15 outubro 2012

Razão e Sensibilidade: Livro x Filme

O texto a seguir foi escrito pelo nosso colaborador Fábio Michelete.


Um caso de filme melhor do que o livro?

Foi pela atração pelo trabalho e figura da atriz Emma Thompson que um dia escolhi assistir “Razão e Sensibilidade”, filme do diretor Ang Lee. Daí a assistir outros filmes sobre os modos ingleses antigos (Howards End, Vestigios do Dia e mesmo o Orgulho e Preconceito, da mesma autora), foi um pulo. Ela foi a roteirista do filme, e não por acaso, poderei ser acusado de defender sua versão da história – considerando-a melhor que a de Jane Austen.

Vou me arriscar nesta resenha. Ao terminar a leitura de Razão e Sensibilidade, que gostei tanto no cinema, confesso que achei infundada a legião de fãs que a autora reúne. Não achei o livro muito bom.

Não sei se o brilhantismo dela sumiu na tradução da versão que li, ou se foi outra coisa, mas achei o livro ordinário em alguns pontos, e considerei mesmo que as entrelinhas lidas pelos estudiosos sobre uma suposta visão crítica da sociedade burguesa é que engrandeceram sua obra ao grande público. Se lermos seu livro sem esta ideia prévia, no entanto, a história parecerá mais um romance dramático, bem situado temporalmente, e só. Tem personagens que me pareceram mais “rasos” que os dos clássicos brasileiros que li recentemente. 

O jeito da autora, de contar a história pelos diálogos entre os personagens, por vezes é enfadonho, mesmo que possamos ver com algum prazer a forma de pensamento vigente na época. Jane Austen (e o roteiro do filme fortalece isto) viveu numa sociedade inglesa machista, quase de castas. Seus fãs alardeiam que seus romances denunciam a situação oprimida da mulher daquele tempo. Cá pra mim, acho até possível que se deduza isto, mas nas mais de 300 páginas deste romance, nem uma palavra foi dita sobre a condição dos criados, independentes do gênero – infinitamente mais oprimidos. Sem discursos inflamados de esquerda por aqui, mas é engraçado uma autora alardeada por sua consciência política ter um lapso destes. 

Edward Ferrars, é desculpado de sua rica vida de “dissipação” de tempo e fortuna. A mesma sorte não têm aqueles com mesma conduta, se ousam professar ou atirar-se a suas paixões, mas não mantém suas palavras e constância. Amar é sublime e sensível, qualidades importantes, mas mudar de amor sem ser forçado a isto é prova de falta de caráter. Ok, talvez aqui um resquício romântico, entendo que era a literatura da época. O trabalho não enobrece, ao contrário, quem o faz são os hábitos de leitura e dedicação às artes, assim como caminhadas, discussões inteligentes e outros usos do tempo ocioso (que delícia!).
Bom, para Emma Thompson, meus parabéns. Para Jane Austen, ainda me resta o volume de “Pride and Prejudice” – isto mesmo, em inglês, que pretendo ler em seguida, para quem sabem redimir a autora em meu conceito.


Frases selecionadas. Ao reler as páginas que marquei, achei o restante chato, então ficaram só estas:

“Ele próprio (Edward) não era capaz de fazer justiça a si mesmo; mas, tão logo conseguisse dominar a timidez seu modo de agir demonstrava que tinha um coração aberto e afetuoso, que era inteligente e possuía uma educação que lhe garantira um sólido desenvolvimento. Mas não apresetava a menor habilidade nem disposição para corresponder aos desejos tanto de sua mãe quanto de sua irmã, que sonhavam vê-lo tornar-se notável e importante por...nem mesmo elas sabiam por quê. Queriam que ele tivesse destaque no mundo de um jeito ou de outro. (...) Mas Edward não dava importância para grandes homens ou caleches. Toda sua aspiração centrava-se em conforto doméstico e em uma vida particular tranquila.”

“ – Uma mulher com vinte e sete anos – afirmou Marianne, depois de pensar por um momento – jamais pode ter esperança de inspirar afeto. Se sua casa for desconfortável e sua fortuna pequena, suponho que deva se submeter a desempenhar as funções de enfermeira do marido a fim de garantir a manutenção e segurança de sua vida como esposa. Casar-se com uma mulher nestas condições nada teria de impróprio, mas seria um pacto de conveniências e o mundo ficaria satisfeito. Aos meus olhos, no entato, este não seria um casamento, de maneira alguma. Para mim, significaria apenas um contrato comercial em que cada qual se beneficiaria à custa do outro.”