04 novembro 2012

TOP 5: Distopias (e um adendo)

Falar em distopias literárias é sempre falar de um mundo futuro sem expectativas de uma vida como a que temos agora. É fantástico e ao mesmo tempo, pesaroso. 
Fantástico pois o mundo novo nos apresentado sempre é uma experiência absurda porém não irreal (ou difícil de acontecer em alguns casos).
Pesaroso pois falar de distopia é falar (na maioria das vezes) de autoritarismo/totalitarismo e controle de uma sociedade.
Abaixo, alguns livros distópicos do meu top 5 e um título que me chamou a atenção mas acabou escorregando no meio de sua saga.


1984 - George Orwell
Falar desse livro, pra mim, é falar da minha saga e paixão por livros distópicos.
Um futuro (o livro foi escrito em 1948) não muito distante, Winston é um funcionário mediano e "apagado" de uma das empresas do governo que é liderado pela figura quase mística do Grande Irmão (big brother) que com seus olhos podia tudo ver e com seus ouvidos tudo escutar.
Não há saídas nem esperanças, só destruição e decadência, além da obediência e ódio cego ao arqui-inimigo Goldstein que provoca furor quando sua figura é apresentada na tv pública (as teletelas) anunciando mais um de seus maléficos planos para abalar o sistema.
Winston encontra na figura de Julia (uma moça aparentemente ferrenha defensora do regime) uma saída amorosa para sua vida de marasmo.
Mas será que ela é "tudo isso" mesmo?
A Eni escreveu um excelente texto sobre o livro, inclusive citando o homônimo filme, aqui.



Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley
Esse livro narra um possível mundo no futuro onde a sociedade é divida por castas e tal qual a sociedade indiana (que ainda é assim), você nasce pertencente a um certo grupo, fadado à trabalhar com certo tipo de coisa e a se relacionar com x tipo de pessoa pertencente ao mesmo círculo que você. Não há como fugir, é decidido nas provetas onde você é gerado e um composto químico é colocado em maiores ou menores doses para fisicamente fazer as alterações necessárias.
As pessoas são felizes através do Soma (uma espécie de anti depressivo absurdamente eficaz), a educação sexual é influenciada desde a menor idade possível (os chamados "jogos sexuais") mas todos são desestimulados a ter filhos, impossibilitando assim os laços fraternos mais profundos e a ideia de família.
Também é incentivada a promiscuidade como forma de dar vazão a sexualidade, monogamia é proibido.
As figuras centrais do livro giram em torno de John, "O Selvagem" (cuja mãe é beta-mais e engravidou quando se perdeu numa viagem ao Novo México), e Bernard, um alfa-mais cuja aparência não está condizente com sua posição social decorrente de um erro em sua "gestação".
Imperdível.


Laranja Mecânica - Anthony Burgess
Simplesmente meu autor favorito de todos os tempos.
Burgess tem o dedo certo para distopias e, juntamente com os dois acima, Laranja Mecânica é a tríade desse tipo literário fechando o círculo sobre o básico para começar a entender esse tema.
A maioria conhece pela excelente adaptação para o cinema nas mãos de Kubrick e realmente não foge muito ao filme.
Num mundo onde não há controle sobre a população e sim um certo descaso social, Alex DeLarge da vazão a sua misantropia praticando atos de violência extrema e gratuita juntamente com seus Droogs (sua gangue).
Perfeitamente aditivados com Moloko Vellocet da "lojinha de leite" e munidos de uma frieza atroz, DeLarge e CIA vão praticando seus atos até que ele é pego pela polícia e...
...bem, o resto é a história.

Curiosidade pra quem não leu ainda: a linguagem usada tem muitas frases usando a gíria Nadsat, criada por Burgess, e complicadíssima de entender. Ainda bem que existe no final do livro um "dicionário" que - garanto - vocês irão recorrer a todo momento pelo menos nas 50 primeiras páginas.


Não verás país nenhum - Ignácio Loyola Brandão
Meu favorito da lista!
Numa São Paulo também do futuro, Ignácio traça um perfil bem desanimador sobre as condições da natureza e a dificuldade de sobrevivência nessas condições.
Souza é um morador/trabalhador dessa metrópole e muito entediado com a vida que leva. Inconformado com suas lembranças de uma infância com comida natural e temperatura mais amena, ele é uma espécie de revoltado "calado". Também, como haveria de ser com um governo surdo?
Algo dentro dele muda quando, numa manhã, ele acorda com um buraco (sim, um bu-ra-co) em sua mão que vai aumentando com o passar do tempo. Sua mulher é o desânimo em pessoa: só se preocupa com os cupons de comida/água e em levar sua vida assim bem mais ou menos.
Souza acorda pra o que está acontecendo e parte para uma jornada em busca do nada passando por "bolsões de ar quente" (onde quem tiver o azar de pisar entra em combustão imediata), fugindo do sol castigante, da polícia e em busca do ítem mais precioso do seu tempo: água.
Qualquer semelhança com o que nos está acontecendo aos poucos será mera coincidência?
Tenho medo.


Nós - Eugene Zamiatin
Os leitores que desculpem meu palavriado mas... essa  p****  foi bem difícil de achar.
Meu conhecimento desse livro se deu através do prefácio do livro 1985, também do Burgess, onde ele citava algumas inspirações para esse livro. Zamiatin estava entre eles.
Um dos livros distópicos mais antigos de que se tem notícia: escrito entre 1920/21.
Qualquer semelhança de Nós com 1984 também não é mera coincidência pois Orwell já disse que o romance também o inspirou na criação de sua maior obra.
O livro narra as impressões de um cientista de nome D-503 sobre o mundo que vive, também totalitário e cheio de regras absurdas, e a figura do Benfeitor que rege toda essa estrutura.
O tema central gira entorno da obsessão liberdade x felicidade que é a base da reflexão de D-503.
Complicadinho de achar e o preço também meio salgado, mas vale demais a pena.
Aqui no Brasil, creio que ainda está sendo comercializado pela Editora Alfa-Ômega que é de onde vem o meu exemplar.



O adendo:
A decepção com a trilogia Feios, Perfeitos e Especiais de Scott Westerfeld


Já começo essa parte citando a Michelle: escrever sobre o que gostamos é mais complicado que "meter o pau" no que detestamos, então eu não vou me prolongar nesse daqui.
Não vou mentir: adorei Feios. Me empolgou e eu achei Tally Youngblood corajosa e emocionante.
Mas deixa eu rebobinar meus pensamentos pra dar uma resenha básica.
Num futuro onde ser feio não é mais um problema, Tally espera ansiosamente para fazer 16 anos - a idade em que todos passam pela transformação de normais (ou "feios", como eles chamam) para perfeitos e mudam para uma cidade onde todos são perfeitos, namoram perfeitos e só se divertem e fazem festa dia e noite.
O problema é: enredo e ideias muito boas, mas escorrega FEIO (hahaha) ao tentar, no segundo volume, fazer com que Tally pareça quase um Jesus Cristo de sua geração. Ela vira mártir da causa (não vou contar qual é), se "sacrifica" e a coisa vai ficando tão enrolada que eu fiquei com preguiça e nem passei adiante, ou seja, pro livro Especiais.
E ainda tem o último da saga, o tal do Extras. E dele eu nem pretendo chegar perto. Já vi o suficiente.
Fraco, só isso que eu achei.