09 novembro 2012

O Corcunda de Notre Dame

O texto a seguir foi escrito pelo nosso colaborador Fábio Michelete.

Catedral de Notre Dame em Paris

O Arcediago e o Corcunda de Notre Dame

Por trás de uma descrição meticulosa (ok, as vezes cansativa) da arquitetura de Paris no tempo medieval, Vitor Hugo desenvolve o famoso romance. A mim, mais do que a abnegada paixão do corcunda Quasímodo  fez-se sentir a paixão de seu tutor, o Arcediago da igreja de Notre Dame. 

Devotado às ciências, à alquimia e aos estudos, foi capturado pelo apelo sedutor da cigana Esmeralda. A partir daí, sua paz o abandona, e passa a respirar apenas para estar com sua amada.

É interessante como o autor vai despretensiosamente incluindo personagens, contando-lhes passagens as vezes não-relacionadas ao enredo principal, mas que se entrelaçam de maneira inteligente quando é preciso. Dá ao leitor uma sensação cinematográfica – ampliada pela riqueza descritiva – mas principalmente pela sensação de que alguém selecionou as cenas que vamos ver – e que são sempre todas relevantes. Faz-nos entender as personagens sem descrever-lhes as características.

O sofrimento do Arcediago e de Quasímodo pela Cigana, e da Cigana pelo capitão mostram como ambos os gêneros podem ser românticos, e o quanto a entrega às paixões é embriagante – droga poderosa e destruidora. 


O Arcediago, contando de como era feliz antes de conhecer a cigana Esmeralda: "...Não me interrompas. - Sim, era feliz, pensava sê-lo, pelo menos. Era puro, tinha a alma cheia duma claridade límpida. Não havia fronte que se erguesse mais altiva nem mais radiosa que a minha. Os padres consultavam-me sobre a castidade, os doutores sobre a doutrina. Sim, a ciência era tudo para mim; era uma irmã, e essa irmã bastava-me. Não quer dizer que com a idade não me viessem outras idéias. Por mais de uma vez a minha carne se emocionara com a passagem duma forma de mulher. A força do sexo e do sangue do homem, que, louco adolescente, julgara ter sufocado por toda a vida, tinham por mais de uma vez soerguido convulsivamente a cadeia de votos de ferro que me prendem, miserável, às frias pedras do altar. Mas o jejum, a oração, o estudo, as macerações do claustro, tinham conseguido tornar a alma senhora do corpo. Depois, fugia das mulheres. Bastava-me abrir um livro para que todos os impuros fumos do meu cérebro se dissipassem, perante o esplendor da ciência." 

E depois de conhecê-la:..."Eu vou cair sobre estas pedras se não tens piedade de mim, piedade de ti. Não nos condenes a ambos. Se soubesses quanto eu te amo! Que coração palpita aqui no meu peito! Oh! Que deserção de toda a virtude! Que abandono desesperado de mim mesmo! Doutor, ultrajo a ciência; nobre, quebro o meu brasão; padre, faço do missal um travesseiro de luxúria, escarro no rosto do meu Deus! Tudo isto por tua causa, encantadora! Para ser mais digno do teu inferno!"

Esmeralda e Quasímodo (versão cinematográfica de 1939.