18 outubro 2012

Sofrimentos e Poesias de Florbela Espanca [7 livros em 7 dias]

Florbela Espanca já foi mencionada aqui no blog generosas vezes e nunca por acaso, é uma das maiores poetisas portuguesas de toda a literatura.
Em “Poesia de Florbela Espanca – Volume 2”, seu respirar melancólico e toda sua incompreensão a respeito das dores de alma e de amor que sofria são densos e mensurados com intensidade.
Através das 124 poesias contidas nesta compilação vemos um ser inquieto, sorumbático, de dom extraordinário e intimidade com as rimas, encontrando nas palavras a maneira de externar seu sofrimento e desassossego, um ser que de tão grandioso mal coube em si mesmo e segundo se acredita, suicidou-se aos 36 anos no dia do seu aniversário (08/12) com uma sobredose de barbitúricos, que paralisou seu tão oprimido coração para todo o sempre.

Florbela Espanca (1884-1930)
A seleção que fiz das poesias retiradas desta obra condiz atualmente com o meu estado de espirito, e é exatamente isso que aprecio nos livros de poesia, a variação de temas expostos em frases que são refletidos como espelhos de alma em diferentes momentos de nossa vida; sempre há um verso, talvez uma estrofe ou até mesmo uma poesia completa que diga exatamente o que nosso espírito tem para expurgar, como se espremido o pus da ferida mal curada. Ora há identificação com as poesias mais românticas e apaixonadas, ora com as melancólicas e depressivas.
Livros de poesia sempre estão ao meu alcance.

Talvez amanhã as metáforas de nada me sirvam, talvez eu ria de mim ao reler estas poesias ao achar que um dia me coube, mas hoje para mim fazem todo sentido.
E para não fugir do drama eu digo, minha busca por compreensão só encontro nos livros, ninguém é capaz (ou nunca ousou ser capaz) de entender o que realmente sinto, e enlaço minhas mãos às de Florbela nessa inquietude em busca de um não-sei-o-quê, esperando compreensão sei lá de onde.

Inconstância 
Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava.
Eterna sonhadora edificava
Meus castelos de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refugiu.
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Um sol a apagar-se e outro a acender
Nas brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há de partir também... nem eu sei quando...
Pág. 30

Manuscrito original de "Inconstância"
(Biblioteca Nacional de Portugal)

Hora que passa
Vejo-me triste abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura,
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!

Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh'alma triste, dolorida, escura,
Minh'alma sem amor é cinza e pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!

Que tragédia tão funda no meu peito!...
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!

Deus! Como é triste a hora quando morre...
O instante que foge, voa, e passa...
Fiozinho d'água triste... a vida corre...
Pág. 50

O meu impossível
Minh'alma ardente é uma fogueira acessa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito! É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!... Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...

Mas se eu pudesse, a mágoa que em mim chora,
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!...
Pág. 122

Deixai entrar a morte
Deixai entrar a Morte, a Iluminada,
A que vem para mim, para me levar.
Abri todas as portas par em par
Com asas a bater em revoada.

Que sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar
E que, ao abri-las, não encontrou nada!

Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste

Dentro de ti? Pra que eu tivesse sido
Somente o fruto amargo das entranhas
Dum delírio que em má hora foi nascido!...
Pág. 146

http://www.doseliteraria.com.br/2012/09/auto-desafio-7-livros-em-7-dias.html




Esta edição da L&PM Pocket (152 páginas) foi o segundo livro lido no meu último auto-desafio de ler sete livros em sete dias.