11 outubro 2012

Sobre a brevidade da vida - Sêneca [7 livros em 7 dias]

O quão ocupados estamos?
A necessidade de ócio pregada por Sêneca vai totalmente de encontro a nossa correria cotidiana.
A que atividades inúmeras entregamo-nos durante toda a vida? Ao fim, qual será o saldo de vida realmente aproveitada?
Um livro que pode ser aberto aleatoriamente e certamente nos fará refletir sobre nossas escolhas.

Lúcio Anneo Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.)
Escrito ao gênero epistolar (em forma de carta), Sobre a Brevidade da Vida (De brevitate vitae) é a obra mais conhecida do filósofo, dramaturgo, político e escritor Lúcio Anneo Sêneca, e um dos textos mais conhecidos de toda a antiguidade latina. Sêneca estudou gramática, retórica, e filosofia estoica em Roma, foi um grade advogado e como conselheiro tomou parte na corte do imperador Calígula. Foi tutor de L. Domitius, filho do imperador Cláudio, e após a morte do pai, o pupilo de Sêneca torna-se o ninguém menos imperador Nero, conhecido historicamente por perder a razão e saúde mental, tornando-se tirânico e colocando fogo em Roma, mas não sem antes acusar Sêneca de participar de um golpe para assassiná-lo e sem julgamento recebeu a ordem do imperador de cometer suicídio.

Escrita a quase 2 mil anos, esta obra é composta de cartas dirigidas a Paulino (cuja identidade é controversa), em que o sábio discorre sobre a natureza finita da vida humana inspirando o homem a avaliar o que vem a ser uma vida bem vivida. Sêneca adverte que o problema não é a velocidade do fluxo vital, fonte de lamentos para muitos, mas, sim, a forma como se utiliza o tempo. Embora pagão, Sêneca demonstra através deste livro que ninguém nasceu para o tempo presente, mas, para ingressar na esfera celeste, frisando que cada ser humano tem a obrigação de reservar tempo para si próprio evitando futilidades e buscando a real riqueza que é a interioridade de virtudes.

Um dos trechos que considero mais curiosos na biografia de Sêneca, não é necessariamente sobre sua vida, mas sua morte:
“Acusado de participar na conjuração de Pisão, em 65 d.C., recebeu de Nero a ordem de suicidar-se, que executou com o mesmo ânimo sereno que pregava em sua filosofia. Conta-se que sua morte foi uma lenta agonia. Abriu as veias do braço, mas o sangue correu muito lentamente, assim, cortou as veias das pernas. Porém, como a morte demorava, pediu a seu médico que lhe desse uma dose de veneno. Como este não surtiu efeito, enquanto ditava um texto a um dos discípulos, tomava banho quente para ampliar o sangramento. Por fim, fez com que o transportassem para um banho a vapor e, ali, morreu sufocado.” (Pág. 10)

"Nero e Sêneca" por Eduardo Barrón
(Museo del Prado - Cordoba)

Trechos retirados da obra:

3. Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de grandes tarefas. (...) Desse modo, não temos uma vida breve, mas fazemos com que seja assim. Não somos privados, mas pródigos de vida. Como grandes riquezas, quando chegam às mãos de um mau administrador, em um curto espaço de tempo, se dissipam, mas, se modestas e confiadas a um bom guardião, aumentam com o tempo, assim a existência se prolonga por um largo período para o que sabe dela usufruir. (Pág. 26)
Alguns, sem terem dado rumo a suas vidas, são flagrados pelo destino esgotados e sonolentos, de tal maneira que não duvido ser verdade o que disse, como se fosse um oráculo, o maior dos poetas: "Pequena é a parte da vida que vivemos". Pois todo o resto não é vida, mas somente tempo. (Pág. 28)
“Vemos que já atingiste o fim da vida, tens cem ou mais anos. Vamos, faz o cálculo da tua existência. Conta quanto deste tempo foi tirado por um credor, uma amante, pelo poder, por um cliente. Quanto tempo foi tirado pelas brigas conjugais, (...) pelo dever das idas e vindas pela cidade. Acrescenta, ainda, as doenças causadas por nossas próprias mãos e também todo o tempo desperdiçado. Verás que tens menos anos do que contas” (Págs. 30-31)
Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que te admires, durante toda a vida se deve aprender a morrer. (Pág. 41)
Cada um se lança à vida, sofrendo da ânsia do futuro e do tédio do presente. (Pág. 43)
10. Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos: ele não viveu muito, apenas existiu por muito tempo. Julgas que navegou muito aquele que, tendo se afastado do porto, foi pego por violenta tempestade e, errante, ficou à mercê dos ventos, ao capricho dos furacões, sem, no entanto, sair do lugar? Ele não navegou muito, apenas foi muito acossado. (Pág. 43)


L&PM Pocket Plus - 84 páginas
2011

A leitura deste leva-nos a compreensão total do aforismo “A vida pode até ser breve, mas o que a prolonga é a arte do seu uso”, e foi um dos melhores livros sobre ética e conduta pessoal que já li em toda a vida. Ele tem o dom daquele que diz coisas que já sabemos, mas de uma forma que nos faz refletir, fixar, compreender, e encontrar motivação para mudar aquilo que deve ser mudado em nossa vida.
Seja em idade jovem ou avançada, pelo menos uma vez na vida você deve ler esta ou qualquer outra obra de Sêneca. Recomendo à todos.

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