19 novembro 2012

A confissão da leoa, Mia Couto

A resenha a seguir foi escrita pela convidada Talita Librelon.

Recentemente, o escritor angolano José Eduardo Agualusa afirmou que o último livro de Mia Couto é uma obra-prima. Apesar de ser “cedo” para determinar um cânone, afinal o livro acaba de ser publicado, acredito que a obra do moçambicano está entre as mais belas e importantes da literatura de língua portuguesa.

O autor parte de um episódio real, ocorrido no interior de Moçambique, para criar sua ficção sobre alguns ataques de leões à população, especialmente às mulheres. Num primeiro momento, o enredo poderia nos remeter ao filme de 1996, A Sombra e a Escuridão, com Val Kilmer no elenco, porém muito pouco ou quase nada (a não ser os ataques dos felinos), aproximam as duas obras. No livro de Mia Couto a África descrita tem a voz de sua população, ou seja, é a voz nativa que fala de suas dores, afastando possíveis clichês, como o do “salvador branco” que aparece no filme.

Há no livro dois narradores que se alternam contando a história, o que nos possibilita visões ampliadas do ocorrido, e de como vive parte da população africana, dividida entre tradições e a assimilação cultural. Mariamar, a moradora da vila que escreve em seu diário a dureza de sua vida, abre-nos um mundo de injustiças e crueldades que sofrem as mulheres em África, numa sociedade patriarcal, sexista e muitas vezes violenta. Arcanjo, o caçador, também nos apresenta um mundo doloroso (o da loucura, por vezes opcional), mas acima de tudo a visão do solitário. Essas vidas que se cruzam são o pilar do romance. Mais que uma história sobre exotismos de África é sobre seres humanos que se buscam, se perdem e se encontram, não necessariamente como desejavam.

A linguagem poética do escritor está presente e para quem não conhece nada da obra de Mia, seria interessante começar por esta. Isto porque apesar do trabalho cuidadoso com palavras (o escritor se diz um poeta que se expressa em prosa) não há neste livro os neologismos recorrentes em outras obras.

É o tipo de obra da qual não saímos os mesmos depois de lê-la!

Mia Couto