22 novembro 2012

1001 Livros: A Hora da Estrela

Não sou a maior conhecedora das obras de Clarice Lispector, mas a escritora sempre esteve presente em minhas leituras através de alguns contos, frases e na minha vontade de conhecer esse mundo miserável e desesperançado que é narrado em “A Hora da Estrela”, considerado uma das suas mais importantes e singulares obras, escrito em 1977, meses antes da autora falecer.

Primeira vez que li esta que é sua única novela (seu legado literário é constituído, na maioria, por contos e romances), e nela, particularmente pude perceber que Clarice já previa, ou talvez desejava sua própria morte, pois são muitos os trechos que insinuam essa inquietação e, ouso dizer, fadiga de vida.

Novela brasileira - Editora Rocco
87 páginas

Fadiga esta em que a protagonista desta curta novela sofre ao longo da história sem ao menos se dar conta, Macabéa, a alagoana retirante que se muda para o Rio de Janeiro depois de se desligar de seu único elo com o nordeste, sua falecida tia.
Infância é algo que Macabéa nunca conheceu o significado, perdeu os pais muito jovem e viveu com essa espécie de madrasta má até os 19 anos. Vida sofrida, de humilhações e de falta de amor, de carinho ou de uma esperança, por mísera que fosse, de um futuro. Macabéa vivia por viver, assim, dia após dia, sem planos, ambições, desejos, mas com muita luta, devorada pela rotina de trabalhar num escritório como datilógrafa, ganhando pouco, o suficiente para pagar o aluguel de um quartinho e a comida do mês, acostumada com as dores estomacais provocadas pela fome, Macabéa sequer se dava conta da triste realidade sofrida, das privações, pois desde o sempre esteve acostumada com abjeções e a pobreza, se conformava em ter a vida que tinha.
Com Olímpico de Jesus, também nordestino, ela mantém um curto relacionamento que nem se pode chamar de amoroso, mas foi o mais próximo do amor que chegou. No entanto, as ambições de Olímpico o fizeram romper o namoro com Macabéa para se envolver com a sua colega de trabalho. Poucas decepções na curta vida desta nossa guerreira é bobagem.
Já desacorçoada, é nas mãos de uma cartomante que a nossa infeliz heroína procura sua última esperança, e descobre seu destino. Claro que eu torci muito para que fosse de fato verdade o que a cartomante previu, mas...



Clarice Lispector (1925-1977)

Quem narra a história desta desafortunada donzela é Rodrigo S. M. que não é nem um pseudônimo, nem um alter-ego de Clarice Lispector, mas que ao meu ver pareceu uma mistura dos dois junto com as características de um contador de histórias dentro da história. Achei fantástico! Li esse livro sem interrupção, numa tarde só, não me permiti largar a leitura sem conhecer o final da história, sem contar que a narrativa de Lispector é uma das coisas mais ricas que a nossa literatura possui. Uma história tão triste sendo contada num tom meio sarcástico, diria até com um certo humor negro, porque Macabéa que me desculpe, não pude conter o riso com alguns de seus desastres e com a sua medonha ignorância.

O que dizer desse clássico? Citado no 1001 Livros Para Ler Antes de Morrer, sempre indispensáveis nas leituras de vestibular, e uma obra que nos faz ter orgulho da nossa língua pátria, pois em outros idiomas a história perde muito do balanço que a narração conduz.
Não dá para escrever sobre Clarice Lispector sem ler Clarice Lispector.
Como escritora, mãe, mulher, é simplesmente encantadora! Sempre fui fã, agora muito mais.

Alguns dos trechos preferidos que selecionei, retirados da obra:

“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.” Pág. 18

"Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados.” Pág. 19

“Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.” Pág. 21

“Estou absolutamente cansado de literatura; só a mudez me faz companhia. Se ainda escrevo é porque nada mais tenho a fazer no mundo enquanto espero a morte. A procura da palavra no escuro. O pequeno sucesso me invade e me põe no olho da rua. Eu queria chafurdar no lodo, minha necessidade de baixeza eu mal controlo, a necessidade da orgia e do pior gozo absoluto. O pecado me atrai, o que é proibido me fascina.” Pág. 70

“Quanto a mim, substituo o ato da morte por um seu símbolo. Símbolo este que pode se resumir num profundo beijo mas não na parede áspera e sim boca a boca na agonia do prazer que é a morte. Eu, que simbolicamente morro várias vezes só para experimentar a ressurreição.” Pág. 83 

 Obrigada Gaby, pela sábia escolha e por este belíssimo presente! <3