas que lhe são necessárias fazer; e fazê-las todas de uma vez, para não ter que renová-las a cada dia e poder, sem variações, manter a população e governar para beneficiá-la. Quem faz de outro modo, ou por timidez ou por mau conselho, sempre necessitará ter o cutelo na mão e não poderá manter os seus súditos, nem podendo os súditos, pelas sempre renovadas injúrias, sentirem-se mantidos pelo ocupador. Porque as injúrias devem ser feitas todas juntas, a fim de que, mão saboreando-as menos, ofendam menos: os benefícios devem ser feitos pouco a pouco, de modo que sejam bem saboreados.”
“Deve, portanto, um príncipe não fugir da infâmia de cruel para ter os seus súditos unidos e fieis, porque, com pouquíssimos exemplos, será mais piedoso do que aqueles que, por demasiada piedade, deixaram seguir as desordens, das quais nascem os assassinatos ou a rapinagem(...)”

“E há que se entender isso, que um príncipe, sobretudo um príncipe 
novo, não pode observar todas aquelas coisas pelas quais os homens são tidos como bons, sendo mesmo necessário para manter o Estado, operar contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade, contra a religião. E também é preciso que ele tenha o ânimo disposto a mudar-se segundo o comando dos ventos da fortuna e as variações das coisas e , como acima se disse, a não abandonar o bem, podendo, mas saber entrar no mal, se necessário.”



Por Fábio Michelete

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