Razão e Sensibilidade: Livro x Filme

O texto a seguir foi escrito pelo nosso colaborador Fábio Michelete.


Um caso de filme melhor do que o livro?

Foi pela atração pelo trabalho e figura da atriz Emma Thompson que um dia escolhi assistir “Razão e Sensibilidade”, filme do diretor Ang Lee. Daí a assistir outros filmes sobre os modos ingleses antigos (Howards End, Vestigios do Dia e mesmo o Orgulho e Preconceito, da mesma autora), foi um pulo. Ela foi a roteirista do filme, e não por acaso, poderei ser acusado de defender sua versão da história – considerando-a melhor que a de Jane Austen.

Vou me arriscar nesta resenha. Ao terminar a leitura de Razão e Sensibilidade, que gostei tanto no cinema, confesso que achei infundada a legião de fãs que a autora reúne. Não achei o livro muito bom.

Não sei se o brilhantismo dela sumiu na tradução da versão que li, ou se foi outra coisa, mas achei o livro ordinário em alguns pontos, e considerei mesmo que as entrelinhas lidas pelos estudiosos sobre uma suposta visão crítica da sociedade burguesa é que engrandeceram sua obra ao grande público. Se lermos seu livro sem esta ideia prévia, no entanto, a história parecerá mais um romance dramático, bem situado temporalmente, e só. Tem personagens que me pareceram mais “rasos” que os dos clássicos brasileiros que li recentemente. 

O jeito da autora, de contar a história pelos diálogos entre os personagens, por vezes é enfadonho, mesmo que possamos ver com algum prazer a forma de pensamento vigente na época. Jane Austen (e o roteiro do filme fortalece isto) viveu numa sociedade inglesa machista, quase de castas. Seus fãs alardeiam que seus romances denunciam a situação oprimida da mulher daquele tempo. Cá pra mim, acho até possível que se deduza isto, mas nas mais de 300 páginas deste romance, nem uma palavra foi dita sobre a condição dos criados, independentes do gênero – infinitamente mais oprimidos. Sem discursos inflamados de esquerda por aqui, mas é engraçado uma autora alardeada por sua consciência política ter um lapso destes. 

Edward Ferrars, é desculpado de sua rica vida de “dissipação” de tempo e fortuna. A mesma sorte não têm aqueles com mesma conduta, se ousam professar ou atirar-se a suas paixões, mas não mantém suas palavras e constância. Amar é sublime e sensível, qualidades importantes, mas mudar de amor sem ser forçado a isto é prova de falta de caráter. Ok, talvez aqui um resquício romântico, entendo que era a literatura da época. O trabalho não enobrece, ao contrário, quem o faz são os hábitos de leitura e dedicação às artes, assim como caminhadas, discussões inteligentes e outros usos do tempo ocioso (que delícia!).
Bom, para Emma Thompson, meus parabéns. Para Jane Austen, ainda me resta o volume de “Pride and Prejudice” – isto mesmo, em inglês, que pretendo ler em seguida, para quem sabem redimir a autora em meu conceito.


Frases selecionadas. Ao reler as páginas que marquei, achei o restante chato, então ficaram só estas:

“Ele próprio (Edward) não era capaz de fazer justiça a si mesmo; mas, tão logo conseguisse dominar a timidez seu modo de agir demonstrava que tinha um coração aberto e afetuoso, que era inteligente e possuía uma educação que lhe garantira um sólido desenvolvimento. Mas não apresetava a menor habilidade nem disposição para corresponder aos desejos tanto de sua mãe quanto de sua irmã, que sonhavam vê-lo tornar-se notável e importante por...nem mesmo elas sabiam por quê. Queriam que ele tivesse destaque no mundo de um jeito ou de outro. (...) Mas Edward não dava importância para grandes homens ou caleches. Toda sua aspiração centrava-se em conforto doméstico e em uma vida particular tranquila.”

“ – Uma mulher com vinte e sete anos – afirmou Marianne, depois de pensar por um momento – jamais pode ter esperança de inspirar afeto. Se sua casa for desconfortável e sua fortuna pequena, suponho que deva se submeter a desempenhar as funções de enfermeira do marido a fim de garantir a manutenção e segurança de sua vida como esposa. Casar-se com uma mulher nestas condições nada teria de impróprio, mas seria um pacto de conveniências e o mundo ficaria satisfeito. Aos meus olhos, no entato, este não seria um casamento, de maneira alguma. Para mim, significaria apenas um contrato comercial em que cada qual se beneficiaria à custa do outro.”

