17 novembro 2012

É possível sentir saudades do que você nunca viveu?

O Dose Literária é uma espécie de ágora. Gosto de atribuir esse termo porque acho este espaço muito plural, democrático, participativo. Nós compartilhamos da crença de que não importa quantas resenhas ou impressões sejam expostas sobre o mesmo livro, elas sempre serão diferentes porque trazem o olhar de cada autora. É o que acontece agora, com o livro "Memórias de Minhas Putas Tristes", que foi resenhado pela Eni e, agora, terá mais um registro aqui. 

Eu já havia experimentando "Do Amor e Outros Demônios" (FANTÁSTICO!), romance do honroso autor colombiano Gabriel García Márquez. E - detalhe importante - me apaixonei! Por que não apostar de novo? E foi o que eu fiz. Apesar das recomendações insistentes em outro título (devidamente guardado para uma futura degustação), me decidi por "Memórias de Minhas Putas Tristes" (Record, tradução de Eric Nepomuceno, 132 pág.). 

"Nome intrigante", pensei. "Deve ser alguma coisa relacionada à crítica social, personagens sufocados, paixão..." E foi então que, dois dias depois, vi que eu sucumbi àquela leitura muito mais do que esperava. A emblemática história de um senhor, no auge dos seus noventa anos, que, completamente perdido em uma vida comum, sem amores, sem expectativas, sem ânsias e desejos secretos, se vê às voltas com a 'desordem' que só sentimentos como o amor podem acarretar. O "sábio" (inclusive, friso que adorei este termo, exposto no livro vez por outra para se referir ao nonagenário), decide comemorar sua entrada em uma nova década (a última, como ele tanto teme) na companhia de uma moça, ninfetinha, virgem e pura. Para isso, entra em contato com sua antiga conhecida, a cafetina Rosa Cabarcas, e 'encomenda' a menina. 

Gabriel Garcia Márquez com os olhos fixos em você!
Como tudo na vida costuma ser um tanto enigmático (mais perguntas, por favor, solicite audiência com o futuro), o ancião encontra na virgem adormecida em um quarto barato de armazém, a paixão de viver que tanto lhe faltava. Chega a ser angustiante acompanhar as tentativas de separação e lucidez do narrador, que sempre beiram à descobertas e dilemas 'à primeira vista.' A mistura de realidade com ficção é um dos pontos altos do texto, levando o leitor ao questionamento: É possível sentir saudades do que você nunca viveu? 

Muitas vezes, eu já me surpreendi pensando sobre isso. E concordo com o narrador: não só é possível, como, algumas vezes, a ficção ofusca o valor do real. Depois de torturas, encontros, desencontros e "boleros sentimentais", o ancião desvenda os mistérios de um primeiro amor e passa a sentir que a vida é muito mais do que desapego mecânico: é aposta, confusão e tentativa.