Comentários

  1. Nunca li nada da Austen, tai uma boa dica para conhecer a escrita dela. ;)

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  2. AVISO A LEITORES DESAVISADOS: o comentário a seguir é o relato exasperado de uma fã inflamada de Austen.

    Minha primeira reação ao iniciar o texto foi, obviamente, o grito de "HERESIA!" que tive que conter (é sábado de manhã e não quero acordar ninguém).
    Coloquei no chão as sete pedras que segurava para jogar no infame autor de tal difamação quando a parte do meu cérebro que ainda permanecia raciocinando diante de tal afronta apontou certos fatores que me fizeram reconsiderar o assassinato iminente.

    Pra começar, Razão e Sensibilidade NÃO é meu romance favorito da autora. Foi o primeiro que li e o suficiente para que eu me apaixonasse. Ainda não li suas seis obras, "apenas" Sense and Sensibility, Pride and Prejudice e Emma, que é o meu xodó, apesar da preferência mundial por Orgulho e Preconceito. Minha leitura atual é Mansfield Park, e este eu devo confessar que tem sido um desafio, pois Fanny, a protagonista, é o oposto do ideal de mulher pensante que tanto admiro em Elizabeth Bennet e Emma Woodhouse.

    E são justamente essas mulheres que pensam - e falam! - diante de uma sociedade que as ensinou a permanecer caladas que fazem com os fãs proclamem que ela denuncia a situação feminina de sua época.
    Em meu TCC, fiz um estudo aprofundado dos costumes do século XIX, no qual a escritora viveu, e deixe-me falar um pouco do que era pregado: a mulher deveria ser bela, porém silenciosa, como uma peça da mobília. Deveria aprender várias línguas, ler muitos clássicos, pintar e bordar, mas jamais se gabar por seus dotes. Não deveria falar, principalmente na presença de um homem, a menos que sua opinião fosse pedida, e mesmo assim, precisava tomar cuidado para não se mostrar mais inteligente que eles. Não é preciso ter base no discurso de críticos para perceber que as personagens de Jane (salvo Fanny Price) não se encaixam nesse perfil.
    Posso não ser fã de Mansfield Park, e duvido que os últimos capítulos mudarão minha opinião, mas a crítica aos modos de vida da classe superior são quase palpáveis. Ela não poderia escrever de modo declarado o que pensava das pessoas ricas, mas descreve o dia a dia da tia rica da protagonista sendo ocupado por bordados feios e sem importância, e afirma que ela se preocupava mais com seu cachorrinho do que com a criação das filhas, que estavam melhor na companhia da governanta (qualquer semelhança com os dias atuais, não é mera coincidência!).

    E, para completar, você menciona que Jane Austen não cita uma palavra sequer sobre a situação dos criados nas suas mais de 300 páginas. Além de ser um assunto mais delicado, e que poderia trazer problemas para a autora, que no início teve muita dificuldade para ser publicada, a posição feminina era uma questão muito mais próxima a ela e, portanto, mais fácil de ser trabalhada. Mas, em Mansfield Park, também, ela levanta uma questão ainda mais polêmica para sua época: a escravidão. A Inglaterra se beneficiava muito com o tráfico negreiro, mas qual era a opinião do povo inglês com relação a isso?
    Mas, pra saber a opinião da Jane, você vai ter que ler.

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    Respostas
    1. Olas! Obrigado por conter o grito, e pelo tempo que dedicou ao pertinente comentário. Sua defesa da autora e de seu pensamento e comportamento revolucionário para a época é bastante válida.

      Como viu, minha opinião pesa mais sobre o livro, ou sobre uma tietagem a meu ver exagerada. As personagens são mais bidimensionais do que na literatura brasileira ou em outros best sellers.

      Falta-lhes razão de existir. Parecem estar lá não para que uma história se construa no viver de suas vidas, mas simplesmente como atores na trama da autora. Um erro que humildemente identifico também em meu livro (Aprendi a me Amar).

      Li também "Pride and Prejudice" (em inglês, para não culpar a tradução), que é melhor que "Razão..." mas também não consegui ver nele a complexidade e diversidade de um "O Cortiço"... Espero que seja igualmente democrática ao comentar minha opinião sobre ele também!

      Obrigado novamente. Fico com a dica de Mansfield Park e Emma.

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